economia

A valorização das ilhas constituiu o principal propósito do ordenamento dos espaços e, por isso, o progresso das arroteias equivaleu ao sustentáculo do desenvolvimento. Daí, o esboço de uma estratégia de fixação de colonos, que repousou na persuasão dos estímulos. Entre eles, avultaram a doação de terras em regime de sesmarias, que incrementou a agricultura, e a concessão de isenções fiscais, que incentivou o comércio. A princípio, a colheita e a troca de produções silvestres correspondem decerto ao expediente de suprimento das necessidades de sobrevivência em comunidade. Depois, sobrevêm a organização das actividades, que também cumpre uma sequência de expectativas. Se a salvaguarda da subsistência precedeu necessariamente o intento da acumulação de riqueza, no advento da expansão ultramarina, as ilhas desempenharam ainda o papel determinante de campos de ensaio de diversas culturas, antes da respectiva transposição para o sobrante universo atlântico. A prazo, esta nova função reverteu, por vezes, em prejuízo dos próprios arquipélagos. Após o ensaio da colonização, que implicou o recurso à diversidade dos expedientes, o labor dos povoadores originou rapidamente a emergência de um modelo de economia plural, que resistiu à sucessão dos séculos, pela adequação ao carácter da natureza e ao sentido da história. À escala insular, a heterogeneidade dos ambientes redundou na revelação de equilíbrios produtivos, que derivaram da necessária arrumação das culturas, em função das condições de cada lugar; por acréscimo, o objectivo do auto-abastecimento ainda promoveu a multiplicidade das produções e o fomento das trocas. Já na dimensão exterior, a demanda dos mercados português, europeu e ultramarino determinou a especialização, que na prática reverteu no predomínio de certos cultivos.

Nos Açores, o reconhecimento de preponderâncias produtivas, necessariamente periódicas, porque demasiado sujeitas à mutação irreversível das conjunturas euro-ultramarinas, motivou alguns historiadores à caracterização de toda a história económica insular pela crença na sucessão de ciclos bem distintos. Porém, a averiguação dos factos desmistifica efectivamente esta visão. Com efeito, a restritiva noção de “ciclo” implica o desenvolvimento da monocultura, que acarreta a extrema dependência dos mercados externos, indispensáveis para a colocação das exportações, que sobejam, e para a aquisição das importações, que faltam. Ora, este cenário diverge profundamente da realidade açoriana de outrora, que apenas admite a predominância desigual de diversas produções nas ilhas de maior dimensão, abastança e centralidade. Nas parcelas insulares mais periféricas, sobressai menos a influência dos bens de comercialização, porque o peso do isolamento obriga fundamentalmente à salvaguarda da subsistência, obtida pela diversificação do espectro produtivo (Meneses, 2002). Ademais, em casos peculiares, designadamente no Pico e em S. Jorge, a textura do solo e a disposição do relevo criam economias diferentes, por vezes, até sem par no confronto arquipelágico. Nestas circunstâncias, a variedade insulana até dificulta a identificação de um padrão geral de desenvolvimento próprio de cada época. A análise das Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, indiscutivelmente o melhor meio de entendimento dos Açores do século XVI, certifica a nossa convicção sobre a orgânica económica ilhense: a crónica frutuosiana evidencia a relevância da agricultura mercantil, sobretudo em solos de S. Miguel e da Terceira; destaca a peculiaridade das colheitas, principalmente no Pico e em S. Jorge; e demonstra o intento da garantia da subsistência, que impera na generalidade das ilhas. No conjunto do arquipélago, a eventual correspondência às dinâmicas económicas euro-atlânticas coexistiu necessariamente com o inequívoco propósito da garantia da subsistência dos ilhéus, que demandou a opção por uma economia de equilíbrios, alicerçada na pluralidade das produções. A descrição frutuosiana do Corvo constitui um exemplo significativo, apesar da extrema redução da amostragem. Com efeito, o realce da arrecadação de trigo e de pastel, os bens açorianos de maior consideração, não inibe a diversificação das colheitas, donde sobressaem as favas, as lentilhas, os chícharos, a mostarda e muitas batatas, tudo ingredientes da alimentação mais comum (Frutuoso, 1978).

A natureza e a sociedade dificultam, entretanto, a plena consecução do objectivo da subsistência. Assim, as condições ambientais determinam a falta de bens essenciais à garantia de sobrevivência nas comunidades de outrora. Entre eles, ressaltam o sal e o azeite, que demandam o estabelecimento de um regime regular de importação. Do mesmo modo, a incapacidade técnica motiva a precisão de manufacturas e de artefactos, que afluem dos mercados português e internacional. Estas carências persistem à sucessão dos tempos, apesar da busca de produtos de substituição. A comprová-lo, ainda em 1763, o comerciante angrense Frutuoso José Ribeiro citava as principais compras açorianas, destacando “o sal, azeite, e mais [mercadorias] que vem alem do mar”, uma referência quase certa à panóplia de bens transformados, procedentes do Reino e da Europa do Norte (BPARH, Arquivo da Câmara de Angra, Livro de Tombo [1737-1791], fl. 317). Porém, a maior das dependências decorre da privação do sal, pelo que a garantia do respectivo abastecimento constituiu uma preocupação permanente. À partida, alguns diplomas estruturantes da primitiva administração insular incumbiram aos agentes do poder senhorial, nomeadamente aos capitães, o fornecimento de sal às comunidades, se não em regime de monopólio, pelo menos em condição de preferência (Arruda, 1977: 164). Porém, o esboroamento paulatino da administração dos senhores alterou o sistema da comercialização do sal, que somente na ilha de S. Miguel permaneceu como prerrogativa dos condes de Vila Franca, depois da Ribeira Grande, mesmo após a instituição da Capitania Geral dos Açores, em 1766. Assim, as disputas mercantis caracterizaram a evolução do comércio do sal, que oscilou entre o exclusivo e a liberdade, consoante a cadência das conjunturas. De um modo geral, as autoridades administrativas e os agentes económicos procederam à importação directa de sal do reino, em conformidade com os regulamentos. Todavia, no arquipélago, o receio das rupturas de abastecimento moveu os particulares à adopção de expedientes de remedeio, que talvez ressaltem com maior frequência nas periferias, mais sujeitas às contingências da escassez. É o que sucede, por exemplo, nas Flores no decurso do século XVI, quando o fornecimento de refresco aos navios da pesca do bacalhau se processa contra a entrega de quantidades de sal (Frutuoso, 1978: 344).

