Desporto
A história do desporto nos Açores tem as suas raízes em formas de jogo introduzidas pelos povoadores, cujas descrições e implantação são referidas por Gaspar Frutuoso. O sentido original destas práticas decorre do conceito de ócio, em oposição ao tempo e à actividade de trabalho. Concilia a necessidade de distracção/evasão com o apelo íntimo à afirmação individual. Estes jogos são inspirados em actividades do quotidiano (gestos e materiais), do amanho da terra, da relação com os animais, do confronto com circunstâncias da natureza. O adestramento para a defesa contra os invasores constituiu motivo para o exercício da estúcia sob a forma de jogos de luta e de perícias diversas. Esta matriz genética do desporto conheceu sucessivas adaptações e variantes, acedendo à categoria de cultura popular, sob a designação comum de jogos tradicionais (ou populares). Nestes, a cultura lúdica típica da criança acolhe experiências de crescimento claramente específicas, de imitação, de destreza e de socialização (em jogos informais, jogos sazonais e até brinquedos tradicionais).
O homo ludens exprime, ao longo dos tempos, um quadro evolutivo de tipos de atitude e de actividades de lazer. Na adopção de um estilo de vida dito saudável (os passeios higiénicos, o bordejar à vela ou a remos, os banhos de mar). Na procura do convívio (as reuniões sociais com jogos de croquet, os festivais náuticos, as competições seguidas de festas de dança, os torneios de jogo de malha ou chinquilho em locais comunitários dos meios rurais, as excursões e piqueniques integrando actividades atléticas). No perfilhar de comportamentos de carácter identitário e associativo (os grupos pioneiros na prática de determinado desporto, as agremiações desportivas de estrato social, de localidade, de filiação institucional ou de laço tradicional aleatório). Na atracção pela natureza mobilizadora do lazer activo de superação ou fruição (o apelo do mar e de outros elementos naturais, a caça, a pesca, a demanda de sítios aprazíveis).
Embora não se conheçam fontes documentais organizadas, os testemunhos orais e o recurso à imprensa de determinadas épocas permitem alinhar indicadores sobre o sentido e a expressão de desenvolvimento da prática desportiva. No entanto, o desporto carece de uma historiografia que penetre as suas dimensões antropológica, socio-económica e cultural. Os seus factos próprios acolhem analogias com a evolução das condições de vida no arquipélago, remetem para os discursos sobre a insularidade e identificam, inequivocamente, as profundas distinções entre os dois tempos históricos balizados pelo regime autonómico.
Na segunda metade do século XIX e inícios do século XX, o desporto foi introduzido no âmbito de grémios de reflexão política e literária, como elemento integrado no pensamento positivista. Os exercícios físicos nas correntes de ginástica e nas práticas de combate (em especial a esgrima) eram veículos da atenção sobre o corpo, cuja exercitação conduzia ao complemento de formação do espírito (saúde e disciplina de hábitos). Este movimento e a sua continuação deve-se à influência de pessoas que tinham vivido noutros meios, famílias estrangeiras radicadas nos Açores, deportados políticos, funcionários de empresas internacionais (como os cabos submarinos) e militares (em navios de passagem ou unidades sediadas em algumas ilhas).
O desporto evolui, assim, nas suas origens e implantação, como um processo das elites, em que as classes sociais abastadas têm acesso aos espaços de convívio onde se realiza a sua prática (quase exclusivamente nas ilhas com relevância político-administrativa). O poder económico garante a possibilidade de aquisição de equipamentos desportivos. Nos meios urbanos (as cidades e progressivamente as vilas) as zonas de pobreza distinguem-se também pela dificuldade de acesso ao desporto, autêntico factor de promoção social. Os meios rurais (o campo, as freguesias) têm no desporto mais um reflexo dos seus atrasos. As elites sociais utilizam o espírito desportivo para afirmar o pendor aristocrático de costumes, de regras e de valores de classe.
O clube desportivo é um fenómeno social do século XX. Corresponde a movimentos e vontades diversas, traduz um novo centro de aproximação cívica e de identidade comunitária. Na sua génese e no seu dirigismo aparecem figuras de relevo social, profissional ou político. Na sua actividade prevalece o eclectismo, convivendo o desporto com projectos de outros âmbitos culturais (música, teatro, dança).
Merece relevo particular o associativismo desenvolvido pelos clubes náuticos. Aqui se cruzam objectivos de grande convivência, de alto valor formativo, de intensa dimensão lúdica e experiência competitiva "saudável". O espaço social destes clubes afirmou-se progressivamente com solidez organizativa, passando-se do tempo em que as embarcações pertenciam aos desportistas à normalidade de frotas próprias, ao aumento de associados de todas as idades, à diversificação de práticas náuticas, à proliferação de novos clubes em várias ilhas, à evolução das regatas do próprio clube para as provas de âmbito regional e nacional, atingindo-se a fase internacional do iatismo.
