ermidas
Templos de pequena dimensão, as ermidas são uma das mais antigas manifestações materiais da religiosidade católica. Geralmente submetidas a uma igreja paroquial, as ermidas podem ter múltiplas utilidades, designadamente funcionando como zonas de oração, como centros dinamizadores de romarias e/ou ainda como áreas de administração de serviços sacramentais. Nos Açores, a devoção metropolitana foi uma das bagagens culturais trazida pelos primeiros povoadores e a edificação de ermidas foi um dos traços marcantes transplantado para as ilhas: uma das iniciativas dos primeiros habitantes que desembarcaram em S. Miguel foi a fundação de uma ermida dedicada a Santa Bárbara, na zona da Lomba do Carro, na Povoação, na qual se celebrou a primeira missa. Assim, a proliferação de ermidas por todo o arquipélago foi uma realidade desde o século XV, principalmente fruto da devoção dos povoadores oriundos de diversas partes.
Arquitectonicamente, as ermidas têm uma estrutura simples: com dimensões reduzidas, com uma única nave, só com um altar, geralmente sem baptistério e com poucas capelas. Os actuais edifícios são, naturalmente, reconstruções dos séculos XVIII e XIX, após a ruína ou os terramotos que causaram o desmoronamento de muitos destes espaços. Na sua maioria, eram edificados em zonas isoladas e distantes dos principais povoados, embora nos nossos dias se encontrem dentro das áreas de povoamento pela natural expansão dos aglomerados populacionais. As longas deslocações que o quotidiano insular impunha aos açorianos, calcorreando as ilhas com objectivos diversos, fazia com que as ermidas se tornassem pólos de segurança e de descanso de longas jornadas. Veja-se o caso das ermidas de S. Gonçalo, Santa Ana, Mãe de Deus e Nossa Senhora do Loreto, localizadas na periferia da cidade de Ponta Delgada, em S. Miguel, (actualmente fazendo parte da malha urbana) e que funcionavam como zonas de protecção e de repouso a todos os que se deslocavam até ao coração da cidade. Noutros casos, os templos foram edificados em áreas estratégicas, nomeadamente junto das orlas marítimas, de forma a assegurar a defesa das populações. É o caso da ermida de Nossa Senhora da Conceição, edificada junto ao mar no século XVI, com o propósito de colocar o litoral da zona da Caloura sob a protecção divina para evitar a entrada de inimigos na ilha.
De uma forma geral, a erecção de ermidas nos Açores partiu de iniciativas particulares. A leitura de crónicas, de testamentos, de livros de tombo, entre outras fontes, aponta para a proliferação deste mecenato religioso. Os motivos que o suportavam eram diversos: a piedade religiosa, a devoção pessoal, o pagamento de favores divinos e a caridade para com os vizinhos, que desta forma podiam usufruir dos serviços eucarísticos aí administrados, eram os argumentos mais usuais apresentados pelos vários fundadores. Veja-se o caso da ermida de Santo Amaro, fundada na ilha do Faial por Brás Pereira Sarmento, em agradecimento ao santo que o salvara do ataque de corsários, em 1525. Por sua vez, já nos inícios do século XIX, o morgado Agostinho de Medeiros Canto Costa e Albuquerque e sua mulher, D. Joana Ricarda Soares de Albergaria, pedem autorização para fundar uma ermida numa quinta situada na periferia da cidade de Ponta Delgada, argumentando a possibilidade de aí se celebrar missa para todos os moradores durante o período estival e de colheitas.
A realçar ainda a função funerária das ermidas, que por vezes eram edificadas com o objectivo de albergarem os restos mortais dos fundadores e de toda a sua linhagem. Nestes casos, pretendia-se que os elos familiares terrenos se prolongassem para o Além, individualizando-se um núcleo familiar dos demais habitantes que partilhavam as covas existentes no interior e nos adros das igrejas. Esta competência fúnebre das ermidas prolongou-se para os cemitérios públicos que o Liberalismo impôs, como se observa pela edificação de pequenas ermidas no interior dos recintos cemiteriais, mantendo-se na morte a mesma diferenciação económica-social registada em vida.
