Dias, Gaspar

 [N. ? – m. Ponta Delgada, 11.9.1623] Filho de Manuel Dias, mercador, e de Margarida Fernandes, «não herdando bems, que fossem, nem uiessem de seus Pays» (Chagas 1989: 211), Gaspar Dias enriqueceu pelo comércio e adquiriu propriedades em S. Miguel, onde se fixou. Abandonando o modo de vida mercantil, contraiu matrimónio com Ana de Medeiros, filha de Miguel Lopes de Araújo e neta de Lopo Anes de Araújo, «dos principais de Viana, donde era natural, e o mesmo foi nesta ilha.» (Frutuoso, 1977, I: 301) Ligado assim pelo casamento a uma das principais famílias da ilha, Gaspar Dias iniciou a sua ascensão social. Em 1589-1590, foi escrivão da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada e, em 1604, pelo menos, já era citado como sendo “cidadão” de Ponta Delgada. Foi por diversas vezes eleito para a câmara desta cidade e também para provedor da Misericórdia. Em 1606, o nome de Gaspar Dias e o de alguns dos seus filhos surgiram a integrar uma lista dos cristãos-novos de S. Miguel. Gaspar Dias conseguiu ficar isento do pagamento da finta, que incidia sobre os rendimentos da “gente de nação”, mas os filhos e os netos tiveram de enfrentar, ao longo do século XVII, acusações relativas à sua ascendência manchada de sangue judeu. Todavia, os descendentes de Gaspar Dias conseguiram alcançar uma posição e, inclusive, uma proximidade do poder régio que lhes permitiu obter diversos alvarás de confirmação da sua honra e limpeza de sangue. É muito provável que as suspeitas e acusações lançadas sobre os Dias Medeiros Araújo, os Borges de Sousa e outros troncos da descendência de Gaspar Dias resultasse da constatação, por parte de outras famílias, da sua rápida promoção ao grupo da elite urbana. Por instrumento de doação de terças ao filho André Dias de Araújo, de 14.06.1604, e por testamento comum, de 1623, Gaspar Dias e sua mulher instituíram três vínculos (morgadios), defendendo desse modo os alicerces materiais da reprodução social da família. Na geração dos herdeiros de Gaspar Dias, dois filhos serviram como vereadores do senado de Ponta Delgada e o genro do patriarca, Pedro Borges de Sousa, casado com Maria de Medeiros, foi igualmente vereador. No nível geracional seguinte, o controlo camarário alargar-se-ia, em termos de presenças. Os diversos troncos que saíram dos matrimónios dos filhos de Gaspar Dias conseguiram adquirir uma força considerável que os projectaria como um dos grupos familiares dominantes de Ponta Delgada e da ilha de S. Miguel nos séculos posteriores, culminando esse movimento com a atribuição, no século XIX, dos títulos de visconde da Praia e, depois, de conde e marquês da Praia e Monforte ao cabeça de um dos ramos. José Damião Rodrigues (Jul.2002)

Bibl. Câmara, J. A. B. (1995 [1997]), Instituições Vinculares e Notas Genealógicas. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. Angra do Heroísmo/Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Universidade dos Açores. Coutinho, M. A. M. G. B. (1989), Cristãos-novos nos Açores. O caso de Gaspar Dias. In Os Açores e as Dinâmicas do Atlântico. Do Descobrimento à II Guerra Mundial, Actas do II Colóquio Internacional Os Açores e o Atlântico, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira: 625-664. Frutuoso, G. (1977-1987), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 3 vols. Rodrigues, J. D. (1994), Poder Municipal e Oligarquias Urbanas: Ponta Delgada no Século XVII. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Rodrigues, R. (1998), Genealogias das ilhas de S. Miguel e Santa Maria. Ponta Delgada, Sociedade Afonso Chaves, I.