electrificação

A produção de energia eléctrica nos Açores esteve, até há bem pouco tempo, essencialmente dependente dos derivados do petróleo para pôr em funcionamento as diversas centrais. Os custos elevados da produção e a dependência face ao exterior levou ao estudo do aproveitamento de energias alternativas, possíveis de captar na região. Deste modo, foi montado um parque eólico em Santa Maria, em 1988, que produz cerca de 10% das necessidades actuais do consumo da ilha. Paralelamente, estão sendo realizados estudos noutras ilhas com o mesmo objectivo, nomeadamente no Faial e em S. Jorge. O aproveitamento da energia das ondas está também em fase de estudo na ilha do Pico, mas a fonte de energia, com perspectivas promissoras no futuro, baseia-se no aproveitamento geotérmico. Um projecto que, embora remonte a 1951, só foi possível concretizar recentemente, com a primeira central, na Ribeira Grande, inaugurada em 1980. Os resultados positivos têm conduzido a estudos para o seu aproveitamento em outras zonas da ilha de S. Miguel, bem como na Terceira e no Faial.

Utilizando as fontes de energia referidas, a electrificação da região passou na quase totalidade das ilhas pela iniciativa privada, a que se seguiu uma municipalização dos serviços, com a criação de federações municipais. Posteriormente, aqueles serviços foram sendo integrados na Empresa Insular de Electricidade, criada em 1969 e nacionalizada em 1975. De seguida, esta passou para a tutela da Secretaria Regional do Comércio e Indústria, transformando-se na actual Empresa de Electricidade dos Açores (E.D.A.), pelo decreto regional 16/80/A, de 21 de Agosto de 1980. Este longo processo de electrificação, que veio substituir os velhos sistemas de iluminação pública, teve o seu início nos finais do século XIX, com o fornecimento de luz aos espaços públicos, a que se seguiram os particulares e os vários sectores industriais. Como em todo o lado, a introdução da energia eléctrica no sector industrial simplificou processos de trabalho e facilitou uma produção em série que conduziu à sociedade de consumo; a nível do quotidiano, a electricidade alterou por completo a vida das pessoas, desde a simple rotina doméstica às suas ligações intercontinentais, através dos meios de comunicação.

SÃO MIGUEL

As primeiras diligências nesta ilha foram tomadas pelo engenheiro José *Cordeiro (1867-1908), um micaelense que, depois de várias experiências pelo mundo, decidiu lançar-se na aventura. Aproveitando quedas de água em várias ribeiras, convenceu-se que o projecto era viável e criou a Companhia Michaelense de Iluminação Eléctrica, em 1898. Falhadas as tentativas para instalar a iluminação em Ponta Delgada, conseguiu o apoio do presidente da Câmara de Vila Franca do Campo. Aprovado o contrato em 1899, iniciou a construção da primeira central, conhecida como «Fábrica da Vila». Apesar de vários contratempos, foi possível inaugurar a iluminação pública a 18 de Março de 1900, seguindo-se o fornecimento a particulares. A visita do rei D. Carlos à ilha, no ano seguinte, proporcionou-lhe outra experiência, iluminando os aposentos onde ficou instalado, através de um grupo térmico. Em 1902, com a construção da central do «Salto do Cabrito», a electrificação estendeu-se até à Ribeira Grande, a que se seguiram as freguesias limítrofes. Prosseguindo na sua empresa, acabou por conquistar a cidade, em 1904, com um novo aproveitamento hidroeléctrico conhecido por «Fábrica da Cidade». No mesmo ano, atingiu a vila da Lagoa, Atalhada e Água de Pau. Em 1907, adquiriu a Fábrica de Gás e criou a Empresa de Electricidade e Gás. Após a sua morte, a empresa foi gerida por familiares que continuaram os empreendimentos na ilha, com a instalação de novas centrais e estendendo a rede a outras freguesias. Mas entretanto, outro engenheiro micaelense, Manuel Pacheco Vieira (1877-1967), formara a Empresa Eléctrica da Povoação e por seu intermédio foi construída a central dos «Tambores», em 1908. No ano seguinte, era iluminado o casino das Furnas e a própria localidade, em 1910. Na vila da Povoação, a electricidade só ficou instalada em 1916. Por seu turno, o município de Ponta Delgada, conseguiu autorização para produzir energia eléctrica, em 1919, mas o processo só arrancou em 1926, com a criação dos serviços municipalizados. Para o efeito, construiu novas centrais, para satisfazer o aumento do consumo. A cidade ficou, assim, a ser fornecida por duas entidades, o que criou alguns problemas. O governo acabou por intervir e, através de um acordo, foi concedida à Empresa de Electricidade e Gás a distribuição da energia ao concelho, mediante uma série de condições devidamente estipuladas, por um prazo de 30 anos. Dificuldades de vária ordem, levaram à criação da Federação dos Municípios da Ilha de S. Miguel, em 1956, com o objectivo de reorganizar não só a produção como também a melhoria da distribuição. Foi assim que a electricidade chegou à vila do Nordeste, em 1962. Uns anos depois, em 1969, com a intervenção do governo, foi criada a Empresa Insular de Electricidade (E.I.E.), extensiva a todo o distrito de Ponta Delgada. Deste modo, se procedeu a uma série de melhorias e se estendeu a rede a toda a ilha, que ficou concluída em 1981, nas Sete Cidades.

