ensaístas
filosofia Englobamos nesta designação autores que, nas suas obras, apresentam uma exposição coerente de temas filosóficos, equacionando-os e debatendo-os segundo uma ordem interna de razões. Nem todos, certamente, apresentam a mesma importância e grau de profundidade, pelo que, algumas dessas obras, pela sua originalidade e metodologia adoptada, talvez devessem ser integradas, com mais propriedade, num género de exposição de tipo tratadista. Inclui-se nesta categoria, para além de outras, a do P.e António *Cordeiro (1640-1722), autor da História Insulana, o primeiro pensador açoriano de relevo, que logrou alcançar ampla projecção no país e também além-fronteiras. A sua obra no domínio da filosofia, o Cursus Philosophicus Conimbricensis (1714), expõe as matérias de lógica, física, psicologia e metafísica, conforme estabelecia o plano de estudos do curso. Porém, muito embora o ensino da Filosofia seguisse uma orientação escolástica aristotélico-tomista, integra concepções modernas, em particular de Descartes e Gassendi. Sobressai uma certa forma de inatismo do conhecimento, ao sustentar que nenhuma ciência é «adquirida por nós inteiramente de novo», mas consoante as inclinações ou aptidões naturais, ou seja, segundo a intensidade do «hábito» de cada um.
Ao nível da teoria psicológica do conhecimento, as «espécies impressas», que os escolásticos julgavam necessárias para que o intelecto pudesse conhecer os objectos exteriores, tornam-se destituídas de sentido, pois essas estruturas representativas não são distintas dos objectos, mas são a própria impressão da substância que afecta os órgãos dos sentidos e se transmite pelos nervos ao cérebro. Aliás, o conhecimento dos objectos não é assegurado pelos sentidos, nomeadamente as suas qualidades primárias (figura, grandeza, movimento, repouso, duração, distância e situação), que são ideias formadas ou percebidas pela mente, embora por ocasião das impressões que os objectos produzem nos sentidos. Pelo contrário, as qualidades secundárias (cor, sabor, cheiro e som) pertencem apenas à substância material, por isso o seu conhecimento carece de rigor. Por outro lado, ao recusar, tal como Descartes, a existência das formas substanciais, isto é, as almas vegetativa e animal, que eram consideradas os princípios de vida das plantas e dos animais, respectivamente, concebe a origem de todos os fenómenos a partir do movimento. Será a «mistura» ou combinação mecânica das qualidades físicas da matéria, como o calor, o frio, o seco, o húmido, que dá origem à vida, o que o levou a desenvolver uma concepção atomista ou corpuscular da matéria e dos corpos, semelhante à formulada por Gassendi, que teria conhecido de modo indirecto.
Duma época anterior e de expressão menos significativa neste domínio, Gaspar Frutuoso (1522-1591) fez anteceder, como era usual na época, as Saudades da Terra de uma extensa reflexão, ao longo dos oito capítulos que dão início ao livro primeiro da obra, em que expõe o sentido e o alcance da dimensão histórica do homem, bem como as exigências da autenticidade do conhecimento, a partir do confronto entre duas personificações, a Verdade e a Fama, que reaparecem periodicamente ao longo de toda a obra. Mas foi nos séculos XIX e XX que diversos pensadores açorianos marcaram de forma expressiva o conspecto cultural português do seu tempo.
Antero de Quental (1842-1891) foi certamente um caso exemplar de notoriedade nos campos da poesia e do pensamento. Aos seus sonetos, de elevada densidade filosófica, acrescentam-se alguns ensaios em que procurou expor o «conjunto definido e ligado de ideias» que respondiam aos conflitos teórico-existenciais que o atormentavam. Destacamos A Filosofia da Natureza dos Naturalistas, ensaio publicado inicialmente num jornal do Porto, em 1886, em que procura conciliar o fascínio sedutor que o sistema idealista de Hegel conferia à filosofia da natureza e os dados incontornáveis do naturalismo evolucionista, hostil a qualquer cedência de ordem metafísica que se afastasse do terreno da positividade dos dados da ciência. A explicação da natureza completa-se no horizonte do «sistema das ideias» da razão, onde é possível compreender como a interpretação científica do mundo se harmoniza com as ideias metafísicas de espírito, liberdade e finalidade, que a especulação filosófica clarifica. Como já tinha manifestado no Ensaio sobre as Bases Filosóficas da Moral ou Filosofia da Liberdade, obra incompleta e publicada postumamente, Antero preocupava-se em conciliar a liberdade humana e o determinismo, que as ciências da natureza mostravam ser irrecusável, e em Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, publicado inicialmente na Revista Portugal, em 1890, atribui à consciência a capacidade de conhecer o que as ciências da natureza ignoram, o ser verdadeiro das coisas.
Francisco Machado de Faria e Maia (1841-1923), natural de Ponta Delgada e companheiro de Antero em Coimbra, de quem foi íntimo amigo, tornou-se conhecido através do ensaio Determinação e Desenvolvimento da Ideia do Direito ou Síntese da Vida Jurídica, publicado como separata da revista O Instituto, de 1878. Preocupa-se em identificar os fundamentos mais simples que sustentam as relações entre as vontades individuais, ou seja, os elementos geradores do direito, como a liberdade, o governo, a lei e a justiça, que conferem unidade orgânica à diversidade das relações do sistema jurídico. As concepções epistemológicas de Faria e Maia e a sua ontologia desenvolvem-se sob uma nítida inspiração das temáticas e orientações dos principais representantes do pensamento positivista e evolucionista, que se traduzem numa visão evolutiva do Homem e do Universo como expressão de uma força ou elemento único, cuja lei geral e objectiva é preciso definir.