A par do trigo, do vinho e do sal, o azeite constituiu também um ingrediente indispensável da alimentação mediterrânica, adoptada pela comunidade portuguesa. Porém, o ambiente das ilhas impossibilitou a aclimatação da oliveira, impondo a dependência da importação metropolitana. No entanto, ao longo do tempo, através da exploração de gorduras vegetais e animais, os açorianos procuraram expedientes de substituição, que reduzissem a escassez do derivado da azeitona. No universo vegetal, sobressai a apanha e a transformação da baga de louro, que perdura por séculos. No século XVIII, a prática ainda perdurava, talvez com maior expressão nas periferias, que evidenciam maior dificuldade de acesso ao denominado azeite doce, desembarcado nos portos de Ponta Delgada, Angra e Horta, cuja redistribuição arquipelágica prima por irregularidade. No reino animal, à data da ocupação humana, Gaspar Frutuoso regista a captura de uma diversidade de aves, o que possibilitava a extracção de quantidades apreciáveis de óleo (Frutuoso, 1978: 351). Depois, releva o uso do azeite de peixe, principalmente extraído dos cetáceos, que procede dos portos do Brasil, antes da difusão da captura da baleia em águas insulares, o que acontece em época demasiado tardia (Machado, 2000: 109-198; Meneses, 1995: 132-137, 178-180). Na sucessão do tempo, os progressos da tecnologia ressaltam a elementaridade funcional das sociedades insulares, cuja capacidade de produção diverge dos padrões de exigência, resultantes da especialização económica e da diferenciação social, que sobressaem no quotidiano das cidades. Assim, acresce a dependência de manufacturas, que procedem de Lisboa, mas sobretudo de Inglaterra. Entre elas, realçamos os lanifícios, os chapéus, o vidro, o papel, a tinta, o ferro, o alcatrão, o chumbo, o sabão, a cerâmica e as munições (Meneses, 1995: 168, 219-220).

Tradição e inovação.

No contexto da expansão Quatrocentista, o arquipélago correspondeu em pleno aos propósitos económicos perseguidos: suavizou a secular carência frumentária portuguesa, agravada pela empresa marroquina, e suscitou a comercialização internacional de novos bens, sempre aconselhada pela obtenção de mais proveitos. Por outro lado, a complexidade do carácter das ilhas consorciou a tradição com a modernidade. Assim, nos Açores, coexistem procedimentos económicos arcaicos e inovadores, praticados por agentes muito diversos, nomeadamente grossistas e retalhistas, de procedência estrangeira ou ascendência local. A comprová-lo, o dirigismo económico municipal, justificado pela necessidade do provimento popular, que inibe a circulação e o dinamismo das produções e dificulta a acumulação e o investimento dos capitais, concorre com práticas de liberalidade, mais dependentes da relação entre a oferta e a procura, cujo surgimento muito retarda na generalidade das periferias (Meneses, 1987: 281-290). Por vezes, o exercício do contrabando reverte no principal meio de conciliação de tendências tão contrárias, que beneficia da conivência ou, pelo menos, do alheamento das autoridades. O aproveitamento e o domínio da terra também evidenciam a coexistência de procedimentos antigos e modernos, embora na sucessão do tempo prevaleça um quadro de referência tradicional, que suplanta as principais inovações, quase todas elas fruto das circunstâncias da arroteia. A princípio, a virgindade do meio reverteu em grande fertilidade, pelo menos enquanto o permitiu a força da natureza e a pressão da demografia; ao mesmo tempo, as sesmarias facultaram maior acesso à terra, embora não tenham gerado uma diversa comunidade de iguais, já que admitem uma diferente compensação dos povoadores, consoante a “qualidade”, a influência e as responsabilidades de cada um. No decurso do século XVI, ocorre uma considerável inversão da conjuntura. O cansaço do chão e a incapacidade da técnica diminuem obviamente a primitiva produtividade. Além disso, emerge a relativa dissociação entre a posse e a exploração do terreno, talvez uma consequência do fim das dadas e da generalização do morgadio, que suscitam a concentração fundiária. Em matéria fundiária, a sucessão do tempo equipara no essencial o regime insular ao modelo continental. Assim, progridem naturalmente o absentismo e a vinculação, que ressaltam, por exemplo, da análise da realidade açoriana da era de Setecentos. Em 1765, Mateus João Bettencourt, provedor dos resíduos, orfãos e capelas da Terceira, certifica que “nas ilhas havia emencidade de capellas” (IAN/TT, Ministério do Reino, doc. s/n.º, representação do provedor dos resíduos e capelas da Terceira à Mesa da Consciência e Ordens, s/l, 1765). Neste caso, a principal consequência consiste na carência de terra livre. Daí, a aplicabilidade nos Açores da desvinculação pombalina de 1769-1770, traduzida na extinção de vínculos de rendimento anual inferior a 100$000 e na redução dos encargos pios a um décimo da receita líquida das instituições (Meneses, 1995: 21-22; Rodrigues, 2000, II: 704-705). Após a instituição da Capitania Geral, em 1766, a coroa intenta a exploração agrária dos terrenos incultos; todavia, a escassez de meios técnicos, a incerteza da respectiva tutela e a resistência das populações, considerando a utilidade dos maninhos, obstaram à vedação e ao cultivo dos baldios.

I – As actividades económicas entre os séculos XV e XVII.