SANTA MARIA

A outra ilha do antigo distrito de Ponta Delgada conheceu a primeira instalação eléctrica, feita pelos C.T.T., em 1944, com o objectivo de servir apenas a estação telegráfica. Com a construção do aeroporto, os americanos montaram geradores no cais da vila e nos locais do acampamento; o governo português, por seu turno, montou também um pequeno gerador que beneficiou alguns edifícios públicos. Estes equipamentos foram, posteriormente, cedidos à Câmara Municipal que, a partir de 1959, adquiriu novos motores e aumentou a potência das centrais. O aeroporto, classificado como internacional, continuou com energia eléctrica própria até passar a ser explorada pela E.D.A.. A partir de 1970, os serviços prestados pela Câmara Municipal foram, gradualmente, integrados na E.I.E. Foi então que teve início a electrificação da ilha, remodelando a rede existente e estendendo-a às freguesias rurais, cujo processo ficou concluído na década de 90.

TERCEIRA

Apesar das propostas lançadas em 1895 para a electrificação de Angra, os primeiros passos só se efectivaram dez anos depois. Ao projecto, concorreu o engenheiro micaelense Manuel Pacheco Vieira, cujo contrato foi assinado com a Câmara Municipal em 1906, procedendo-se à inauguração em 1908. Nesta cidade a energia era fornecida a partir de uma central térmica. Para tentar superar várias dificuldades, Pacheco Vieira criou a Empresa de Iluminação Eléctrica de Angra, em 1910, que mesmo assim não conseguiu dar resposta aos problemas surgidos, nem dar cumprimento cabal às cláusulas do contrato. Deste modo, o governo pôs cobro à situação municipalizando o serviço, com uma indemnização à empresa (diploma de 21 de Janeiro de 1929, publicado no Diário do Governo a 26 do mesmo mês). A criação deste serviço municipalizado previa o fornecimento à vila da Praia da Vitória, cuja electrificação se deu em 1931. Novos equipamentos foram, então, instalados pelo sistema diesel e inaugurada uma central térmica em Angra, em 1931. Nos anos 50, foram postas em funcionamento três centrais hidroeléctricas e, em 1983, uma grande central térmica, no Belo Jardim. Lentamente, a electricidade estendeu-se por toda a ilha, ficando concluída em 1975.

GRACIOSA

Em 1930, a Câmara de Santa Cruz da Graciosa aprovou, com alguns alterações, uma proposta da firma Valle & Rezendes, Limitada-Engenheiros, com sede em Angra, com vista à electrificação da vila e freguesias rurais. De seguida, foi constituída a Empresa Eléctrica Graciosense, construindo-se de imediato uma central na Cruz da Barra, com dois motores acoplados a um gerador. A inauguração da electricidade ocorreu em Agosto de 1932. Mas os prejuízos constantes da empresa levaram à municipalização do serviço, em 1951. Com a construção de novas centrais e o aumento da potência, toda rede da ilha foi sendo remodelada e ampliada, ficando concluída em 1984.

SÃO JORGE

O processo de electrificação dos dois concelhos seguiu vias independentes. Na Calheta, com a criação em 1924 da Companhia Calhetense de Electricidade, SARL, procedeu-se apenas a uma electrificação parcial da vila, em 1926, situação que se manteve até 1949, por falta de meios. Tal como em outras ilhas, o serviço acabou por ser municipalizado, naquela data. A partir de 1955, a Câmara procedeu à montagem de motores diesel, com vista à expansão para as zonas rurais. Mas os custos elevados não facilitaram essa expansão e as populações montaram a expensas próprias centrais comunitárias, constituídas por pequenos geradores, que se mantêm até ao presente com o apoio da E.D.A. Nas Velas, foi também constituída a Empresa Eléctrica Velense, SARL, tendo-lhe sido dada concessão pela Câmara em 1929. Pelos mesmos motivos referidos para a Calheta, a empresa foi adquirida pela entidade municipal, em 1955. O aumento da potência e a remodelação das instalações existentes demoraram vários anos. A própria substituição da rede da vila só ocorreu em 1974 e a cobertura do concelho só ficou concluída em 1981. Com a transferência do património destes serviços para a E.D.A. foi concluída a electrificação da ilha em 1984.