Caetano de Andrade *Albuquerque (1844-1900), nascido em Roma, mas descendente de uma antiga família de Ponta Delgada, cidade onde viveu e exerceu cargos de relevo, doutorou-se em Direito, em Coimbra, com a dissertação inaugural publicada com o título Direitos dos Operários. Estudos sobre as Greves (1870). Seguindo a linha de pensamento de Michelet e Proudhon, defende a ideia de que a justiça constitui o princípio fundamental da reforma liberal de qualquer Estado que queira promover a verdadeira harmonia social. Atendendo, em particular, aos problemas sociais suscitados pelo fenómeno da industrialização, justifica o direito dos operários à greve como o justo exercício do direito de petição em defesa dos seus interesses. Na colectânea Horas de Estudo (1869) incluiu o ensaio «Relação da Filosofia do Direito com os princípios da finalidade humana», em que estabelece como fins de toda a acção humana o conhecimento da verdade e a realização do bem. O bem é entendido na sua dimensão racional e moral, e não ao nível do bem-estar sensual. É neste sentido que interpreta a concepção utilitarista de Jeremias Bentham, que recusa compreender em termos de defesa «do egoísmo e dos sentimentos materiais», mas antes como promoção do que convém a toda a sociedade, que é onde se fundamenta o direito, ou seja, a legislação civil, criminal e política.
Teófilo *Braga (1843-1924), natural de Ponta Delgada, estudou Direito em Coimbra, tendo ainda como estudante publicado Poesia do Direito (1865), em que manifesta uma profunda influência das concepções de Vico, ao admitir uma relação estreita entre o direito e a religião ao longo das três fases da evolução da humanidade, a saber: divina, heróica e humana. O tema da religião voltará a ser tratado em Origens Poéticas do Cristianismo (1880) e em As Lendas Cristãs (1892), dois ensaios pertencentes já à sua fase positivista. A religião cristã é submetida ao exame do método histórico-comparativo a fim de encontrar as motivações autênticas que suscitaram a adesão dos povos, no período anterior à sua sistematização teológica e doutrinação eclesiástica.
Mas as suas obras mais importantes, no domínio da filosofia positivista, são Traços Gerais da Filosofia Positiva (1877); História Universal. Esboço de Sociologia Descritiva, 2 vols. (1879 e 1882) e Sistema de Sociologia (1884). Em muitos aspectos da sua obra, Teófilo não se limita a uma mera difusão das concepções de Comte e de Littré, mas propõe-se renová-las, de modo a integrar os contributos trazidos pela fisiologia e pela etnologia. Assim, a lei dos três estados procura traduzir o processo que permite equipar o cérebro com noções empíricas suficientes para dissipar as confusões entre a realidade, susceptível de ser observada, e a aparência, que é produto da imaginação. A concepção teofiliana de filosofia não diverge da de Comte, estando intimamente ligada ao processo usado por cada ciência para definir os seus princípios fundamentais. Coube à filosofia positivista de Augusto Comte definir os critérios que permitiam traçar o quadro da ordenação completa do conhecimento dos fenómenos do universo e de os explicar pelas leis gerais do movimento, que ao transmitir-se de forma desigual dá origem à crescente complexidade dos fenómenos ou a incessante passagem de um estado de movimento para outro, que Teófilo designa de transformação, evolução ou progresso, consoante ele se opera ao nível cosmológico, orgânico ou social.
Manuel de *Arriaga (1840-1917), natural da Horta, licenciou-se em Direito, em Coimbra, publicou Sobre a Unidade da Família Humana debaixo do Ponto de Vista Económico (1866), Renovações Históricas (1878), tendo sido o ensaio Harmonias Sociais (1907) a obra mais amadurecida do seu pensamento. Nele se reconhecem as temáticas dos primeiros trabalhos e o traçado de uma visão do homem e da sociedade em continuidade com a natureza e a dinâmica das leis da vida. Arriaga propõe uma concepção positiva do homem de teor bio-social, que sublinha a intervenção de factores de ordem social, como a moral, o direito e a justiça, na transformação da dimensão animal do homem no vasto organismo da Humanidade. As luzes da ciência e a regulamentação do direito, duas criações eminentemente sociais, tornam possível afirmar no mundo um desígnio colectivo, ao darem corpo aos ideais de igualdade e de justiça entre os homens de acordo com a mutualidade das relações sociais, que permite a troca de serviços, e a solidariedade, que obriga a organizar as relações sociais segundo novos padrões de moral e de direito que assegurem a cada cidadão os bens e serviços que a todos são devidos.
Francisco de Arruda Furtado (1854-1887), natural de Ponta Delgada, distinguiu-se no domínio das ciências naturais e da antropologia, que desenvolveu com o apoio de uma adesão incondicional à teoria evolucionista de Darwin. Publicou os opúsculos O Homem e o Macaco (1881) e O Macho e a Fêmea no Reino Animal (1886), em que explica a origem das espécies e o desenvolvimento individual, ao mesmo tempo que combate as concepções fixistas, dependentes, em parte, da visão criacionista do mundo, de inspiração religiosa. Mas é na obra Materiais para o Estudo Antropológico dos Povos Açorianos. Observações sobre o Povo Micaelense (1884) que Arruda Furtado aplica o modelo evolucionista para clarificar o próprio processo de transformação da população açoriana, em particular da ilha de São Miguel. Propõe-se determinar as linhas que poderão configurar a identidade cultural do povo micaelense por meio do estudo comparativo de cem camponeses micaelenses e outros tantos de várias regiões do continente português, por meio de medições da estatura e das dimensões cranianas, formas do rosto, formato do nariz, feitio do cabelo, cor dos olhos, da barba e do cabelo.