Na economia açoriana, individualizamos a sucessão de diversas fases, caracterizadas pela constância de produtos e de transacções. Na definição de tais épocas, impera muito naturalmente a revelação de culturas dominantes, que revertem na realização de negócios lucrativos. Após a organização primitiva do espaço e ainda no decurso da era de Quatrocentos, emerge um sistema económico que perdura sensivelmente até à segunda metade do século XVII (Meneses, 1987: 237-327). Neste período, as principais actividades respeitam ao cultivo de cereais e de tintureiras, nomeadamente trigo e pastel. O abastecimento dos presídios de Marrocos, a especialização sacarina da Madeira e a insuficiência frumentária do Reino aconselham ao desenvolvimento da cerealicultura; a dependência dos centros europeus de indústria têxtil do fornecimento de matérias corantes induz à exploração das tintureiras. A dissemelhança dos regimes de comercialização altera eventualmente a proporção mais razoável dos cultivos de cereais e de tintureiras, impondo a necessidade da regulamentação, que tenta equilibrar os interesses mais contraditórios. No âmbito da agricultura, assinalamos a durabilidade da gramínea e a transitoriedade da tintureira; no capítulo do comércio, destacamos o lucro do pastel em relação ao ganho do trigo. O resultado consiste obviamente na expansão do pastel e na contracção do cereal, considerando a disputa do mesmo tipo de propriedades. Nestas circunstâncias, os desígnios de enriquecimento dos possidentes colidem com as necessidades de sustento dos populares. Daí, a intervenção régia do princípio da década de 1590, que incide na realidade micaelense, onde mais ressalta a desproporção. A providência monárquica estabelece uma espécie de tecto à cultura do pastel, isto é, até um terço da disponibilidade fundiária de cada proprietário. À margem das culturas predominantes, persiste uma pluralidade de produções, mais adequada à diferenciação dos solos e à salvaguarda da subsistência. Na generalidade das ilhas, à superfície arável da orla costeira, sucede uma zona intermédia de pastagens, antes da mancha florestal do interior. Por entre tais ambientes, ainda penetram os veios e as extensões de lava, resultado do vulcanismo primacial. A diversidade paisagística reverte naturalmente na variedade produtiva, que acautela sobretudo as necessidades do abastecimento local, mas também propicia a exportação. Entre os cultivos secundários, individualizamos os frutos mais tradicionais, indispensáveis ao quotidiano das gentes, e os bens mais inovadores, susceptíveis da conquista dos mercados. As experiências vinícola e sacarina, com evoluções bem distintas, constituem talvez os melhores exemplos. Todavia, também demandam realce a fruta e o linho, a indispensabilidade da criação de gado, da pesca e eventualmente da caça, afora as explorações madeireira e até mineral. No arquipélago, a diversidade da natureza, a necessidade do aprovisionamento e o incentivo da exportação determinam o desenvolvimento do tráfico inter-ilhas. Por seu lado, a acumulação de excedentes faculta a prática do comércio externo. Com efeito, os cereais, principalmente o trigo, as tintureiras, sobretudo o pastel, mas também a urzela, e talvez primeiro o açúcar e depois o vinho permitem a multiplicação das trocas, que principam no quadro português, antes do alargamento à dimensão internacional e à participação das ilhas no trato euro-ultramarino.

Os cereais.

No século XV, o trigo depressa se transformou na principal produção dos Açores. Logo à data do incremento da arroteia, ressalta a abundância das colheitas, muito acima das necessidades do abastecimento local: em referência à ilha de S. Miguel, Gaspar Frutuoso garante que então “tam barato o davam os lavradores, como quase de graça” (Frutuoso, 1981, II: 165-166). Muitos outros testemunhos certificam igualmente a uberdade cerealífera de Quatrocentos (Costa, 1945: 25). Por isso, em nada espanta a presença no arquipélago de embarcações de Lisboa, do Porto e de Aveiro, que já procedem ao carregamento de cereal nos anos de 1477 e de 1478. Aliás, também não admira que na década seguinte o monarca ordene a remessa dos excedentes anuais para as cidades do Reino (Marques, 1978: 169). Na transição para o século XVI, apesar da quebra da primitiva fertilidade, fruto da extenuação dos solos, e do aumento do consumo, consequência da multiplicação dos povos, ainda acresce a produção de cereais, que resulta do alargamento da superfície arável, estimulada pela maior pressão da procura externa. Assim, se em 1525 a arrecadação de trigo nos Açores equivale a cerca de 15.000 moios, em 1585 quase atinge os 23.000 moios, isto somente na Terceira, em S. Miguel e na Graciosa, ainda por cima em ano de reconhecida esterilidade (Godinho, 1965, III: 238). Indirectamente, Francisco Ferreira Drummond demonstra a continuidade da riqueza frumentária, que decerto perdura na primeira metade do século XVII, dada a ausência de alusões à irrupção de crises de subsistência na Terceira, entre 1605 e 1646 (Vieira, 1985: 144). A generalização do cultivo dos cereais comporta a individualização de indíces de produtividade, que derivam da extensão e da qualidade dos solos. Assim, no confronto das partes, reconhecemos as mais ricas, as remediadas e as mais pobres. À data do primitivo incremento da cerealicultura, o carácter da natureza favorece a revelação da uberdade na Terceira e na Graciosa. Aliás, ainda em 1527, Francisco Álvares considera a Terceira a “mãe do trigo” (Vieira, 1985: 129). No entanto, a influência da extensão converte necessariamente S. Miguel no principal centro produtor de trigo, supremacia que ressalta no decurso do século XVI. De resto, Gaspar Frutuoso assinala a relativa fertilidade de Santa Maria, do Faial, das Flores e do Corvo, demarcando somente a insuficiência de S. Jorge e do Pico, ditada pela disposição e pela composição dos terrenos (Frutuoso, 1978). No século XVI, a expansão da cerealicultura não evita a irrupção de crises de subsistência, que se multiplicam na sucessão do tempo, incidindo mais no grupo central, nomeadamente na Terceira (Vieira, 1985: 142-143). A partir de meados de Quinhentos, releva efectivamente a dificuldade de abastecimento de Angra, o que motiva a regularidade do recurso aos excedentes frumentários das ilhas circunvizinhas (Meneses, 1987: 244). Na origem da insuficiência cerealífera, influem causas naturais (por exemplo, o depauperamento dos solos, a difusão das pragas e o aumento do consumo) e razões artificiais (o excesso da exportação e o incentivo do pastel). A garantia do sustento local e a salvaguarda do provimento externo exigem a arrecadação em continuidade de colheitas abundantes, incompatíveis com a imprevisibilidade da natureza. Deste modo, à menor das ameaças, o povo reage com a violência de quem já conhece as agruras da miséria. A comprová-lo, no Inverno de 1552, sobretudo em S. Miguel, mas também no Faial e em S. Jorge, os moradores escorraçam Afonso Capiquo, que intenta “carregar trigo que os rendeiros heram obrigados a dar a V. A.” (Arquivo dos Açores, 1981, IV: 64-65). Na verdade, o carregamento de cereal acontece apenas no porto de Angra, talvez sob vigilância do corregedor, que condena veementemente a insubordinação dos populares. Todavia, na ocasião, o próprio Dr. Luís da Guarda confirma a esterilidade dos campos, que inclusivamente determina uma considerável subida dos preços (Vieira, 1985: 65). A prazo, a multiplicação das insuficiências frumentárias estabelece efectivamente uma prática de resguardo de abastecimentos, que por norma evolui de 1/4 para 1/3 dos colheitas, consoante a influência da demografia. Ainda no domínio da cerealicultura, avulta o cultivo da cevada, traduzido por vezes em colheitas abundantes, que suscitam a exportação para mercados carentes de comestíveis, mormente na cidade de Lisboa e nas praças do Norte de África. Na descrição das ilhas, Gaspar Frutuoso identifica um primitivo incremento da cevada em Santa Maria, mas a maior produção ocorre geralmente na Graciosa. No panorama cerealífero insular, ainda sobressai a introdução do milho, mas cuja produção só releva no decurso do século XVII (Cordeiro, 1981).

