ecossistema cavernícola

O ecossistema cavernícola (e.c.) caracteriza-se pela estabilidade de vários parâmetros físicos como a temperatura e humidade e por uma fauna e flora muito particulares. Nos Açores existe uma grande diversidade de cavidades subterrâneas de diversos tipos: tubos de lava (grutas vulcânicas) terrestres e submarinos, algares vulcânicos, grutas de erosão marinha e terrestre. Como nos Açores a maior parte das cavidades subterrâneas são de origem vulcânica, apenas estes serão referidos (tubos de lava e *algares). Apesar de os tubos de lava nos Açores não serem muito profundos, a temperatura e a humidade são no geral constantes nas zonas de completa penumbra podendo ser mais variáveis nas entradas e desabamentos (skylights). Normalmente a humidade é elevada e a temperatura varia com a altitude da cavidade mas sempre para o fresco.

No que diz respeito ao estudo dos e.c. dos Açores, apenas em 1988 e 1989 foi dado início às primeiras investigações com duas expedições científicas financiadas pela National Geographic Society e lideradas por Pedro Oromí (Universidade de La Laguna) e Philippe Ashmole (Universidade de Edimburgo) com o apoio dos “Montanheiros” (Oromí et al., 1990). Dessas expedições resultaram a descrição em várias revistas internacionais de cerca de 13 espécies de artrópodes novos para a ciência e endémicos dos tubos de lava e algares dos Açores. Esse esforço foi continuado em várias das Expedições dos Montanheiros na década de 90 sob a coordenação de P. A. Borges e culminou com a publicação de uma lista comentada da fauna das cavidades vulcânicas dos Açores na Enciclopédia Bioespeleológica editada em França (Borges e Oromí, 1994).

Os animais completamente adaptados ao ecossistema cavernícola designam-se por troglóbios, ou seja, possuem modificações morfológicas e fisiológicas que lhes permitem sobreviver à escuridão total, escassez de alimento e condições abióticas particulares como elevada humidade. De entre essas adaptações destacam-se despigmentação total ou parcial, redução ou ausência de olhos, apêndices mais compridos, órgãos sensoriais tácteis e quimioreceptores mais desenvolvidos, tubo digestivo simplificado, estratégia ecológica K, várias fases do ciclo biológico mais alargadas. Existem actualmente cerca de 19 espécies de troglóbios nos Açores, três delas ainda por descrever cientificamente. Os animais troglófilos são aqueles, que estando ligeiramente adaptados ao ambiente cavernícola, podem ocorrer igualmente em outros habitats terrestres epígeos podendo ou não completar o seu ciclo de vida no meio subterrâneo. Os organismos troglóxenos são aqueles que não possuem qualquer adaptação ao habitat cavernícola mas que usam as cavidades como refúgio.

No interior das cavidades não existem plantas verdes mas em alternativa podem encontrar-se fungos que crescem sobre excrementos de ratos e coelhos servindo de alimento a outros organismos. As raízes de árvores penetram frequentemente no interior das cavidades vulcânicas e um grupo particular de insectos, os Cixiidae (Insecta, Homoptera) (Cixius azopicavus Hoch, Fig. 1, é endémico da ilha do Pico e Cixius cavazoricus Hoch é endémico da ilha do Faial), sugam a seiva. Algum esforço foi realizado para estudar a flora das entradas das cavidades açorianas, particularmente um estudo da brioflora das cavidades de várias ilhas do arquipélago (González-Mancebo et al., 1991a, b) e outro sobre a flora do *Algar do Carvão (Terceira) (Dias e Gabriel, 1994; Gabriel e Dias, 1994).

O ecossistema cavernícola não se reduz ao interior dos tubos de lava e algares que são os espaços mais amplos de um ecossistema mais vasto que se estende pelas microfissuras e fendas que existem no solo vulcânico. Este é o chamado “Meio Subterrâneo Superficial” – MSS (ou Mesovoid Shallow Substratum sensu, Culver 2001) que permite a dispersão das espécies troglóbias entre tubos de lava e algares vulcânicos. Nos Açores já foram detectadas espécies neste tipo de habitat, como o escaravelho troglóbio endémico da ilha Terceira Trechus terceiranus Machado (Borges, 1993).

As cadeias tróficas nos e.c são simples e muito dependentes dos fluxos de nutrientes e energia que penetram nas cavidades através das fissuras ou entradas, particularmente plafecossisncton aéreo e manta morta. Um dos maiores problemas com os e.c. nos Açores tem a ver com o desaparecimento das florestas e impermeabilização das fissuras por lamas das pastagens impedindo assim o fluxo de nutrientes. Nas cavidades subterrâneas dos Açores dominam as espécies predadoras e saprófagas, embora muitos dos predadores adoptem também comportamento saprófito. Estes consomem muitos dos troglóxenos e espécies acidentais que penetram no e.c. e que morrendo deixam os seus cadáveres para os troglóbios consumirem. No geral existem poucas espécies no e.c. dos Açores mas algumas são particularmente abundantes e todos os troglóbios são endémicos dos Açores. De particular interesse no e.c. dos Açores é a presença de espécies com diversos graus de adaptação ao meio cavernícola o que terá a ver com idades diferentes de colonização do meio subterrâneo (Borges e Oromí, 1991) consequência da idade variável dos sistemas vulcânicos. Paulo Borges (Jan.2002)

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