Eugénio Pacheco [Eugénio Vaz Pacheco do *Canto e Castro] (1863-1911), natural de Ponta Delgada, foi jornalista, professor e reitor do Liceu. Publicou na revista O Instituto, de Coimbra, uma série de três artigos, que foi interrompida, com o título geral «Do lugar do homem na natureza» (1886-1887). Neles discute as relações de continuidade existentes entre o homem e o animal, assim como as limitações inerentes a qualquer taxonomia. Os dados da embriologia e da paleontologia irão mostrar a grande afinidade existente entre os animais e as plantas, permitindo compreender a espécie humana numa linha estreita de continuidade com o mundo animal. Apesar de reconhecer as peculiaridades das manifestações superiores do espírito humano, que se manifestam na inteligência e nas diferentes formas de cultura, não admite diferenças essenciais entre eles. As suas ideias renovadoras sobre o ensino público encontram-se num extenso documento que endereçou ao Governo, Resposta à Consulta do Governo de 22 de Fevereiro de 1892 sobre os Serviços dos Liceus (1892), na sequência de uma consulta que fora então dirigida a todos os estabelecimento de ensino liceal do país. O seu pensamento epistemológico encontra-se ainda exposto no opúsculo Dos Impossíveis em Filosofia Natural (1899), onde apresenta uma concepção evolutiva do conhecimento das ciências da natureza, ao contrário do que acontece no domínio das ciências formais, a matemática e a lógica.
Sena Freitas (1840-1913), natural de Ponta Delgada, ficou conhecido pelo vigor das polémicas que travou com diversas personalidade do seu tempo, pela intensa actividade de articulista, orador sacro e participação na vida social e política. Interessou-se por diversas questões no campo da teologia, da pedagogia e da filosofia, tendo neste último domínio combatido a visão materialista do mundo e do homem que, na sua perspectiva, estava ligada ao positivismo. Os trabalhos principais são Processo do Positivismo (1893), A Doutrina Positivista (1904) e Estudo Sintético sobre o Positivismo (1904). Neles se denuncia como vícios do positivismo a adopção do monismo metodológico, que exclui tudo o que não for experimentalmente comprovável; a pretensão de submeter todas as questões que a filosofia debate aos parâmetros da filosofia das ciências; a recusa das questões de ordem metafísica, nomeadamente, a eliminação da «existência da substância espiritual» do homem, ou seja, a alma, que passa a ser considerada uma função do sistema nervoso.
Nesta linha espiritualista de pensamento, Joaquim Maria da Silva escreveu Estudos de Filosofia Racional (1863) e Elementos de Filosofia Racional e Moral (1891). Natural da Terceira, nasceu em 1830, licenciou-se em Direito, em Coimbra, e viveu em Santarém, onde foi advogado e presidente da Câmara Municipal. Define como tema central das suas preocupações, no campo da especulação filosófica, determinar os meios que permitem o conhecimento da verdade, que é única e que constitui o destino final de todos os homens. A verdade pode ser considerada de dois pontos de vista, a saber: objectivo, quando se considera a realidade em si mesma, e subjectivo, quando se considera a noção que serve de norma, modelo ou regra. Neste caso é invariável e absoluta, constituindo o termo de comparação para o conhecimento da realidade variável dos seres. O seu conhecimento opera-se por intermédio da intuição da razão, que ocorre de forma imediata, ao contrário da percepção e da concepção, realizadas pelos sentidos e pela inteligência, que apenas nos dão noções singulares ou gerais, sujeitas à mudança. O autor considera que as noções do primeiro tipo possuem «alguma cousa do infinito de Deus».
António Júlio de Melo (1806-1892), natural da Ribeira Grande, escreveu Elementos de Ética ou Filosofia Moral (1870), que Francisco Maria Supico, na carta-prefácio em que faz a apresentação do opúsculo, diz constituir «um belo tratado de educação pública» para formar os jovens nos ideais da generosidade e nas mais elevadas virtudes sociais e morais. Para o autor, a pequena obra é fruto da leccionação que durante vários anos ministrou, a título particular, na sua terra natal, e constitui o resultado exclusivo de recolhas feitas a partir de bibliografia diversa, com destaque para os manuscritos do P.e João José do *Amaral, que diz ter estudado. A obra divide-se em 4 capítulos, em que, de forma lapidar, se apresentam noções fundamentais, como os objectivos e domínios da Ética, a natureza moral do homem, o papel da consciência, o fim último do homem, o bem e a felicidade.
No mesmo estilo e visando também intuitos pedagógicos, são também os opúsculos do devotado pedagogo, natural de Angra do Heroísmo, P.e Jerónimo Emiliano de *Andrade (1789-1847). Entre os seus numerosos escritos, salientamos apenas os de carácter filosófico, a saber: Primeiros Elementos de Lógica para Uso dos Estudantes do Curso de Filosofia Racional (1835); Primeiros Elementos de Metafísica para Uso dos Estudantes do Curso de Filosofia Racional (1835) e Primeiros Elementos de Ética para Uso dos Estudantes do Curso de Filosofia Racional (1840). Neles se apresenta uma visão sistemática da Filosofia, começando pelo estudo das regras do pensamento correcto e passando depois para os primeiros princípios das coisas e do espírito, objecto da Ontologia, em que trata das propriedades gerais dos entes (essenciais e acidentais) e analisa as diferentes acepções da noção de causa, assim como as noções de tempo, espaço, duração, extensão. Segue-se depois a Cosmologia, que trata da origem e ordem do Universo, a Psicologia, que estuda a natureza, origem e destino da alma humana, e, finalmente, a Teologia Natural, que trata do conhecimento da existência e natureza de Deus. O opúsculo dedicado à Ética apresenta como objectivo da disciplina a regulamentação dos costumes segundo os ditames da lei natural que se encontram gravados na alma humana. Da observância das leis morais resultará o bem-estar, que a conduta virtuosa propicia, e a felicidade do homem, quer ao nível da sua realização pessoal e da sua relação com os outros, segundo as exigências da justiça, quer através da sua relação com Deus.