As tintureiras.

Nos Açores, a introdução do pastel ocorreu ainda no século XV. Aliás, Valentim Fernandes alude inclusivamente ao início da exportação, logo no termo de Quatrocentos (Arquivo dos Açores, 1980, I: 147). Porém, como assevera Maria Olímpia da Rocha Gil, só no segundo quartel do século XVI ressalta um assinalável desenvolvimento da produção, coincidente com a organização do comércio. A maior prosperidade acontece apenas em finais de Quinhentos e durante o primeiro terço do século XVII, quando a extracção atinge os valores mais elevados. Depois, sucede um tempo de decadência irremediável, resultante sobretudo da concorrência do índigo do Novo Mundo, mas talvez também do excesso da tributação e da prática da falsificação. A cultura do pastel logrou disseminação por todo o arquipélago. No grupo oriental, a qualidade da produção mariense contrastava com a abundância da arrecadação micaelense, calculada em cerca de 100.000 quintais, no princípio do século XVII. Já em referência ao conjunto das denominadas “ilhas de baixo”, Gaspar Frutuoso escreveu que também “fazem nelas muito pastel, que se leva para Flandres, Inglaterra, Castela e outras provincias” (Arquivo dos Açores, 1980, I: 123). O alargamento da lavoura dos pastéis comportou igualmente um esforço de beneficiação do produto, indispensável à conquista dos mercados internacionais. Daí, a elaboração em 1536 do regimento do pastel, que contemplou um exercício de grande vigilância, desde a sementeira até à exportação. No ramo das tintureiras, ainda releva a utilidade da urzela, líquen que medra espontaneamente em quase todos os rochedos, sobretudo da beira-mar. Na descrição de Santa Maria, Gaspar Frutuoso define a urzela como “musgo do mar, e de cor cinzenta, e deita de si tinta azul mais fina que a do pastel”. Aliás, ainda no caso mariense, sobejam alusões a preços e a colheitas, que prenunciam a prática regular do comércio, pelo menos desde finais do século XV. É certo que, no confronto dos negócios, o proveito da urzela fica muito aquém do lucro do pastel. Todavia, nas ilhas mais pequenas e periféricas, a exploração da urzela pontificou na actividade tintorial, já que ultrapassou por certo a produção do pastel.

A vinha.

Os hábitos alimentares dos metropolitanos e a adequação dos ambientes açorianos motivaram a introdução da vinha. Até cerca do século XVII, o vinho é muito mais uma subsistência do que propriamente uma mercadoria. A vinha medra sobretudo em biscoitos, encostas e fajãs, isto é, fora da terra solta, de maior produtividade. Por isso, não admira o desenvolvimento da viticultura nas escarpas e fajãs de S. Jorge e principalmente nos lajidos do Pico, que, no dizer de Gaspar Frutuoso, “dão bom vinho, e melhor que em todas as ilhas” (Frutuoso, 1978: 303). No século XVI, individualizamos o alargamento e a concentração da viticultura. De facto, ressalta uma profusão de vinhas novas, desde Santa Maria até ao Faial, que só exclui o grupo ocidental, por força da relativa incompatibilidade da natureza. Daí, uma justificação para o surgimento das primeiras notícias sobre a exportação de vinho dos Açores para mercados ultramarinos e internacionais (Mauro, 1960: 230). Ao mesmo tempo, a produção converge no centro do arquipélago, em habitáculos inequivocamente mais propícios. Aquando da erupção vulcânica de 1580 em S. Jorge, Gaspar Frutuoso regista a destruição de cerca de 300 adegas, decerto mais uma prova da expansão e da convergência dos vinhedos (Frutuoso, 1978: 245-248). O incremento da viticultura coabitou com crises de abastecimento, sobretudo nas ilhas de maior dimensão ou de menor produtividade. A busca de uma solução implicou sempre a intervenção dos poderes públicos, sobretudo das câmaras municipais, que quase invariavelmente estabeleceram o embargo da exportação e o controlo dos preços (Meneses, 1987: 251-252). De resto, a verdadeira revelação das potencialidades da viticultura ocorreu somente na centúria de Seiscentos. Nestas circunstâncias, apesar da difusão da cultura e do apuramento da produção, avulta por muito natural a elevada cotação do vinho da Madeira nos Açores do século XVI, equivalente ao dobro da prática mais corrente, como sucede na Terceira em 1589.

A cana sacarina.

No século XV, a demanda europeia justifica a introdução da cana-de-açúcar nos Açores. A maior expressão da cultura sacarina avulta precisamente no grupo oriental. A comprová-lo, em referência à ilha de Santa Maria, Gaspar Frutuoso anota a breve chegada de mestre António Catalão, procedente do Funchal, que trazia por desígnio a organização do fabrico dos açúcares, em conformidade com a prática dos madeirenses (Frutuoso, 1983: 14). Daí, a eventual prosperidade de uma primitiva exploração mariense. Nestas circunstâncias, com o eventual propósito do acréscimo da produção, o foral das alfândegas dos Açores, em 1499, isenta do dízimo a exportação de açúcar para o Reino. À entrada de Quinhentos, a produção anual dos açúcares equivale a cerca de 20.000 arrobas em todo o arquipélago (Arquivo dos Açores, 1981, III: 200). Deste conjunto, sobressai a arrecadação micaelense, que prospera em redor de Vila Franca do Campo, onde laboram os engenhos de Água d’Alto. O século XVI corresponde, entretanto, a um tempo de declínio irremediável do cultivo da cana de açúcar nos Açores. A inadequação da natureza e a força das produções da Madeira, de S. Tomé e, depois, do Brasil, motivam uma drástica redução dos canaviais açorianos. É certo que ainda no termo da era de Quinhentos se atribui a insuficiência madeireira de S. Miguel à contínua laboração dos engenhos (Cordeiro, 1981: 281). Porém, na altura, já prevalece a falta de açúcar em todas as ilhas, que obriga forçosamente à sua importação. Aliás, em inícios de Seiscentos, as ilhas assumem inclusivamente funções na redistribuição, e decerto que também no contrabando, do açúcar brasileiro para paragens europeias (Gil, 1981: 405-406; Mauro, 1960: 230).

