enchelavar
(in) Arte de pesca que também aparece grafado enchelevar (Fernandes, 1984) e inchalavar (Silva, 1903) em resultado do primeiro e ser frequentemente pronunciado como i (Silva, 1903; Barcelos, 2001). Segundo Lima (1957), esta palavra parece resultante do agrupamento enche e lavar, mas para Coelho (1962), a palavra provém de enche + elevar que com a perda do e inicial do segundo termo, deu enchelevar. Mas como esta pronúncia era algo retorcida para o afinado ouvido do nosso povo (apesar de haver ainda hoje quem diga assim), o último e foi substituído por um a.
O enchelavar é uma rede em forma de cone truncado com a base para cima, que se prende a duas varas curvas, de madeira, raramente de ferro, que se abrem formando círculo quando a rede é lançada à água, a denominada arcadura. A rede, arrematada superiormente num cordão (forramento), com duas aberturas laterais junto aos extremos dos arcos (portas do enchelavar), é presa à arcadura por argolas (entralhos) ou guias (envergos). Os lados da rede são formados por tiras ligadas umas às outras (bandas). O fundo da rede é cosido a esta pelo juntalho e nele é colocado um pandulho ou pedra lisa, de 4 a 5 quilos de peso, para que a rede se estenda e mergulhe (Fernandes, 1984; Gomes, 2001; Lima, 1957; Machado, 1991; Ribeiro, 1936; Silva, 1903). O vazio da malha da rede varia entre 9 e 20 mm (Fernandes, 1984).
Há o enchelavar grande, que tem 3 a 3,5 m de diâmetro, com malha de polegada [25,4 mm] de lado e fio de 2 mm de diâmetro; e o enchelavar pequeno que difere daquele tanto no diâmetro do arco (2 a 2,5 m) como na malha da rede que é apenas de meia polegada de lado, sendo igual no fio (Silva, 1903).
Os enchelavares pequenos têm um cabo de madeira preso à arcadura (Ribeiro, 1936); os maiores são suspensos do arco, dividido entre 3 a 6 partes, por outras tantas linhas (cordões), amarradas a uma tralha que passa por um moitão suspenso da ponta de uma vara de madeira apoiada na borda do barco, que serve para arrear e içar o aparelho (Fernandes, 1984; Ribeiro, 1936; Silva, 1903).
O enchelavar grande, que se emprega às vezes no alto mar, arria a 40 braças abaixo do nível da água, exigindo a sua manobra 3 homens. É destinado à apanha das cavalas, do chicharro e da sardinha se bem que possa capturar qualquer outra espécie de peixe. O enchelavar pequeno arria a 5 ou 6 braças, e a sua manobra exige apenas 2 homens. Serve para a pesca da garoupa, bodião, peixe-rei, etc. (Gomes, 2001; Silva, 1903).
O método de pesca consiste em baixar o enchelavar, engodar o peixe e içar o enchelavar, rapidamente, até que o arco fique um pouco fora de água (Fernandes, 1984). Cada lance do enchelavar (arriar, espera no fundo e içar) demora cerca de meia hora.
Na operação dos enchelavares que pescam a profundidades menores, sempre à vista, o engodo é lançado na água por cima do sítio onde está o enchelavar (Coelho, 1962; Fernandes, 1984). Quando a quantidade de peixe, geralmente chicharro e boga, é razoável, o homem que vigia bate fortemente com os pés, o peixe assustado afunda-se e vai precipitar-se bem no fim da rede. Então braços robustos começam a operação de levar (puxar) o grande peso, onde vem uma grande ou pequena rodada de peixe que é virada dentro da embarcação (Coelho, 1962).
Os enchelavares que pescam a profundidades maiores, 60 a 70 braças, são acompanhados por um aparelho subsidiário, chamado «manga», em forma de pirâmide cónica, com 3 a 4 polegadas de diâmetro e 8 a 10 de altura. A manga é um saco de fazenda, ou uma meia ou peúga, em S. Jorge (Mendonça, 1961-62), que se liga, pelo vértice, a um cordel, denominado linha da manga, de 3 a 4 mm de diâmetro, e de extensão variável conforme o fundo a que é preciso largar o engodo com que o seu interior está cheio. A manga desce rapidamente (em virtude de um peso de chumbo de 800 a 1.000 grs. preso ao seu vértice) com a base voltada para cima; mas, quando chega à profundidade determinada, volta-se por efeito da paragem brusca do cordel, e, animada por movimento que o pescador transmite a este, vai despejando o engodo na zona desejada. A manga logo que está vazia é puxada, cheia e feita descer novamente, mas a menor profundidade, e assim sucessivamente, conseguindo, deste modo, atrair o peixe até à altura conveniente. Outras vezes são amarradas 4 a 5 mangas, com a boca virada para baixo, mesmo acima do aro do enchelavar, com o engodo que é sacudido pelas respectivas linhas (Fernandes, 1984; Silva, 1903). Noutros casos, na arcadura estendem-se duas linhas em cruz onde se prendem as iscas (negaças) (Ribeiro, 1936).
Quando içados, a parte da arcadura que encosta ao barco é levantada e posta sobre a borda. A parte oposta fica suspensa ou do moitão pela tralha ou, quando aquele não existe, por uma vara metida entre o arco e a tralha. Nesta situação o peixe é passado para o barco.
Antes de arriar o enchelavar a profundidade que fica fora de vista é costume experimentar o mar. Trata-se de uma manobra em que é usado um aparelho com anzóis, iscado, que serve para avaliar do peixe no local. Em caso positivo é feita a manobra da «manga» e do enchelavar (Silva, 1903). Luís M. Arruda (2003)
Bibl. Barcelos, J. (2001), Falas da ilha das Flores, Vocabulário regional. S.l., ed. do autor. Coelho, M. A. (1962), Vocabulário regional das Ilhas do Faial e Pico. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 3, 1: 112. Fernandes, L. M. R. (1984), Artes de pesca artesanal nos Açores. Horta, Secretaria Regional de Agricultura e Pescas. Gomes, A. (2001), O peixe na cozinha açoriana e outras coisas mais. S.l., ed. do autor. Lima, M. (1957), Vocabulário regional das Ilhas do Faial e Pico. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, I, 2: 124. Machado, F. S. L. (1917), Vocabulário regional colhido no concelho das Lages (ilha do Pico). Coimbra, Imp. da Universidade [reedição fac-simile, 1991]. Mendonça, E. B. L. (1961-62), Ilha de S: Jorge, Subsídios para o estudo da Etnografia, Linguagem e Folclore Regionais. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XIX-XX: 87. Ribeiro, L. S. (1936), Notas sobre a pesca e os pescadores na ilha Terceira. Açoreana, 1, 3: 147-159. Silva, A. (1903), Ethnographia açoriana, a alfaia marítima de S. Miguel. Portugália (Porto), 1, 4: 835-846.