É de referir ainda Ângelo Pinto Ribeiro (1886-1936), natural de Angra do Heroísmo, professor da Faculdade de Letras do Porto e, após a sua extinção, do ensino secundário, que traduziu várias obras de Platão e deixou um Curso de Iniciação Filosófica (1919), para além de ter colaborado na História de Portugal de Damião Peres. Também originário de Angra do Heroísmo, José Augusto Nogueira Sampaio (1827-1900) formou-se em medicina pela Universidade Católica de Lovaina, tendo sido professor e reitor do Liceu de Angra. Publicou o opúsculo A Vida (1893), em que procurava harmonizar esta noção com os novos dados das ciências naturais e as teorias transformistas de *Darwin e Spencer. A vida é compreendida como sendo «a resultante remota das forças inerentes à matéria», revestindo por isso a mesma natureza em todos os níveis em que se manifesta, ou seja, nos vegetais, animais e no próprio homem. As primeira manifestações da vida, que surgem no reino vegetal por geração espontânea, transformam-se e transfiguram-se em outras mais complexas, nos animais e no homem, segundo «a sedutora opinião de Darwin». Carece assim de fundamento considerar o homem como pertencente a um reino diferente do animal, que inclui os seres mais simples e rudimentares, como é desprovido de sentido atribuir à acção dos poderes imateriais da alma ou do espírito a organização da matéria orgânica.
Estas concepções suscitaram a forte contestação do Cónego da Sé de Angra António Maria Ferreira (1851-1912), que fez sair uma extensa análise e refutação, em três artigos no jornal que dirigia. A resposta que o Dr. Nogueira Sampaio publicou com o título de Exame Crítico (1894) denunciava a distorção a que o Cón. Ferreira havia submetido os seus argumentos, bem como a falta de bases e de provas da sua refutação, nomeadamente no que se refere à negação da teoria celular como elemento-base de todo o organismo vivo. A reacção de António Maria Ferreira não se fez esperar e apareceu em numerosos artigos do seu jornal, que foram depois reunidos em livro, com o título Polémica Científica sobre a Origem da Vida (1895). Neles se defende uma relação entre a fé e a ciência semelhante à que deverá existir entre um templo e a sua cúpula, por onde entra a luz que o ilumina. Apoiando-se no pensamento de Tomás de Aquino, expõe a noção de vida em termos de causa do movimento da constituição do organismo e, em geral, das forças físicas e químicas da matéria, rejeitando assim a ideia que atribui à célula este papel. Denuncia a forma imprecisa de conceber a geração expontânea, critica as explicações evolucionistas da origem do homem e recupera as concepções expostas pelo professor de Coimbra Tiago Sinibaldi nos seus Elementos de Filosofia, indevidamente distorcidas na apropriação que delas havia feito o Dr. Nogueira Sampaio.
O rescaldo desta polémica fez-se também sentir no continente português, nomeadamente, em quatro artigos publicados na revista de Coimbra Ordem, em Abril e Junho de 1894, em que o Doutor Silva Ramos, da Faculdade de Teologia, se juntou às críticas ao reitor do Liceu de Angra. Mas também houve reacções em sentido contrário, como a de Pedro Jacinto Galvão, natural da ilha de S. Miguel e difusor da clínica homeopática na ilha Terceira, que publicou, entre outros estudos, o opúsculo O que Penso. A Vida na sua Origem, Criação e Destino da Raça Humana (1895). Procurou discutir as relações entre a religião e a ciência, defendendo que as concepções religiosas, principalmente as que se fundamentam nas narrativas do Antigo Testamento, nada beneficiam em defender ideias que são desmentidas pela ciência.
Ruy Galvão de *Carvalho (1903-1991), natural de Rabo de Peixe, foi durante vários anos professor do Liceu de Ponta Delgada. A sua produção ensaística no campo da filosofia centra-se nos estudos anterianos que deixou, alguns ainda inéditos. Entre eles destaca-se Antero de Quental e a Mulher. Ensaio Breve de Interpretação Psicológico-Literária (1949), em que, através da obra do poeta e da sua correspondência, procura mostrar, contra Henrique das Neves, Teófilo Braga e Sousa Martins, a dimensão afectiva da vida de Antero. A presença inspiradora da mulher na sua vida reflectiu-se, não somente na sua poesia, mas também na forma como ligou o coração, sede do sentimento, à origem de todo pensamento filosófico. Em Três Ensaios sobre Antero de Quental (1933), sublinha o pendor filosófico da poesia de Antero, principalmente os sonetos da última fase, os quais se alimentam dos combates travados por um espírito dilacerado por uma invencível inquietude de teor religioso.
A inquietude envolve a existência humana na angústia da permanente procura do sentido da vida, o que confere à filosofia de Antero um carácter essencialmente moral. Uma etapa essencial de clarificação deste trajecto passa pela meditação sobre o sentido da morte, que impõe o aniquilamento do eu individual, para se tornar num simples «instrumento do bem universal». Este constitui a única «realidade plena», susceptível de conferir autenticidade à vida humana, isto é, de a elevar à santidade. Esta «Linha geral do pensamento filosófico de Antero», título de uma conferência inserida na colectânea de ensaios Antero Vivo (1950), explica ainda o seu reconhecimento da insuficiência da filosofia naturalista, que tanto havia impregnado a sua visão do mundo como tinha também ateado o fogo da sua inquietude. Outros temas anterianos são ainda tratados nestes e noutros ensaios, como, Meditação Sobre a Vida e a Morte de Antero (1934); Ordenação Cronológica dos Sonetos Completos de Antero de Quental (1962); Colectânea de Estudos Anterianos (1980); Antologia Poética de Antero de Quental (1983); O Açorianismo de Antero de Quental (1984); Antero de Quental: Novos Ensaios (1985); Antero de Quental e a Música (1989).