FAIAL

As primeiras propostas para a electrificação da cidade da Horta, em 1902 e 1906, feitas respectivamente por uma firma americana e outra de Lisboa, não tiveram seguimento. Mas o projecto acabou por se concretizar através de um contrato com o engenheiro electricista João Raposo de Medeiros, micaelense, em 1908. O projecto teve início com a construção de uma central térmica, num terreno arrendado por 30 anos, junto ao porto. A iluminação da via pública foi inaugurada em Abril de 1910 conjuntamente com a instalação eléctrica nos principais edifícios do Estado. Seguiu-se depois o fornecimento a particulares que, tal como nas outras ilhas, podia ser pago por avença fixa ou por contador. Logo de seguida, foi constituída uma sociedade por quotas, denominada Empresa de Iluminação Eléctrica da Horta, L.da, que foi transformada em sociedade anónima em 1924, com a designação de Empresa de Iluminação da Horta. Os seus fracos recursos não permitiram que se expandisse para fora da cidade nem fosse capaz de reparar a rede que se ia degradando. Só em 1944, conseguiu ampliar a potência para satisfazer os pedidos de utilização pela indústria. Perante estas dificuldades, a Câmara da Horta decidiu municipalizar os serviços, em 1956, adquirindo definitivamente o património da empresa, em 1965. Foi então posto em funcionamento o Aproveitamento Hidroeléctrico do Varadouro, incluindo o complemento térmico designado por «Central da Horta». A partir de 1969, iniciou-se a electrificação rural que ficou concluída em 1984, no lugar da Fajã, Praia do Norte. Com a integração dos serviços na E.D.A., em 1981, todo o sistema foi melhorado, com a construção da Central de Santa Bárbara, em 1982.

PICO

Esta ilha dividida em três concelhos não seguiu processos semelhantes aos anteriormente referidos, dado que nos concelhos de S. Roque e da Madalena a iniciativa pertenceu às respectivas Câmaras Municipais. No de S. Roque, a Câmara adjudicou a obra à AEG-Lusitana de Electricidade, L.da, que inaugurou a electrificação do Cais do Pico em 1942. A fonte de energia instalada era um motor a gás pobre, substituído depois por outros geradores mais potentes. Na Madalena, o processo só começou em 1951, tendo sido inaugurada em Dezembro de 1953, prolongando-se depois para as zonas rurais. No concelho das Lajes, foi constituída a Empresa Eléctrica Lajense, em 1930. Com a montagem de uma pequena central num compartimento do antigo convento de S. Francisco, constituído apenas por um motor, a vila foi iluminada em Janeiro de 1933. Mas as dificuldades financeiras levaram a que o património da empresa fosse transferido para a Câmara em 1960, que passou à fase de electrificação de algumas freguesias rurais. Tal como em S. Jorge, também se formaram no Pico várias centrais comunitárias ou «sociedade da luz» nas zonas mais afastadas que se mantêm em funcionamento. Devido à extensão da ilha e às dificuldades financeiras, foi criada em 1978 a Federação dos Municípios da Ilha do Pico, cuja actuação se estendeu de forma mais eficaz a toda a ilha, até à integração na E.D.A., em 1981. Destaque-se para esta época a construção da central termoeléctrica do Pico e a conclusão da electrificação da ilha, em 1985.

FLORES

Em finais de 1926, foram feitas as primeiras diligências para a instalação da energia eléctrica, tendo para tal sido constituída uma sociedade em Santa Cruz. Os elevados encargos levaram a que o projecto fosse rejeitado pela Câmara. Em 1938, foi constituída a Cooperativa Hidroeléctrica de Santa Cruz das Flores que estabeleceu contactos em Lisboa para o início dos trabalhos. Mas o projecto voltou a fracassar. Só em 1941, José Jacinto Mendonça Flores, presidente da Câmara, foi autorizado a explorar a rede de energia, cuja inauguração ocorreu em Dezembro de 1948. Uns anos depois, 1954, o serviço foi municipalizado. A instalação de uma estação de telemedida francesa na ilha levou a uma intervenção do governo que financiou a construção de centrais, nos finais dos anos 60, quando também foi constituída a Federação dos Municípios, em 1967. Esta Federação não foi integrada na E.D.A., tal como o Corvo. A electrificação da ilha das Flores ficou concluída em 1982.

CORVO

A pequena ilha só dispôs de energia eléctrica em 1963, em sistema monofásico, alterado posteriormente. Nos anos 80, construiu-se uma pequena central que abastece toda a ilha. Carlos Enes (2006)

Bibl. Gomes, F. (1997), A ilha das Flores: da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua história). Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores: 313-315. Simas, L. A. (1997), Esboço Histórico da electrificação dos Açores. Ponta Delgada, Empresa de Electricidade dos Açores, E.P. Simões, I. M. (1976), «José Cordeiro» In Revista Electricidade, n.o 125 (Maio-Junho de 1976): 75-77. Id. (1980), «Manuel Pacheco Vieira» in ibidem, n.o 149 (Março de 1980): 78-79. Id. (1992), «Electrificação dos Açores – I – Primeiras electrificações da ilha de S. Miguel» In ibidem, n.o 295 (Dezembro de 1992): 194-197. Id. (1993), «II – Fornecimento energético a Ponta Delgada e electrificação geral da ilha de S. Miguel» In ibidem, n.o 297 (Fevereiro de 1992): 198-204. Id. (1993), «III – A electrificação da ilha Terceira» In ibidem, n.o 298 (Março de 1993): 205-210.