Dighton, pedra de

Pedra no rio Taunton, Massachusetts, EUA, com inscrições remontando pelo menos ao século XVII, (a primeira tentativa de reproduzi-las data de 1680), objecto de prolongadas controvérsias devido a vários grupos étnicos reclamarem para antepassados seus a autoria das mesmas. Na década de 1920, Edmund Delabarre, Professor de Psicologia na Brown University, Providence, Rhode Island, propôs a leitura do nome de Miguel Côrte-Real e do ano de 1511. Acreditou também ver na pedra um desenho do escudo português. A sua teoria nunca foi aceite pelos historiadores e especialistas portugueses, que nela apontaram várias falhas. Tal não impediu que na comunidade portuguesa dos Estados Unidos a pedra se transformasse em símbolo identitário, de algum modo legitimador da presença lusa no país americano. José Dâmaso Fragoso, micaelense, Leitor na Universidade de Nova York, fez-se continuador de Delabarre, propondo também a teoria da existência na pedra de uma Cruz de Cristo. Fragoso manteve acesa a chama do entusiasmo à volta da teoria portuguesa sugerindo a criação de um parque e fundando uma associação intitulada Miguel Corte Real Memorial Society, que em 1952 adquiriu os terrenos em torno da área onde se localizava a dita pedra. Por intervenção do político luso-americano Edmundo Diniz, desencadeou-se um processo que levaria mais tarde à retirada da pedra para terra firme (as marés cobriam-na parcialmente). Em 1973, foi construído um pavilhão contendo o Museu da Pedra de Dighton, precisamente em Dighton, Massachusetts, inserido num parque estadual. No museu estão expostas, em perfeita paridade, as diversas teorias sobre as polémicas inscrições. A partir dos anos sessenta, quem assume o papel de propagandista da teoria da origem portuguesa das inscrições é o médico Manuel Luciano da Silva, natural de Vale de Cambra, distrito de Aveiro, e residente em Bristol, Rhode Island. Luciano da Silva publicou um livro em duas edições, inglesa e portuguesa, defendendo acerrimamente a teoria portuguesa e acrescentando-lhe a possível identificação na pedra de mais duas cruzes de Cristo. Ao longo dos anos tem feito inúmeras intervenções públicas em organizações diversas, sobretudo comunitárias, lançando-se frequentemente em invectivas contra os historiadores americanos e portugueses por não aceitarem a teoria em causa. As publicações que dão acolhimento à sua proposta pertencem ao sector não especializado – revistas de grande público e jornais. Os historiadores, tanto portugueses como americanos, continuam sem lhe achar mérito científico. Onésimo Teotónio Almeida (2003)

Bibl. Delabarre, E. B. (1928), Dighton Rock. A Study of the Written Rocks of New England. New York, Walter Neale. Silva, M. L. (1974), Os Pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton. Bristol, Rhode Island, Edição do Autor. Albuquerque, Luís de (1987), Navegadores Viajantes e Aventureiros Portugueses. Sécs. XV e XVI. Lisboa, Círculo de Leitores.