Ainda nesta linha ensaística de incidência predominantemente anteriana, registamos os seguintes autores naturais da ilha de S. Miguel: Ângelo Raposo Marques, com O Socialismo de Antero (1949), O Ideal Revolucionário na Concepção da Arte de Antero (1951), Positivismo e Anti-Positivismo em Antero (1952), Antero e o Cristianismo (1954); Jacinto Soares de Albergaria, poeta de expressão francesa e portuguesa, com Teófilo Braga e o Positivismo (1977) e Lúcia Costa Melo, com Ensaio de uma Perspectiva Surrealista na Vida e na Obra de Antero de Quental (1978). Mencionamos ainda Mateus de Andrade *Albuquerque que, nos domínios da Lógica e da Epistemologia, deixou dispersos vários trabalhos, de que destacamos os publicados na revista de Coimbra, O Instituto, a saber: «O que é Epistemologia?» (1933) e «Infinito e transfinito. Análise e crítica» (1933).
Gustavo de Fraga, natural da Fajãzinha, das Lajes das Flores, onde nasceu em 1922, foi professor catedrático da Universidade de Coimbra e aposentou-se ao serviço da Universidade dos Açores, de que foi vice-reitor e presidente do Conselho Científico. A publicação da sua primeira grande obra De Husserl a Heidegger. Elementos para uma Problemática da Fenomenologia (1966) integra-o no grupo de notáveis personalidades que trouxeram para Portugal o estudo aprofundado da fenomenologia. A análise do combate travado pelo filósofo alemão a todas as formas de naturalismo levou Gustavo de Fraga a prestar uma atenção particular à apropriação husserliana do cogito cartesiano, como o princípio absoluto do seu idealismo transcendental. Este mínimo inicial impede de circunscrever a fenomenologia aos limites de uma mera metodologia e abre-a aos desafios da metafísica. É no princípio subjectivo da fenomenologia que se faz a experiência do ser teleológico do homem, como via única da abertura ao transcendente.
Em Fenomenologia e Dialéctica (1972) os seus temas filosóficos são aprofundados e ampliados no confronto com a tradição filosófica, em que sobressaem Descartes, Kant e Hegel, assim como Nietzsche, Dilthey, Heidegger, Sartre e outros. Há ainda a registar Fidelidade e Alienação (1977), elaborado a partir de esquemas de leccionação dos primeiros cursos ministrados na Universidade dos Açores, em que, por meio de um conjunto de aproximações, procura conferir sentido à transcendência e, ao mesmo tempo, criar um espaço de renovação permanente à liberdade e responsabilidade do homem, numa época marcada por alterações e mudanças mais ou menos profundas e rápidas. A par de numerosos ensaios que publica sobre temas da fenomenologia, a partir de 1980, tem surgido uma série de estudos sobre Antero de Quental, em que procura as raízes do seu pensamento, em Proudhon, Hegel e Hartmann, assim como a incidência do poeta-filósofo no pensamento filosófico português do século XX. O tema do Absoluto, de Deus, da transcendência, constitui uma preocupação permanente na obra de Gustavo de Fraga e reaparece, com muita insistência e elevação, na poesia que ultimamente tem publicado, em edições muito restritas.
José Enes, natural das Lajes do Pico, onde nasceu em 1924, foi fundador e primeiro reitor da Universidade dos Açores. A sua obra principal À Porta do Ser. Ensaio sobre a Justificação Noética do Juízo de Percepção Externa em S. Tomás de Aquino (1969 e 1990) revela uma profunda intimidade com o pensamento aristotélico-tomista, que procura interpretar a partir do que ele tem de impensado, ou seja, do que não está formalmente expresso nos seus enunciados, mas se encontra nele subjacente como matriz da sua originalidade. Seguindo esta metodologia de inspiração heideggeriana, afasta-se substancialmente dos métodos tradicionais da escolástica, abordando, com singular originalidade, a experiência da percepção do ser nos actos de conhecimento da realidade exterior, no pensamento de Tomás de Aquino. Trata-se, pois, de uma fenomenologia que, independentemente de qualquer suporte teórico de carácter ontológico ou gnoseológico, torna possível captar a manifestação do ser segundo o modo que lhe é próprio. A estrutura noética desta captação, que toma o sabor do ser na própria nascente em que ele jorra, é expressa na predicação metafórica em que o homem traduz, por meio da linguagem e instruído pelo projecto do intuito, esta sua experiência íntima. O esforço de manifestar na fala e no dizer a realidade experimentada torna a análise da linguagem o momento privilegiado de acesso à manifestação da experiência do ser. Esta temática é amplamente desenvolvida em Linguagem e Ser (1983), uma obra que muito contribuiu para tornar o pensamento filosófico de José Enes mais conhecido, e constitui um tema recorrente na selectiva produção filosófica, dispersa em várias publicações e, em parte, reunida em Estudos e Ensaios (1982) e Noeticidade e Ontologia (1999).
