Dorsal Média Atlântica
(nos Açores) O oceano Atlântico caracteriza-se por uma quase inexistência de margens activas; por este motivo, a Dorsal Média Atlântica situa-se em posição axial, apresentando traçado sensivelmente paralelo às costas das Américas, Europa e África, e estendendo-se desde o Ártico até o Antártico. Este paralelismo da crista é conseguido através de variações ligeiras na orientação dos segmentos e de saltos direitos ou esquerdos nas múltiplas zonas de fracturas transformantes que a intersectam.
Na região dos Açores e para sul até 35º N a dorsal encontra-se fortemente segmentada, apresentando numerosos troços curtos separados por falhas transformantes, ao longo das quais se verificam saltos dextrógiros. Estes desvios progressivos da dorsal estão certamente relacionados com a presença da Zona de Falha Açores-Gibraltar a oriente.
A morfologia da dorsal varia ao longo da sua extensão. Um vale central (rifte), bem desenvolvido, encontra-se quase sempre presente, sendo excepção as regiões da Islândia e dos Açores. Aqui, entre as latitudes 37º e 40º N existe uma importante anomalia batimétrica. O relevo da crista média expande-se para leste, a Plataforma dos Açores, enquanto que o vale do rifte perde a sua expressão morfológica tornando-se difícil de identificar apenas com base na batimetria.
Vários autores se debruçaram sobre a batimetria da região do arquipélago (entre outros, Laughton e Whitmarsh, 1974; Searle 1980). Um trabalho recente (Lourenço et al., 1996) faz a síntese da informação batimétrica disponível mais relevante sob a forma de uma carta batimétrica representando a região compreendida entre as latitudes 36º e 41º N e as longitudes 24º e 32º W.
Entre as latitudes 41º e 37º N o vale do rifte encontra-se dividido em 7 segmentos com dimensões e orientações variáveis. Na latitude 40º 40 N a crista sofre um ressalto dextrógiro de cerca de 23 km na zona de falha transformante Kurchatov; para norte, o vale do rifte tem orientação N 5º E e 18 km de largura; para sul estende-se um segmento com 118 km de extensão, orientado a N 10º E, e apresentando largura entre 13 e 17 km. Aos 39º 25 N, a latitude da ilha das Flores, a crista é atravessada pela Zona de Falha Norte dos Açores (Searle, 1980), apresentando um salto direito de 17 km. Para sul desta transformante o vale do rifte perde progressivamente definição. Até aos 38º 30 N, latitude do Faial e Pico, o vale do rifte é contínuo ao longo de 97 km, mas a sua largura diminui considerávelmente para 6-7 km; entre a Zona de Falha Norte dos Açores e a latitude 39º N o rifte parece ser acompanhado por outro vale paralelo cerca de 10 km a leste, o qual termina a sul contra uma elevação submarina (o pesqueiro Gigante, com topo a 144 m de profundidade). Na mesma latitude verifica-se uma inflexão da direcção do vale do rifte que, para sul, se orienta a N 20º E.
Para sul de 38º 30 N os segmentos de rifte tornam-se mais curtos e apresentam direcções mais afastadas de N-S: entre 38º 30 N e 38º 20 N existe um troço com apenas 13 km de comprimento, 7,5 km de largura e orientação N 30º E, apresentando o eixo do vale desviado cerca de 2 km para oeste; segue-se-lhe outro segmento de rifte com a mesma orientação e largura, embora um pouco mais extenso (33 km); estes dois segmentos, separados por um vale transversal, encontram-se alinhados, não existindo nenhum ressalto referênciável na escala da carta batimétrica disponível.
Aos 38º N existe um vale transversal importante que parece provocar um salto dextrógiro de 52 km no vale do rifte. Contudo, a localização do eixo da dorsal, a sul daquela transformante, é duvidosa; aquele segmento de rifte orienta-se, provavelmente, segundo N 25º E, tem 12 km de largura e 33 km de extensão, terminando na latitude 37º 40 N contra outro vale transversal. Nesta transformante o vale do rifte sofre um desvio direito de 17 km. O troço seguinte tem 35 a 40 km de extensão, 9 km de largura e orientação N 25º E, terminando na latitude 37º N contra um vale transversal que se encontra aproximadamente alinhado com a Zona de Falha Leste dos Açores.
Todos os vales transversais ao rifte, expressão morfológica das falhas transformantes, apresentam direcção E-W ou muito próxima. Isto deve significar que a expansão dos fundos oceânicos se faz na direcção E-W, sendo, portanto, oblíqua aos troços de rifte e paralela à direcção das transformantes.
