Empresa Insulana de Navegação

Em 1871, a Empresa Lusitana, nome sob o qual circulavam os navios da carreira irregular da firma Bayley & Leethman, foi substituída pela Empresa Insulana de Navegação, com capitais portugueses, passando posteriormente para a Casa Bensaúde. No mesmo ano, a “Insulana” firmou um acordo com o governo português pelo qual foram estabelecidas carreiras regulares com os Açores, sendo o referido contrato renovado em anos subsequentes. Para o efeito, a empresa adquiriu os vapores Insulano e Atlântico. Mediante um subsídio anual, a empresa obrigava-se a manter duas viagens mensais para os Açores, sendo uma com escala pela Madeira. Nas ilhas mais pequenas só era obrigada a aportar uma vez por mês, excepto nas Flores, onde o barco muitas vezes não podia aportar, e no Corvo onde ia trimestralmente. A vida da empresa não foi fácil nos primeiros anos. Em 1875, perdeu o Insulano e, dois anos, depois o Atlântico. Recorreu ao fretamento de navios até construir ou adquirir outros: o Açor (1878), a que se seguiram o Funchal (1884), o São Miguel (1905), o Lima (1919), para substituir o Funchal, o Carvalho Araújo (1930), bem como outros, posteriormente, para serviço de passageiros ou transporte de mercadorias. Contudo, as críticas na imprensa foram sempre uma constante contra o mau serviço prestado pela Insulana, nomeadamente nas ilhas mais pequenas que a acusavam de se escusar ao serviço ao mínimo pretexto. Entre 1885-1910, a “Insulana” estabeleceu também ligação entre Lisboa-Açores-América do Norte, com transporte de mercadorias e de emigrantes. Todavia, acabou por desistir desta carreira por não ter subsídio do Estado e sofrer a concorrência de companhias estrangeiras. Na altura da I Guerra Mundial, a administração da empresa foi entregue ao Estado, só voltando à firma Bensaúde em 1919. Mas a partir de então deixou de receber o subsídio que o Estado lhe havia concedido anteriormente. Deste modo, deixou de haver uma carreira directa, passando sempre a escalar o Funchal. A extinção dos Transportes Marítimos do Estado (TME) e as taxas impostas aos navios estrangeiros, para proteger a marinha mercante portuguesa, colocaram as ligações com os Açores nas mãos da “Insulana”. No ano de 1922, ainda foi aprovada no Senado uma proposta para que um dos navios da TME fosse entregue a uma empresa particular com a condição de fazer viagens regulares para todas as ilhas, mas o projecto não foi concretizado. Os serviços da “Insulana” degradaram-se com prejuízo para a economia das ilhas, com as demoras provocadas pela escala na Madeira, com o abandono das ilhas mais pequenas e com os preços elevados que praticava. A empresa defendeu-se, alegando que a carreira não era lucrativa e que o défice só era atenuado com a escala pelo Funchal. Mas paralelamente as críticas também foram dirigidas ao Estado por desprezar as ilhas enquanto espalhava milhares de contos pelas companhias de navegação e caminhos-de-ferro para o continente e colónias. As reclamações dos açorianos não foram atendidas, tendo melhorado apenas o serviço de transporte de mercadorias na década de 30, com viagens do Corvo e do Gorgulho. O transporte de gado vivo, pela demora e pelas más condições em que viajava perdendo muito peso, foi um problema que nunca teve solução satisfatória para os criadores de gado. Apesar das críticas, a “Insulana” conseguiu manter o monopólio. Quando em 1920 foi criada a companhia de navegação *Carregadores Açorianos, a firma Bensaúde conseguiu um acordo com aquela empresa afastando-a das rotas tradicionais da “Insulana”, tendo feito apenas cedência a um barco da “Mutualista” que fazia serviço de cargas entre São Miguel e Lisboa. A nível interno, pequenas empresas faziam serviço de cabotagem, essencialmente no Inverno, porque nos meses de Verão, em que era maior o movimento, a Insulana reduzia 40% nos preços dos fretes. A “Insulana” acabou por adquirir os Carregadores Açorianos e manteve assim o monopólio das carreiras insulares. Em 1975, foi nacionalizada e fundida com a Companhia Colonial de Navegação, também nacionalizada, dando origem à Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos (CTM). Uns anos depois esta foi privatizada, dando origem à Transinsular e à Portline. Carlos Enes (2003)

Bibl. Bensaúde, V. (1940), “Elementos elucidativos, tendentes a demonstrar qual tem sido a acção da Empresa Insulana de Navegação em prol dos interesses das ilhas dos Açores e Madeira”, in Livro do I Congresso Açoriano. Lisboa, Edição da Casa dos Açores: 565-573. Enes, C. (1994), A economia Açoriana entre as duas guerras mundiais. Lisboa, Edições Salamandra. João, M. I. (1991), Os Açores no século XIX – economia, sociedade e movimentos autonomistas. Lisboa, Edições Cosmos.