A fruta.

Em brejos, ladeiras, fajãs e eventualmente em terra feita, isto é, nos ambientes da vinha, crescem também as árvores de fruto, que só escasseiam no grupo ocidental, decerto por acção das condições do ambiente. Daí, uma vez mais, a dianteira do Pico, onde Gaspar Frutuoso assevera que a “fruta de espinho” é a melhor de todas as ilhas (Frutuoso, 1978: 303). Em lugar de meio de regalo ou de bem de comércio, a fruta conserva sobretudo um carácter muito utilitário, no quadro de uma economia eminentemente de subsistência. Assim, em vez da predominância de determinada espécie, como sucede mais tarde com a expansão dos citrinos, releva antes a multiplicação das frutas, mais adequada à satisfação de necessidades elementares. No Pico, o recurso aos figos constitui talvez o melhor exemplo. Nestas circunstâncias, em ilhas de menor abundância ou épocas de maior carência, os poderes públicos acompanham a produção e o comércio da fruta, considerando a grande utilidade no quotidiano das gentes.

O linho.

Entre os séculos XV e XVII, escasseiam os dados indispensáveis à avaliação do linho na economia insular. Todavia, sobejam os indícios da generalização do seu cultivo, que certamente acode a necessidades sociais bem elementares. Acima de tudo, relevam as disposições camarárias, que regulamentam o denominado alagamento dos linhos, ora pela interdição da existência de gado à solta na proximidade dos tanques, ora pela proibição de semelhante prática em lagos ou regos de reconhecida utilidade pública, e a persistência de tais diligências em todas as ilhas constitui um sinal seguro da relevância do linho, mesmo antes da efectiva conversão em artigo de exportação.

A criação de gado.

À data da colonização, o lançamento prévio de gado constitui um meio de aferição da fertilidade da terra; depois, a multiplicação das espécies assegurou o sustento dos homens, pelo abate dos excedentes, também fornecendo protecção e agasalho, garantindo o amanho dos campos e ainda facilita a locomoção e o transporte. No entanto, a expansão da agricultura retirou espaço à pecuária, embora a permanência de uma considerável porção de terreno à margem das dadas em regime de sesmaria sempre possibilitasse o desenvolvimento das criações. Assim, na sucessão do tempo, escasseia por vezes a carne, principalmente em ilhas de maior consumo, que asseguram o abastecimento de rotas marítimas, caso evidente da Terceira. A natureza dos terrenos determina a distribuição das castas, traduzida na acomodação dos bovinos às pastagens e na adaptação de ovinos e caprinos a solos mais íngremes de vegetação muito irregular. A comprová-lo, atentemos, no caso do Pico, onde muitos rebanhos de gado miúdo apascentam nas vertentes da montanha durante o Verão (Santos, 1989, I: 208). Já a situação de S. Jorge escapa à caracterização mais genérica, fruto da abundância e da excelência dos pastos, que revertem na qualidade da carne e na fama dos queijos, logrando meio de escoamento e acumulação de riqueza.

A pesca e a caça.

No fim do século XVI, Gaspar Frutuoso enumera uma imensidão de espécies de peixe e de marisco, que abunda sobretudo nas ilhas mais longínquas, talvez por via de uma exploração de todo incipiente. Neste particular, releva a abastança das Flores, perceptível na inutilização do peixe miúdo e na faina, à vista da costa, de embarcações da Terceira, que pelo menos fornecem o mercado de Angra (Frutuoso, 1978: 342). Na generalidade, o peixe constituiu quase sempre um complemento alimentar e a pesca talvez adquira maior expressão em parcelas insulares agricolamente mais pobres, por exemplo, no Pico. Quanto à caça, não constituía uma actividade económica de grande consideração e experimentou um decréscimo desde o tempo do povoamento, na sequência da organização da economia e da multiplicação dos predadores, sobretudo porcos, ratos e milhafres. No essencial, a caça talvez correspondesse a um meio de ocupação de tempos livres; no entanto, também contribuiu para a resolução de carências do quotidiano em termos de consumo (as carnes) e de iluminação (o uso das gorduras). Por isso, as câmaras regulavam o exercício da caça, estabelecendo épocas de interdição e métodos de captura, tudo tendente à conservação das espécies, mas no respeito pela defesa da agricultura, como em S. Sebastião ou em Angra.

A exploração florestal.

A mancha florestal constitui a principal herança de interesse económico, que advém do tempo do povoamento. Por norma, ocupa os terrenos acidentados e recônditos do interior, mas também as encostas de ribeiras e de regatos. A qualidade da madeira varia muito em função do carácter do solo, mas, no quadro de uma economia de subsistência, até os arbustos e as ramagens adquirem uma utilidade doméstica de primeira grandeza. O ritmo da ocupação humana determinou naturalmente a maior concentração das matas nas periferias dos grupos central e ocidental, de arroteamento mais tardio (Frutuoso, 1978: 4, 342, 347). Em consequência do alargamento da superfície arável e do crescimento do mercado urbano, encontramos uma sucessão de referências à escassez de madeira, que acresce na aproximação do termo do século XVI, ocorrendo a maior escassez sobretudo em S. Miguel e na Terceira. Nestas circunstâncias, antes do acesso das madeiras mais exóticas do Brasil e da América do Norte, sobretudo do Pico, ainda de S. Jorge e também das Flores, saíram carregamentos de tabuado, para utilização em mobiliário, alfaias agrícolas e construção naval, com destinos predominantemente insulares, talvez as cidades de Angra e de Ponta Delgada, detentoras de mercados mais vastos e exigentes.

A actividade extractiva.

A exploração mineral também demanda uma menção, embora nunca reverta na descoberta dos filões de metais e pedras preciosas, que motivam eventualmente o ingresso de algum grupo de povoadores, sob o estímulo de uma maior ambição. De facto, que se saiba, ocorre apenas a extracção de salitre, caparrosa, enxofre e pedra hume, que gera experiências de utilização no preparo de munições. De resto, as actividades extractivas convergem na ilha de Santa Maria, redundando no arrancamento de alguma pedra de cal, que supre principalmente carências locais, e na obtenção de muito barro, que origina o fabrico de louça e telha, pela exportação repartidas por grande parte do arquipélago.

As relações internas.