No cruzamento do rifte com os vales de transformante encontram-se as maiores profundidades da crista média. Assim, nas transformantes dos 40º 40 N, 38º 20 N e 38º 00 N as profundidades ultrapassam os 2.800 m. Nas restantes intersecções as profundidades são menores, oscilando entre os 2.000 e os 2.400 m.
Um levantamento aeromagnético da região dos Açores permitiu a Luís et al. (1994) definir a localização do eixo da Dorsal Média Atlântica entre as latitudes 40º 20 N e 37º 30 N, através da identificação da anomalia positiva central. Na área estudada aqueles autores definem seis segmentos da CMA, separados por descontinuidades (cf. Fig. 1).
O limite norte situa-se junto da transformante Kurchatov, sensivelmente na latitude 40º 30 N. Para sul a anomalia central estende-se por cerca de 110 km com traçado rectilíneo e orientação N 7º E; no extremo sul deste troço, localizado em 39º 30 N, 29º 40 W a anomalia sofre um desvio dextrógiro de 20 km. Esta localização corresponde à intersecção com a Zona de Falha Norte dos Açores. Contudo, com base na variação da intensidade da magnetização ao longo da anomalia central, consideram a existência de uma descontinuidade na latitude 40º 02 N, marcada por uma intensidade mais elevada, que os leva a dividir este troço em dois segmentos (Aç1- Açores 1 e Aç2- Açores2).
Entre 39º 30 N e 38º 23 N a anomalia central apresenta orientação média N 17º E ao longo de 110 km. Um estreitamento da largura da anomalia central na latitude 38º 55 N leva os autores citados a considerar a existência de uma descontinuidade; definem, assim, outros dois segmentos (Aç3 e Aç4) com comprimentos sensivelmente iguais e pequenas diferenças de orientação, N 14º E a norte e N 25º E a sul. Aquela descontinuidade é atribuída a uma transformante, a Zona de Fractura do Faial.
Na latitude 38º 23 N a anomalia central sofre novo desvio direito de 30 km, existindo uma sobreposição longitudinal (overlap) de 10 km entre os segmentos Aç4 e Aç5. A separar aqueles dois segmentos existe uma transformante que desloca as anomalias magnéticas até à anomalia 4 (7Ma), a que atribuem o nome de Zona de Falha Açor.
O segmento Aç5, orientado N 24º E, estende-se por 55 km até à latitude 38º 00 N onde a anomalia central sofre um salto de 57 km para oeste ao longo de uma transformante a que foi dado o nome de Zona de Falha Princesa Alice. Também este troço da anomalia central apresenta uma descontinuidade marcada (mais óbvia que as referidas anteriormente para os pares Aç1-Aç2 e Aç3-Aç4) aos 38º 16 N; contudo Luís et al. (1994) optam por considerar um segmento único.
O segmento meridional, Aç6, com orientação média N22ºE, estende-se até à latitude 37º 30 N, onde é interrompido pela Zona de Falha do Pico; apresenta um traçado muito semelhante ao do segmento que lhe fica a norte pois exibe igualmente uma descontinuidade nítida, marcada por uma curvatura à latitude 37º 50 N.
A Crista Média encontra-se separada dos relevos que se estendem para SW da Graciosa (S. Jorge, Faial, Banco Açor, Banco Princesa Alice e crista a WSW) por uma área deprimida onde os fundos se encontram a profundidades superiores a 1.800 m.
Do lado ocidental da Crista Média existe um conjunto de altos fundos com profundidades inferiores a 1.400 m separados dos relevos da dorsal por uma área deprimida onde as profundidades ultrapassam geralmente os 1.800 m. José Madeira (Ago.2002)
Bibl. Laughton, A. S. e Whitmarsh, R. B. (1974), The Azores-Gibraltar plate boundary In L. Kristjansson (ed.), Geodynamics of Iceland and the North Atlantic Area. Dordrecht, D. Reidel Publ. Co.: 63-81. Lourenço, N., Luís, J. F. e Miranda, M. (1996), Azores triple junction bathymetry. Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa e Universidade do Algarve (Projecto MARFLUX/ATJ), 1 mapa. Luís, J. F., Miranda, J. M., Galdeano, A., Patriat, P., Rossignol, J. C. e Mendes-Victor, L. A. (1994), The Azores triple junction evolution since 10 Ma from an aeromagnetic survey of the Mid-Atlantic Ridge. Earth and Planetary Science Letters, 125: 439-459. Searle, R. (1980), Tectonic pattern of the