O discurso oficial da diocese de Angra contribuía para a proliferação das ermidas privadas. As autoridades eclesiásticas salientavam os benefícios espirituais alcançados por todos aqueles que zelassem pela sua fundação e administração e, por isso, só permitiam a construção de ermidas mediante a garantia do seu suprimento e manutenção. Por isso, desde o início do povoamento das ilhas, a edificação de ermidas foi uma estratégia levado a cabo por diversos poderosos que procuravam, através deste acto, a sobrevalorização do seu património financeiro e familiar e a publicitação do seu estatuto social. Veja-se a fundação da ermida de S. Sebastião, na cidade de Ponta Delgada, pelos avós do coronel Francisco Jerónimo Pacheco de Castro, criada com o propósito de mostrar o «explendor, e nobreza da sua caza». A concessão de rendas (oriundas de propriedades fundiárias, casas, foros, juros ou outro tipo de receitas) às ermidas tornava-se a principal incumbência dos padroeiros, responsáveis pela manutenção dos edifícios e das respectivas alfaias. Desta forma, na maioria dos casos, as ermidas ficavam sob o patrocínio de uma elite composta por sacerdotes, capitães, sargentos, morgados e donas. Mas também observamos que, em determinadas circunstâncias, as iniciativas dos nobilitados são imitadas pelos menos ilustres. Nos finais do século XVI, a ermida de S. Pedro da freguesia de Nossa Senhora do Rosário, na vila da Lagoa, é edificada pela conjugação de esforços de um pescador e dois lavradores. Contudo, o investimento dos diversos grupos sociais na erecção de espaços religiosos é um fenómeno que tende a reduzir-se a partir de meados do século XVIII, provocando a deterioração de muitos edifícios a partir desta centúria. De acordo com a documentação disponível, designadamente os relatos feitos pelos visitadores diocesanos, muitos administradores deixam de aplicar as rendas patrimoniais na manutenção das ermidas, alheios às penalizações e às ameaças em que incorriam. Em determinados casos, a desvalorização das rendas tradicionais obrigava alguns padroeiros a tentarem inovar os recursos de financiamento, mas a diocese era extremamente rígida a este respeito. Assim, em 1811, o bispo D. José Pegado de Azevedo obriga a administradora da ermida de Nossa Senhora de Guadalupe a retirar a caixa de esmolas que ela aí tinha colocado com o propósito de angariar algumas receitas extraordinárias. Nos finais do século XVIII, o paulatino desleixo dos padroeiros obriga a diocese a tomar medidas mais drásticas, que incluíam o sequestro dos bens dos templos. O contínuo relaxamento sobre a manutenção dos templos é acompanhado pela diminuição do ritmo de edificação de novas ermidas. Este factor resulta de duas razões essenciais: a optimização das receitas nobiliárquicas em prol de outros mecanismos religiosos que garantiam a supremacia social da elite insular e a dispensabilidade destes locais de culto, perante o crescimento da malha paroquial micaelense materializada pela multiplicidade de curatos. Com efeito, muitas das ermidas açorianas foram, progressivamente, assumindo competências pastorais de maior relevância. Este fenómeno é particularmente visível a partir do século XVIII, quando o crescimento demográfico obriga as entidades diocesanas a aumentar o número de espaços e de serviços religiosos. Assim, as ermidas das zonas rurais ou periféricas assumiram uma legitimidade conferida pela prestação do serviço público que garantiam, uma vez que os moradores dessas áreas passavam a poder usufruir de diversos sacramentos sem necessidade de se deslocarem às igrejas mais longínquas. Já no século XVII, os povoados com cerca de 190 almas de confissão podiam usufruir de um curato instituído numa das ermidas locais, dirigido por um sacerdote pago pela Ordem de Cristo. Mas mesmo os núcleos com uma população inferior a 100 almas de confissão, quando situados em zonas muito periféricas ou com dificuldades de comunicação devido à geografia dos terrenos, tinham direito a um cura que todas as semanas se encarregava da eucaristia dominical. Estes curas poderiam ficar permanentemente afectos às ermidas ou serem semanalmente recrutados entre os beneficiados paroquiais, como verificamos em 1722, quando o bispo D. Manuel Álvares da Costa ordena que o cura da igreja de S. Bento da ilha Terceira vá todos os domingos dizer missa na ermida de S. Luís.
A função e as responsabilidades sacramentais destes curas eram fiscalizadas no período das visitas pastorais. Nas zonas rurais, o abandono das habitações aos domingos e dias santos era uma tentação para marginais e animais. Desta forma, era necessário que um membro de cada família ficasse a guardar a casa enquanto os demais se deslocavam à ermida. Por isso, as autoridades eclesiásticas obrigavam que as missas nas ermidas fossem celebradas muito cedo (após o nascimento do Sol), para que o indivíduo que guardara a habitação pudesse deslocar-se à igreja para assistir à missa da paróquia, que se iniciava por volta da 9 horas. Obrigavam ainda que os curas transmitissem aos fiéis os dias de jejum e de preceito, para que as faltas e os desvios de comportamento não fossem justificados com a ignorância.