A produção ensaística, na área da filosofia, produzida por autores açorianos, dentro e fora da Região, tem vindo a inserir-se nos principais movimentos que ao nível do pensamento têm surgido, contribuindo em alguns casos para a sua renovação, aprofundamento e difusão, como aconteceu com António Cordeiro e José Enes, no domínio da escolástica, Teófilo Braga, no domínio do positivismo, Antero de Quental, no redimensionamento da especulação metafísica, Gustavo de Fraga, na fenomenologia, e muitos outros no estudo do pensamento anteriano. Actualmente, julgamos poder reconhecer esta orientação em autores como Onésimo Teotónio de *Almeida, natural do Pico da Pedra e professor da Universidade de Brown, que tem vindo a publicar no domínio da Filosofia Social e da Cultura, desde a sua obra The Concept of Ideology: A Critical Analysis (1980), importantes ensaios com contributos incontornáveis para pensar hoje as mudanças sociais da realidade dos Açores; Manuel Cândido Pimentel, natural de Vila Franca do Campo e professor da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), conta com uma extensa obra no campo da Filosofia em Portugal, em que se destaca Antero de Quental. Uma Filosofia do Paradoxo (1993), Filosofia Criacionista da Morte. Meditação sobre o Problema da Morte no Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra (1994), Odisseias do Espírito. Estudos de Filosofia Luso-Brasileira (1996) e A Ontologia Integral de Leonardo de Coimbra: Ensaios sobre a Intuição do Ser e a Visão Enigmática (2003); Paulo Jorge Correia de Melo, natural de Ponta Delgada e professor da Universidade Nova de Lisboa, tem publicado diversos trabalhos no âmbito da Lógica e Filosofia da Linguagem, de que se destaca Imanência e Transcendência na Teoria Filosófica da Linguagem de W. V. O. Quine (1995); José Henrique Silveira de Brito, natural da Praia da Vitória e professor da Universidade Católica Portuguesa (Braga), tem apresentado trabalhos no domínio da Ética e da Filosofia Contemporânea, com destaque para Introdução à Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de I. Kant (1994), De Atenas a Jerusalém. A Subjectividade Passiva em Lévinas (2002) e a coordenação científica das colectâneas Temas Fundamentais de Ética (2001), Bioética. Questões em Debate (2001). Finalmente, vários professores da Universidade dos Açores, tais como: Maria do Céu Patrão Neves, no domínio da Filosofia Francesa Contemporânea e da Ética, em que se destaca a tradução e anotação crítica da obra de H. Bergson A Intuição Filosófica (1994), Estudos Blondelianos (1999), A Problemática do «Pensamento» em Blondel. Esboço de uma Teoria da Natureza e de uma Doutrina do Espírito (2000) e a coordenação científica da colectânea Comissões de Ética: Das Bases Teóricas à Actividade Quotidiana (2001); Carlos Eduardo Pacheco *Amaral, na área da Filosofia Política, de que se destaca Do Estado Soberano ao Estado das Autonomias (1998); Maria Gabriela Teves Castro, no âmbito da Filosofia Contemporânea, com destaque para A Imaginação em Paul Ricoeur (2003); Berta Pimentel Miúdo com vários estudos sobre Ortega y Gasset; Emanuel Oliveira Medeiros no domínio da Filosofia da Educação, em que sobressai A Filosofia na Educação Secundária: Uma Reflexão no Contexto da Reforma Curricular e Educativa (2002) e José Luís Brandão da Luz, nos domínios da Filosofia do Conhecimento e da Filosofia em Portugal, com destaque para Jean Piaget e o Sujeito do Conhecimento (1994), Introdução à Epistemologia. Conhecimento, Verdade e História (2002) e a edição da correspondência de Teófilo Braga à irmã, com o título Minha Freira. Cartas Familiares (1996). José Luís Brandão da Luz
BIBL. Além da já referida, destacamos: Ferreira, E. (1940), Estudos filosóficos nos Açores. Esboço histórico. Sep. de Petrus Nonius. Carvalho, R. G. (1955), Contribuição dos Açores para a Filosofia. Sep. Revista Portuguesa de Filosofia. Braga, XI-XII: 633-647. Logos. Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (1997-2001). Lisboa, Verbo, I-V. Calafate, P. (Dir.). História do Pensamento Filosófico Português. Lisboa, Caminho, IV e V.
história Ao definir-se o ensaio quer pelo termo, quer pelo conteúdo, ter-se-á em conta que se trata do estudo da abordagem de um tema, regra geral inovador e que, por isso mesmo, o autor não está em condições de atingir uma conclusão. Isto é, fica em aberto e é propício à polémica e aos contributos posteriores.
Se é relativamente fácil definir, assim, o que é um ensaio, bem mais difícil é, com êxito e em termos práticos, classificar um qualquer estudo como ensaio, principalmente numa área como a História, ela própria propícia à interpretação, à discussão e à precaridade das conclusões.
A historiografia acompanhou, desde cedo, o interesse dos açorianos pela cultura e pela reflexão, mas o ensaio nestas áreas, como aliás em outras, é uma construção típica da segunda metade do século XIX, pressupondo um espírito crítico, experimental e de partilha intelectual. Sou de opinião que, havendo muitos e variados cultores da História e mesmo tendo em conta a dificuldade das fronteiras, são bem menos aqueles historiadores que usaram a forma do ensaio nos seus trabalhos.
Para facilitar uma abordagem didáctica, seguirei um esquema cronológico, consciente que outros métodos, nomeadamente aquele que valoriza as temáticas, teriam vantagem.
Os primeiros ensaios historiográficos açorianos fizeram-se na Revista dos Açores (1851-1854), que muito ficou a dever ao interesse de José de Torres (1827-1874), com o seu gosto pela investigação histórica e ao seu sonho de uma unidade cultural insular. Não se pode dizer que o êxito tenha sido estrondoso, principalmente pelas dificuldades encontradas em motivar os intelectuais açorianos que se mostravam então essencialmente individualistas. Mas os ensaios do próprio José de Torres, publicados na revista, sobre personalidades históricas, como Bento de Góis ou literatos então absolutamente desconhecidos, mas principalmente aqueles referentes à construção de uma historiografia insular e à teoria de uma história açoriana, são do melhor que neste campo se escreveu.
Na Revista dos Açores colaborou ainda, e dentro deste espírito ensaísta, Bernardino José de Sena Freitas (1812-1872) que, não sendo açoriano, não deixou, porém, de acompanhar o panorama intelectual das ilhas na sua prolongada estada nos Açores. Fora da revista, mas num espírito ensaísta, destacam-se algumas das suas publicações autónomas, como Memória Histórica sobre o intentado descobrimento de uma suposta ilha ao norte da Terceira nos anos de 1649-1770 (1845).