Nos Açores, as trocas reduzem as assimetrias do desenvolvimento interno, enquanto redistribuem as importações pelas periferias e concentram as exportações nos centros. No essencial, transitam as produções locais, acrescidas de um pequeno volume de comestíveis e artefactos do exterior, mas a análise dos factos não facilita o entendimento da importância da mercancia à escala arquipelágica, já que aos indícios da correlação regular se opõem os do isolamento persistente. Diversos testemunhos relevam, antes de mais, os entraves do comércio insular, particularmente sensíveis em ilhas mais secundárias e quase sempre imputáveis ao rigor das invernias, à escassez e ao estorvo dos ancoradouros e inclusivamente à falta e à fragilidade dos barcos. Na parte mais ocidental, como é óbvio, a carência de estímulos agrava a solidão, que ainda decorre simplesmente do distanciamento. Porém, mesmo no centro do arquipélago, apesar da proximidade das partes, ainda persiste o embaraço da comunicação, mormente no Pico e em S. Jorge (Frutuoso, 1978: 232, 294).

As conexões com o Reino, a Madeira e o Norte de África.

No universo português, avulta a correspondência açoriana com o reino, as praças de Marrocos e o arquipélago da Madeira. Neste espaço, a questão frumentária define o carácter das trocas, já que sobressai a exportação de muito trigo dos Açores contra o ingresso de poucos bens da Metrópole, donde só ressalta a constância do sal, normalmente a par da frequência do azeite e da eventualidade das manufacturas. Na sucessão do tempo, a evolução do problema cerealífero lusitano até influi na determinação das rotas, obrigando ao provimento prioritário dos presídios do Norte de África, pelo menos até à perda de fortalezas do sul nas décadas de 1540 e de 1550, e do mercado do Funchal, mais deficitário depois da aposta nas especializações sacarina e vitícola (Meneses, 1987, I: 260-261; Santos, 1989, II: 392). Após o fornecimento dos presídios do Magrebe, da ilha da Madeira e até do mercado de Lisboa, sobeja pouco cereal, que possibilite a venda em liberdade. Nestas circunstâncias, o envio de trigo para o estrangeiro avulta por fenómeno muito episódico. Com efeito, de algum significado, releva apenas a derivação de embarcações da Madeira e do Norte de África para as Canárias, onde o cereal dos Açores talvez supra crises frumentárias mais agudas. O compromisso de abastecimento de mercados portugueses mais carenciados impõe uma prática de relativo controlo, que dificulta a liberdade do comércio, susceptível da criação de maior lucro. Na prática, a compra e o transporte dos grãos incumbe a procuradores, que beneficiam do auxílio dos delegados régios e das câmaras municipais. Neste contexto, os proprietários e os mercadores locais contestam a superintendência do comércio do trigo, considerando sobretudo o atraso dos pagamentos e a baixa dos preços, e procedem inclusivamente à escondedura dos cereais, no intuito da obtenção de maior ganho pela invenção da crise ou pelo exercício do contrabando. O resultado consiste naturalmente no acréscimo da intervenção oficial, nomeadamente do poder municipal, que intenta a garantia da subsistência, sob o protesto dos populares.

O trato internacional.

Na dimensão internacional, avulta a correlação europeia, sobretudo movida pela comercialização do pastel, que logra colocação nos centros de manufacção dos têxteis. A principal correspondência une então a ilha de S. Miguel e o mar do Norte. A testemunhá-lo, em referência ao século XVII, Maria Olímpia da Rocha Gil considera que mais de metade do movimento comercial do porto de Ponta Delgada se realiza com cidades de Inglaterra, França, Holanda e Alemanha, que a troco da importação de tintureiras procedem à exportação de tecidos (Gil, 1981: 392). O trato da tintureira ainda faculta a troca por produtos manufacturados, que asseguram o abastecimento das ilhas. Apesar da insegurança dos mares e das rivalidades entre países, a continuidade do tráfico tintorial na conturbada década de 1580 comprova a relevância e talvez a indispensabilidade de tal actividade. Com efeito, o ganho do pastel sustenta o prolongamento da resistência anti-filipina até 1583. Do mesmo modo, após a conquista espanhola, perdura o interesse económico da tintureira açoriana. À margem da predominância das tintureiras, sobretudo o pastel, e talvez a urzela, também o açúcar e, mais raramente, o vinho contribuem para a internacionalização da economia dos Açores. Em relação ao comércio vinícola, só muito tardiamente a produção do Pico logrou a conquista de mercados estrangeiros, mais os ultramarinos do que propriamente os europeus.

O comércio ultramarino.

Desde meados do século XV, a conjugação da força dos ventos, da acção das correntes e do estado das técnicas obrigou as embarcações procedentes dos mares do sul, nomeadamente da costa de África, da Índia e do Novo Mundo, à realização da denominada “volta pelo largo”, que logo sobrelevou a utilidade dos Açores. No entanto, o interesse económico da função açoriana acresce depois do achamento da América por Cristóvão Colombo, em 1492, e do descobrimento do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, em 1498. A tradição releva a influência do trato euro-ultramarino na dinamização da economia dos Açores e a generalidade dos cronistas dos séculos XVI e XVII individualiza uma conjuntura de grande florescimento, resultante do convívio de Além-Mar. À margem do provável exagero das crónicas, a análise documental comprova a revelação de inúmeras oportunidades económicas e prova à saciedade a projecção mercantil do arquipélago, que decorre da intersecção de importantes tráficos no seu mar. A actualidade também regista a preponderância do comércio de todas as Índias no progresso da economia dos Açores. Neste caso, a maior atenção incide, entretanto, na relevância dos metais preciosos, obviamente originários das partes de Castela (Gil, 1979: 278; Lorenzo Sanz, 1980, II: 145). Todavia, a averiguação dos factos também questiona a propalada influência do tráfico colonial na dinamização da economia insular, aconselhando à adopção de uma perspectiva de maior comedimento. Os estudiosos de hoje relativizam os benefícios económicos insulares decorrentes da correlação ultramarina. Com efeito, tais vantagens excluem a generalidade das ilhas, pois confluem nos centros urbanos, mormente em Angra, talvez ainda em maior favor de comerciantes estrangeiros (Silva, 1984). Nesta óptica, Artur Teodoro de Matos sublinha a necessidade do incentivo da investigação, antes da determinação do papel da opulência dos impérios ibéricos na definição das condições económicas insulanas (Matos, 1983).

Os principais centros económicos.