O associativismo desportivo na primeira metade do século XX tem, portanto, uma implantação consentânea com os níveis de desenvolvimento das sociedades açorianas. É um meio de afirmação e sobretudo de integração social. Por um lado, encontram-se clubes formados por pessoas que se juntam para praticarem um novo desporto introduzido na ilha ou desportos só acessíveis a estratos sociais elevados. O desporto "feminino" açoriano curiosamente conhece relevância no contexto nacional, devido às influências estrangeiras nos Açores (apenas nas primeiras décadas do século XX). Por outro lado, é possível distinguir a origem sociológica dos desportistas dos clubes, quer nas cidades, quer entre estas e o campo. O desporto funcionou como meio de compensação para as diferenças das realidades do quotidiano, que se vão diluindo na sua prática (regras e indumentária).
Da dinâmica do associativismo desportivo decorre naturalmente a vontade de afirmação do agonismo que lhe é típico, nos desígnios da superação de performances e no confronto das identidades clubistas. A organização de competições inicia-se de modo informal e depois através da criação de estruturas de coordenação (as associações), generalistas ou por modalidades desportivas, ao nível de ilha ou de distrito. O desejo e a necessidade de alargar o movimento desportivo inter-ilhas e com o Continente era dificultado pela escassez de transportes. A primeira competição deste tipo nos Açores (futebol) realizou-se em 1913 e entre clubes açorianos e da Madeira em 1925. O primeiro torneio para aceder a uma competição nacional (a taça de Portugal) teve lugar apenas na época desportiva de 1935-1936. As provas vão acontecendo de modo irregular, à excepção dos campeonatos ao nível de ilha. São também organizadas excursões a outras ilhas por convite de clubes em ocasiões da comemoração de efemérides ou de festividades tradicionais, cujos programas incluem competições desportivas. O alargamento a outros desportos é realizado com dificuldade e só conhece expressão assinalável a partir da década de 50 do século XX. Os primeiros jogos desportivos açorianos, em várias modalidades desportivas, realizam-se nesta altura, incluindo atletismo, basquetebol, futebol e hóquei em patins.
O aparecimento de clubes desportivos é muito diferenciado. Se nas ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial ocorre desde os primórdios do século XX (mesmo nas últimas décadas do século anterior), contudo, só nos anos vinte aparece o primeiro clube no Pico e na Graciosa, em Santa Maria nos anos quarenta e nas Flores e S. Jorge na década de sessenta. O Corvo não atingiu as condições para a formação de centros de prática desportiva, mas tem uma história rica de práticas lúdicas, com os seus ritos de passagem e de celebração de cerimónias periódicas.
O movimento desportivo nos Açores, até à década de 40 do século XX, foi essencialmente determinado por iniciativa dos próprios cidadãos, portanto com uma marcada expressão cívica. As influências institucionais só aparecem a partir desta altura. O Estado pelo Ministério da Educação Nacional (Direcção Geral dos Desportos) teve uma intervenção muito discreta cujo delegado não dispunha nem de competências, nem de meios influentes (embora fosse chamado a cumprir medidas de controlo administrativo e político sobre os clubes e as associações). Diferente foi o papel do Ministério das Corporações através da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), título sugestivo para um projecto político em que o desporto, conjuntamente com outras actividades de vocação recreativa e cultural, era promovido através de Casas do Povo, Centros de Recreio Popular e Sindicatos. Deste modo, o desporto alargou a base social da sua prática, em particular nos meios rurais.
Na mesma época foi introduzida uma atenção especial junto da juventude. A Mocidade Portuguesa em estreita ligação com escolas, e maior incidência nos liceus, consagrou, no seu ideário, um lugar destacado à prática desportiva (com reflexos notórios apenas para os jovens do sexo masculino).
Os liceus históricos, não só por força daquela estrutura mas, essencialmente, pela forte influência como centros de cultura e pela ligação estreita com a comunidade, desempenharam uma acção decisiva na generalização dos desportos e na introdução de alguns nos Açores. Da aprendizagem que proporcionavam as aulas de Educação Física, dos convívios desportivos nas actividades circum-escolares e, principalmente, da emergência de identificações afectivas, resultaram efeitos benéficos para a prática desportiva associativa. Através dos liceus foram conseguidas iniciativas de intercâmbio contra o isolamento provocado pela descontinuidade geográfica, com excursões inter-ilhas em que o desporto marcava um dos elementos mobilizadores. A importância destas iniciativas, bem sentida pelos Reitores, conduziu à aprovação de uma Associação Desportiva Inter-Ilhas Açorianas (anterior à Mocidade Portuguesa).