Quando as ermidas não tinham padroeiros, a sua manutenção era uma obrigação dos fiéis. Nestes casos, o vigário da igreja paroquial nomeava um indivíduo que, sob o título de ermitão, ficava responsável pela manutenção dos templos e dos respectivos paramentos. A principal competência dos ermitões era a recolha de esmolas junto dos devotos da freguesia. Todavia, ocasionalmente, as necessidades financeiras obrigavam os ermitões a percorrer toda a ilha. Nestes casos, para incentivar a piedade de uma população naturalmente pouco devota a santos estranhos, os ermitões levavam as próprias imagens com eles, apesar das proibições da diocese de Angra. Estes templos periféricos eram dinamizadores de diversas romarias, às quais acorriam os vários sectores da sociedade açoriana. Com uma maior expressividade nos períodos primaveril e estival, as romarias aglomeravam principalmente os grupos sociais menos elevados que associavam a devoção religiosa ao lazer e convívio que tais acontecimentos proporcionavam. Neste sentido, a vigilância da diocese de Angra era grande, nomeadamente proibindo que os fiéis pernoitassem nesses templos e regulamentando o convívio entre os dois sexos.
O registo do expediente financeiro das ermidas era apontado nos respectivos livros de receita e despesa, custeados pela sua fábrica. A análise destes núcleos documentais permite-nos conhecer o quotidiano dos templos açorianos, das necessidades mais básicas (como a limpeza do edifício e dos paramentos, que deveriam ser arejados duas vezes por mês) até às mais elaboradas. Neste sentido, os gastos com a manutenção dos símbolos de devoção eram consideráveis, pois na sua maioria tratavam-se de obras exigentes. Tome-se como exemplo a aquisição das imagens dos santos padroeiros, muitas delas compradas na metrópole, feitas por mestres lisboetas, e que justificavam uma despesa considerável.
Nas ilhas açorianas merecem destaque, pela sua relevância, as ermidas dedicadas à Terceira Pessoa da Trindade. Marca fundamental da cultura popular açoriana, a devoção ao culto do Espírito Santo expressa-se, para além de diversos fenómenos, pela construção dos impérios que, na ilha Terceira, assumem uma individualidade estética que merece ser realçada. A pintura destes edifícios com cores vivas é uma expressão simbólica da alegria anexa à devoção do Espírito Santo, que se manifesta nas restantes actividades festivas anexas a estas festividades. O cuidado que os terceirenses têm, actualmente, para com estes templos reflecte que, apesar das vicissitudes do século XIX, a devoção popular sobreviveu e abrilhantou um nicho da religiosidade açoriana. Esta permanência espelha-se, ocasionalmente, em outros sectores e ilhas. Assim, algumas instituições públicas, designadamente aquelas relacionadas com o poder local civil ou religioso, têm procurado recuperar, revitalizar e acrescentar algumas ermidas, como verificamos com os painéis afectos à ermida de Nossa Senhora do Pranto, construídos em 1994 pela Câmara Municipal do Nordeste, em S. Miguel, ou pela dinâmica que ainda hoje provoca a ermida de Nossa Senhora do Pranto, no concelho de Vila Franca do Campo da mesma ilha, desde há muito um templo de intensa romaria. Susana Goulart Costa
Fontes. Arquivo Paroquial da Igreja do Espírito Santo da Maia, Livro de capítulos de visitas (1789-1828). Arquivo Paroquial da Igreja de Miguel Arcanjo de Vila Franca do Campo, Livro de capítulos de visitas (1674-1770). Arquivo Paroquial da Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Lagoa, Livro de capítulos de visitas (1744-1809). Arquivo Paroquial da Igreja de S. Miguel Arcanjo de Vila Franca do Campo, Livro de capítulos de visitas (1674-1770). Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Fundo José de Torres, Variedades Açoreanas, volS. 3 e 7.
Bibl. Costa, S. G. (2003), Viver e Morrer religiosamente. Ilha de São Miguel, século XVIII. Tese de doutoramento, Universidade dos Açores (policopiado). Drummond, F. F. (1990), Apontamentos topográficos, políticos, civis e eclesiásticos para a história das nove ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira. Lima, M. (1940), Anais do Município da Horta. Famalicão, Oficinas Gráficas Minerva.