Nos Açores, entre os séculos XV e XVII, a dinamização da economia depende muito do contributo das ilhas dos grupos oriental e central, que logram um desenvolvimento mais precoce. À época, fruto da dimensão e da fertilidade, S. Miguel já emerge por centro capital de produção e de exportação, embora ainda se encontre muito aquém do aproveitamento de todas as suas potencialidades. Contudo, à mesma data, imperam as excelências da ilha Terceira e da cidade de Angra. Por isso, de ordinário, o arquipélago adopta o epíteto de ilhas Terceiras, assumindo a designação da sua parte mais relevante. Na evolução do primeiro sistema económico dos Açores, que decorre até à segunda metade do século XVII, para a afirmação da preponderância angrense influi a segurança do ancoradouro, que propicia a defesa dos navios contra a inclemência do tempo e a cobiça dos inimigos e proporciona a assistência dos homens contra a privação e a doença. No entanto, a prosperidade da agricultura da ilha Terceira também sustenta o engrandecimento de Angra. Com efeito, até cerca de meados do século XVI, a produção terceirense regista valores muito elevados, quase idênticos aos micaelenses. A funcionalidade portuária e a riqueza agrícola movem decerto a multiplicação dos homens e a concentração administrativa, que proporcionam a elevação de Angra da condição de vila à dignidade de cidade, por carta régia de 21 de Agosto de 1534. As implicações insulares da união ibérica de 1580 indiciam talvez o epílogo da projecção da cidade de Angra e da ilha Terceira na economia dos Açores. A conquista espanhola de 1583 comporta a valorização da componente militar, traduzida na construção da fortaleza do Monte Brasil, convertida em sentinela do Atlântico. Esta opção reverte em detrimento da função mercantil, talvez lesada pela rivalidade hispano-nórdica, que diminui a convivialidade de outrora (Meneses, 1987: 211-235). A médio prazo, a redefinição de equilíbrios múltiplos (insulares, europeus e ultramarinos) altera em baixa o multifacetado desempenho da cidade de Angra e da ilha Terceira.

II – A inversão de Seiscentos.

Nos Açores, durante a segunda metade do século XVII, individualizamos uma inversão de conjunturas, reveladora de um estado de crise. Na dimensão interna, o declínio da cultura do pastel aniquila a fonte de maior rendimento, que não logra substituição por uma alternativa de idêntico proveito. Na analogia externa, o avigoramento dos nórdicos altera o giro e o ritmo das relações transatlânticas, que ofuscam a participação insular na correspondência intercontinental. A averiguação dos factos evidencia a extrema debilidade da economia dos Açores, cuja prosperidade depende do aproveitamento de conjunções euro-ultramarinas, que escapam de todo ao exercício de um qualquer controlo insular. De facto, a exploração da fertilidade da terra demanda um esforço de adaptação à procura exterior, que varia em função de condições imprevistas. Do mesmo modo, a vantagem da utilização do mar aguarda pela definição de rotas, que valorizem a função da escala ilhense. Em suma, o surto do desenvolvimento local depende necessariamente da cadência do progresso internacional. A historiografia portuguesa, nomeadamente a açoriana, regista diversos sinais da decadência do ocaso do século XVII, insistindo na generalização da penúria interna e na desvalorização da utilidade externa; por seu lado, a historiografia estrangeira, designadamente a anglo-saxónica, ignora os indícios de crise do termo de Seiscentos, aludindo à diversificação da correspondência externa, que motiva a dinamização da economia interna (Duncan, 1972: 154-155). Aliás, muito antes, na sua History of the Azores or Western Islands, editada em 1813, o inglês Thomas Ashe reconhece a constância da primazia estratégica e do interesse económico do arquipélago, fruto de uma localização de privilégio “between Africa, America and Europe”, o que faculta “a vast and productive trade could always be carried on either in a legal or an indirect mode, particulary with Africa and America” (Ashe, 1813: 21). Por isso, o autor até sugere a conversão das ilhas em protectorado da Inglaterra, considerando a utilidade para a consecução do domínio pleno dos mares. A contradição das interpretações dificulta o entendimento da conjuntura económica açoriana da segunda metade do século XVII. Nos depoimentos dos locais, valorizamos o reconhecimento das carências internas, pois resulta decerto da consulta de fontes ou da recolha de testemunhos, que transmitem informações relativamente fiáveis (Azevedo, 1948; id., 1952-1953; Gil, 1979). Nas descrições dos forasteiros, enaltecemos a confirmação dos préstimos externos, pois deriva com certeza do exercício de funções de apoio à navegação internacional, que evidencia a permanência do arrimo da geografia (Meneses, 1997). Ao invés, depreciamos as opiniões de estrangeiros e de portugueses, quando julgam respectivamente as conjunturas interior e exterior. De facto, no desconhecimento das incidências insulares, os forâneos anunciam um dinamismo mercantil, incompatível com o colapso da cultura do pastel e o declínio das rotas coloniais ibéricas. Do mesmo modo, insensíveis à inversão das hegemonias internacionais, os naturais exageram no prolongamento da decadência, uma espécie de talismã dos liberais, mas apenas um mal dos peninsulares, com maior evidência em Angra, escala tradicional das carreiras das Índias orientais e ocidentais.

III – As actividades económicas entre os séculos XVII e XIX.

O esforço dos homens, a riqueza da terra e a utilidade da geografia sempre superam a crise do ocaso de Seiscentos, originando a constituição de um novo paradigma económico, que perdura até plena contemporaneidade. No essencial, a multiplicação das culturas e a proliferação das trocas definem então a evolução da economia dos Açores, que intenta sempre a consecução dos desígnios mais tradicionais, isto é, a garantia da subsistência dos povos e a satisfação da demanda dos forasteiros. Na produção, ressalta o acréscimo do ramo dos comestíveis. A par da preponderância dos cereais, onde sobressai a difusão do milho, avulta o desenvolvimento das leguminosas, sobretudo as favas e o feijão, e até releva a protecção de bens de pura sobrevivência, por exemplo, o inhame. Além disso, demanda realce a expansão da vinha, a evidência da laranja e o crescimento do linho, que faculta o progresso do artesanato e permite a experimentação da manufactura. O sector das tintureiras sobrevive fundamentalmente da extracção da urzela, que nunca alcança um índice de rentabilidade semelhante ao da antecedente comercialização do pastel. A pecuária e a pesca persistem como actividades rudimentares e a exploração florestal denota insuficiência, talvez suprida pelo acesso às madeiras exóticas ultramarinas. No comércio, a influência das carreiras das Índias de Portugal e de Espanha cede o lugar à importância de uma multiplicidade de contactos de curta, média e longa distância, onde transparece a dificuldade da individualização de predomínios. De facto, ao aumento das conexões inter-ilhas, acresce a manutenção das relações com o complexo português (reinol, madeirense e ainda marroquino) e a diversificação da correspondência euro-ultramarina, que abrange o litoral do Brasil, a costa da América do Norte e muitos portos da Europa setentrional, sobretudo da Grã-Bretanha.