Contudo, mantendo-se à margem do conceito de grupo, pelo qual José de Torres pugnava, trabalharam no ensaio de cariz histórico outros dois dos mais notáveis da historiografia açoriana: Ernesto do *Canto (1831-1900) e João Teixeira Soares de Sousa (1827-1882). Ernesto do Canto, estudioso incansável, profundo e com recursos extraordinários para a época, é, nos seus escritos, por vocação e por consciência da inovação a que procedia, o ensaísta por excelência. Dois dos seus trabalhos mais celebrados são ensaios: Os Corte-Reais (1883) e Quem deu o nome ao Labrador (1893).
João Teixeira Soares, individualista e isolado em S. Jorge, perdendo-se em divagações, anunciando repetidamente trabalhos de investigação, reflexão e crítica, acabou por deixar obra bem menos substantiva. Contudo, o ensaio é um dos seus caminhos, nomeadamente e, a título de exemplo, as Notas e Apontamentos sobre o Infante D. Henrique na Chronica da Guiné de Azurara (inédito), em que se revela um dos primeiros anti-henriquistas da cultura nacional.
Uma outra geração, nascida mais para o fim do século XIX, irá renovar o gosto pela reflexão e pela investigação à volta da problemática da história açoriana, principalmente acerca da questão do descobrimento do arquipélago e das implicações patrióticas que isso acarretava. Degladiaram-se nas páginas dos jornais e das revistas usando, sobretudo, o tom da polémica, mas quando optavam pela serenidade científica, era ao ensaio que recorriam.
Entre todos, destacam-se António Ferreira de Serpa (1865-1939) e Manuel Monteiro Velho *Arruda (1873-1950), os dois eternos rivais com as duas principais teses antagónicas em confronto. O primeiro, defensor de um conhecimento dos Açores no século XIV e o segundo, de uma descoberta portuguesa no século XV, em 1432, por Gonçalo Velho Cabral.
Para além da polémica jornalística, o ensaio sobressai com o livro de Ferreira de Serpa O Descobrimento do Arquipélago dos Açores (1925) e a colectânea de Velho Arruda Colecção de Documentos Relativos à Descoberta e Colonização dos Açores (1932), precedida de um ensaio crítico da mais alta qualidade de hermenêutica e de reflexão que fazem dele o expoente máximo da historiografia açoriana da época.
Mas, principalmente, Ferreira de Serpa, escritor incansável, usou o ensaio com frequência na sua colaboração em revistas, em destaque para o Boletim da Sociedade de Geografia, sempre com mestria a novidade da argumentação em termos polémicos e ainda hoje duvidosos, como o estabelecimento das capitanias, a cronologia do povoamento ou a construção de biografias de figuras históricas.
É de assinalar ainda, nesta geração, o marquês de Jácome *Correia (1882-1937), principalmente na sua Revista Mixcaelense e o general Francisco Lacerda Machado (1870-1955), este último principalmente com um ensaio sobre Etnogenia Micaelense, em 1921, um dos temas recorrentes da historiografia insular que apaixonou, sem evolução visível, etnógrafos, linguistas e historiadores.
Da mesma geração, Luís Bernardo Leite de *Ataíde (1882-1955), devotado essencialmente à etnografia micaelense e à arte, à construção de uma teoria sobre a arte açoriana, pode e deve ser incluído entre os ensaístas da História.
O aparecimento, nos anos 40 do século passado, de instituições culturais nas capitais dos distritos, fundadas com o propósito de colmatar a falha na área cultural do Estatuto dos Distritos Autónomos Insulares que reorganizava as Juntas Gerais, fez nascer o gosto pela investigação e consequente actividade ensaística à volta dos boletins dessas mesmas instituições. A temática virou-se, dentro da corrente da época, para as questões relacionadas com os Descobrimentos Portugueses, a sua prioridade em relação aos outros povos e a sua originalidade. Transferiram para os Açores a problemática e a polémica sobre o papel pioneiro dos açorianos no descobrimento a Ocidente e fizeram da cronologia das viagens ao Nordeste do continente americano a sua paixão. É essencialmente no *Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira que surgem os ensaios estruturantes desta escola historiográfica regional e assumidamente regionalista.
Henrique *Brás (1884-1947), José *Agostinho (1888-1978) e Manuel Meneses (1892-1958) são os líderes da investigação dos temas do contributo açoriano na construção de uma historiografia regionalista de maior ou menor acerbidade e que se propõe valorizar o nacionalismo científico. O exemplo de ensaios deste gosto e estilo, que provocaram polémica até nacional, pode ser fixado em Diogo de Teive. Novas Luzes sobre a data da sua viagem (1951), de José Agostinho, e em Descobertas pré-columbinas de terras da América (1944), de Henrique Brás, ou ainda, o mais ousado, Revisão do problema da descoberta e povoamento dos Açores (1949), de Manuel Meneses, todos eles publicados no Boletim do Instituto Histórico.
A entrada da moderna historiografia nos Açores fez-se pela via do ensino e data-se com a colaboração do malogrado Julião Soares de *Azevedo (1920-1953), cujos ensaios de história económica, inovadores e de ruptura com a historiografia que então vigorava no arquipélago, foram uma lufada de ar fresco que teve, felizmente, continuidade.
Na mesma linha de modernidade, de inovação e de renovação, nomeadamente nas fontes utilizadas, mas recorrendo aos ensaios, sobressai entre todos Olímpia da Rocha Gil (1940-1992), a quem se devem trabalhos que mudaram as orientações historiográficas, pela articulação entre a economia e a sociedade e pelo alargamento dos horizontes da problemática insular ao Atlântico, com a exploração das redes de comércio. Usou o ensaio com grande mestria, interrogando-se sucessivamente sobre a urgência de aprofundar a investigação para se atingirem conclusões aceitáveis e seguras sobre a história açoriana.