Os cereais e os comestíveis.

A aptidão dos solos, o acréscimo da população e a demanda do reino, da Madeira e do Norte de África motivam o incentivo da cerealicultura, base da alimentação das gentes. Aliás, o desaparecimento da cultura do pastel alargou decerto a área de sementeira dos cereais, que, em muitas ilhas, conquistou uma predominância quase absoluta. Entre os séculos XVII e XIX, na questão frumentária açoriana, ressalta a introdução, desenvolvimento e preponderância do milho, que gera uma autêntica revolução silenciosa. De facto, acrescem as disponibilidades alimentares das localidades e, por isso, reverte em sustento fundamental dos mais pobres. Daí, a libertação das colheitas de trigo, que asseguram a regularidade da extracção, antes da revelação da valia comercial do próprio milho, que sucede na aproximação de Oitocentos. Afora as predominâncias do trigo e do milho, ainda releva a expressão da cevada, talvez sobretudo na Graciosa. Aliás, no caso graciosense, a elevada produção até justifica a constituição de um ramo específico dos dízimos, que supera em muito o rendimento da imposição do trigo. A quebra da primitiva fertilidade dos solos não contradita a aptidão cerealífera do arquipélago dos Açores, que ressalta do confronto com os índices setecentistas da produtividade de Portugal e da Europa. Na realidade, até os estrangeiros reconhecem de ordinário a abastança frumentária insular. Porém, a produção de cereais varia de ilha para ilha. A extensão e a fertilidade dos solos ditam naturalmente a primazia de S. Miguel e da Terceira (Arquivo dos Açores, 1981, VI: 39; Maldonado, 1997: 300). Porém, no confronto das partes, sobressai a proeminência micaelense, por norma equivalente a mais de metade da arrecadação açoriana, calculada em 40.000 moios no começo do século XVIII (Arquivo dos Açores, 1980, I: 499). No geral, só S. Jorge e, sobretudo, o Pico manifestam um estado de carência. Todavia, também na Terceira e no Faial, o provimento do presídio do castelo de S. João Baptista e o socorro do Pico originam um acréscimo de consumo, que reverte em situações de penúria. Os imponderáveis da natureza e os artifícios do comércio geram muitas crises frumentárias, que quase questionam a tradicional reputação da fertilidade. As condições da agricultura motivam a irrupção de carências cerealíferas, que acrescem no decurso de Setecentos. A testemunhá-lo, nas décadas de 1740, 1750 e 1760 ocorrem ao menos por 25, 29 e 34 vezes respectivamente (Meneses, 1995: 40). De maior consideração, ressaltam as esterilidades do termo do decénio de cinquenta, que grassam sobretudo no grupo central. Aliás, na Primavera de 1757, a penúria provoca um motim em Angra, que suscita a repressão pombalina (Meneses, 1995). A tendência depressiva persiste na sucessão do tempo, culminando até em grave crise na era de oitenta, que origina o aumento da emigração e a quebra da população. As ambições do ganho também condicionam o abastecimento cerealífero. De facto, as principais perturbações eclodem no segundo semestre de cada ano, movidas pelo calendário agrícola, mas acima de tudo pelo ritmo da extracção. Na verdade, ressaltam as privações dos meses de Agosto, Setembro e Outubro, que precedem a apanha do milho, de importância capital na alimentação das gentes. Contudo, as reclamações populares prosseguem até ao mês de Dezembro, porque a arrecadação das colheitas, o estado do tempo e a demanda exterior encorajam as saídas; no começo da Primavera, ressurgem as complicações, muito determinadas pelas expectativas de lucro de proprietários e comerciantes, que coincidem com o esgotamento de todas as reservas. À data da instituição da Capitania Geral, em 1766, o novo governador reconhece o paradoxo açoriano, resultante da coexistência da tradicional fertilidade dos campos com a habitual escassez de cereais (O Códice 529: 55). Por isso, logo em 1767, estabelece nas cidades de Angra e de Ponta Delgada celeiros públicos, que superintendem a arrecadação e a venda das gramíneas, no intuito da consecução do sustento das populações. No entanto, proprietários e comerciantes contestam o controlo oficial, que lhes reduz a margem de lucro, e entravam o fornecimento dos terreiros, suscitando o incentivo do contrabando, apesar da denúncia dos populares. Nestas circunstâncias, a desistência da instalação dos celeiros previstos para as principais vilas das ilhas de Santa Maria, Graciosa, S. Jorge e Faial equivale ao reconhecimento do inêxito da política de regulação do mercado, que permanece sempre muito sensível ao carácter da natureza e à vontade dos homens (O Códice 529: 56). O propósito da garantia da subsistência move o incremento da produção de leguminosas, que assegura a provisão dos povos na ocorrência de crises cerealíferas. Porém, nas parcelas insulares de menores recursos, designadamente no Faial, no Pico, nas Flores e em S. Jorge, é o inhame “que servia muitas vezes de passadio a mayor parte do anno aos agricultores” (BPARH, ACH, Livro de Registo [1751-1770], fl. 167 v, carta da câmara ao provedor da fazenda real, Horta, 16.9.1760).

O vinho e a aguardente.

A exploração de novos solos acresce a colheita e melhora a qualidade do vinho, que reverte de mantimento em mercadoria, na sequência da conquista de mercados coloniais. O enchimento do arquipélago motiva a expansão da arroteia em ilhas periféricas, que demonstram características naturais mais propícias à aclimatação e ao desenvolvimento das videiras. De facto, a lava vulcânica quase intratável, que por séculos atrasa a humanização da paisagem, revela uma grande capacidade de produção vinícola, também assinalada pela obtenção da excelência. A comprová-lo, atentemos no caso do Pico, cuja colonização evidencia uma considerável delonga, muito determinada pela fragosidade dos terrenos. Porém, a difusão das vides inverte a lentidão do arroteamento, pois ressalta a utilidade dos lajidos, que redundam em fonte de riqueza. Todavia, no grupo central, o alargamento dos vinhedos ocorre também em S. Jorge e na Graciosa, atingindo ainda o Faial e a Terceira, talvez em época mais tardia e com resultados menos auspiciosos: na Terceira, nas centúrias de Setecentos e de Oitocentos, a exte