Mas o ensaio parece ter vindo para ficar e as mais recentes gerações de investigadores, muitos deles profissionais, uma inovação, porque os anteriores foram todos amadores ou pouquíssimos com preparação específica, usam a forma de ensaio para os seus trabalhos, principalmente na colaboração em revistas científicas. De entre elas, merece destaque a *Arquipélago, revista da Universidade dos Açores, à volta da qual se tem vindo a construir uma autêntica escola historiográfica que vai alargando os horizontes, as problemáticas e as áreas de interesse científico.
Da hodierna geração de investigadores e historiadores, todos eles recorrendo frequentemente ao ensaio, destacam-se pela qualidade, inovação e número dos seus trabalhos, Artur Teodoro de Matos, Avelino Freitas de Meneses e Maria Norberta *Amorim, principalmente por serem mestres que têm incentivado o aparecimento de discípulos e pelo seu entusiasmo na diversificação dos campos científicos.
Numa área não estritamente historiográfica, mas que recorre frequentemente à História como fundamento dos seus temas e que usa preferencialmente o ensaio como veículo, deve-se falar da problemática da identidade regional. Arruda Furtado (1854-1887), considerado o pioneiro com o seu célebre ensaio Materiais para o estudo antropológico dos Povos Açorianos, de 1884. Depois Luís da Silva Ribeiro (1882-1955), mestre da açorianidade com o marcante Ensaio sobre a Açorianidade, de 1936, e, de entre todos, Vitorino Nemésio (1901-1977), grande teórico da identidade regional do homem açoriano, como caso específico do português. J. G. Reis Leite
literatura O ensaísmo literário, enquanto reconhecido como tal, é um fenómeno que, em Portugal, apenas se verifica a partir da segunda metade do século XIX, pelo que será a partir daí que este trabalho lançará olhares sobre autores e escritos relativamente à temática em apreço. E os primeiros dois autores açorianos que meteram mãos ao estudo da coisa literária e que estão na primeira linha dos estudos poéticos são Antero de Quental e Teófilo Braga. Ambos deixaram a ilha de S. Miguel, respectivamente ao 19 e aos 18 anos de idade, para prosseguirem estudos na Universidade de Coimbra.
Não são abundantes os estudos que Antero de Quental (1842-1891) realizou no domínio literário; certamente que ele ficará na história pelo seu papel de liderança intelectual na Geração de 70, pela sua obsessão pelo rumo histórico de Portugal, magistralmente sintetizado na Conferência do Casino Causas da decadência dos Povos Peninsulares (1871), ou pela sua profunda preocupação com a filosofia e com a problemática metafísica que percorre os Sonetos (1861), ele que é considerado como o maior poeta português do século XIX. No entanto não lhe era alheio o que se passava ao seu redor em matéria literária, sobre a qual nos deixou alguns escritos, em revistas, folhetos e jornais. Vejamos os mais importantes:
No dia 22 de Setembro de 1860, na revista Aurora dos Açores, Antero de Quental anuncia um projecto de organização de uma Lírica Açoriana, que viria dois anos depois a concluir com a colaboração de Alberto Teles. Em Dezembro de 1865, publica o folheto A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (Lisboa, Tipografia Universal, 1865). Em Fevereiro de 1871 publica, na revista Revolução de Setembro, Tendências Novas da Poesia Contemporânea. Um ano depois, dará à estampa um folheto intitulado Considerações Sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa a Propósito de alguns Livros Recentes Os Lusíadas, Ensaio sobre Camões e a sua Obra, em Relação à Sociedade Portuguesa e ao Movimento da Renascença, de Oliveira Martins, e Teoria da Literatura Portuguesa Tese para o Concurso à Cadeira de Literatura no Curso Superior de Letras de Teófilo Braga (Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron). Finalmente, em Julho de 1881 publica o folheto A Poesia na Actualidade a Propósito da Lira Íntima do Sr. Joaquim de Araújo (Porto, Oficina Tipografia de João Eduardo Alves).
Teófilo Braga (1843-1924), mais crítico e menos artista, viverá uma intensíssima actividade literária, cultural e política. O seu percurso intelectual fê-lo cruzar-se frequentemente com Antero. Patrícios, contemporâneos e ambos líderes, mas com diferentes personalidades e ideologias bem distintas, a sua amizade teve momentos de muita tensão. Dono de um poder de vontade invulgar e considerado o mais prolífico autor português de todos os tempos, Teófilo foi em Portugal o paladino do positivismo de August Comte. Estudou a fundo autores como Gil Vicente, Camões, Garrett, Bocage, Camilo Castelo Branco, João de Deus, entre muitos outros. É autor da História do Romantismo em Portugal (1869) e escreveu uma monumental História da Literatura Portuguesa (1872), através da qual lançou as bases científicas da nossa literatura, e fez recolhas diversas, nomeadamente no campo do cancioneiro e do romanceiro. De referência continuam ainda a ser as suas obras Cancioneiro e Romanceiro Geral Portuguez (1843, 2.ª ed. ampliada, vols. I, II e III, Lisboa, 1906, 1907, 1908), Cancioneiro Popular das Ilhas dos Açores (Revista Lusitana, IV, 4, 1896) e Cantos Populares do Arquipélago Açoriano (2.ª ed., Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1982).
Nos finais do século XIX, com o aparecimento do 2.º e último volume de Bibliotheca Açoriana, de Ernesto do Canto, que faz a compilação global de fontes bibliográficas açorianas, ficamos com uma ideia exacta do reduzido número de autores açorianos que então se dedicavam ao ensaísmo literário. E dos autores dessa geraçã