Ainda, ao nível institucional, raramente é valorizada a acção das estruturas da Igreja Católica, quer de formação de padres, quer de mobilização comunitária, em que o desporto era incluído como meio de reforço dos princípios morais preconizados e como forma de ocupação distracção, procurando desviar, principalmente os jovens, de tentações pecaminosas. Regista-se a atenção especial dada ao Voleibol, porque era jogado em pequenos espaços, sem contacto físico e normalmente sem necessidade dos praticantes se despirem. Em consequência desta orientação os padres foram grandes divulgadores daquele desporto nos meios rurais, onde teve grande expressão.
Uma característica fundamental das primeiras fases do desporto nos Açores, significativa até à década de 60, é a grande atenção à ética desportiva. Pelo desporto passava uma forte componente de valores que se pretendiam transferíveis para o exercício da cidadania. Por um lado, existia uma cultura de fair-play, o cavalheirismo desportivo das influências anglo saxónicas. Por outro lado, no clube desportivo verificava-se uma verdadeira pedagogia dos comportamentos consentâneos com o espírito desportivo, exercida pelos próprios dirigentes. É muito importante constatar que essa pedagogia da moral desportiva encontrava eco nos órgãos da imprensa, cujos articulistas se ocupavam da sua apologia. Os jornais foram espaços de divulgação de um ideal desportivo centrado na valorização do homem, no respeito mútuo e no sentido de empenhamento e dedicação. Mais uma vez, a primeira metade do século XX é determinante com a presença de jornais essencialmente dedicados ao desporto, sinal do dinamismo da prática desportiva mas, especialmente, da existência de personalidades entusiastas pela causa (dimensão aceite para o desporto). Refiram-se os jornais Açores Desportivo e Gazeta (Ponta Delgada), O Atleta e Ala Desportiva (Angra do Heroísmo) e A Horta Desportiva (Horta).
Com a implantação da Região Autónoma dos Açores, mercê das características do novo estatuto político-administrativo e das virtualidades do regime democrático, bem como, posteriormente, das vantagens económicas da integração de Portugal na União Europeia, o desporto acompanhou todas as consequências emergentes. O discurso político, nas diferentes vertentes ideológicas, ocupa-se do desporto; o poder político investe no desporto, quer o governo regional (que consagra uma estrutura administrativa especializada nesta área, com delegações em todas as ilhas), quer, de modo crescente os poderes locais (câmaras municipais e juntas de freguesia); as populações reclamam os equipamentos e a prática desportiva como direito a incluir nas novas condições de vida; a generalização do desporto reflecte-se e beneficia das profundas alterações do sistema educativo; o movimento associativo (clubes e associações) conhece grandes alterações primeiro, no nivelamento das barreiras sociais de acesso à prática desportiva, depois, na mudança do estilo de gestão, com objectivos de protagonismo de curto prazo e com investimentos ambiciosos. Aumentam os clubes, de desporto único ou de concentração prioritária, na maioria das ilhas, em novas localidades (mesmo sem tradições desportivas), consequência de lideranças políticas ou económicas. A FNAT transforma-se em Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), prossegue a sua missão histórica e continua na dependência directa de Lisboa. O profissionalismo desportivo instala-se. O poder do dinheiro dita orientações desportivas. O intercâmbio conhece um desenvolvimento espectacular, pela melhoria das condições de viajar (aeródromos em todas as ilhas). As competições abrangem grande número de desportos e de níveis etários. A qualidade da prática desportiva evoluiu de forma assinalável (devido às novas instalações, aos técnicos vindos do exterior e à importação de jogadores). O desporto feminino conhece um incremento muito expressivo. A participação em competições no Continente ganha relevância (em vários desportos) e até em termos internacionais (caso do desporto em idade escolar). A filiação identitária perde preponderância. O fenómeno desportivo passa a pautar-se pelos modelos dos novos tempos, com a consequente mobilização de verbas avultadas, dos fundos públicos aos patrocínios comerciais. O desporto nos Açores desenvolveu-se inequivocamente no quadro da trilogia das práticas, dos consumos e das representações. Acedeu ao estatuto de sub-sistema da sociedade e das suas estruturas de poder. No plano das pessoas, nos mentores do pensamento desportivo e no próprio indivíduo, emerge timidamente o sentimento de necessidade de novas reflexões sobre a cultura desportiva.
A existir fundamento para a aproximação antropológica que permita admitir no Homem Açoriano uma açorianidade desportiva (à semelhança da açorianidade literária), a pesquisa deve convergir no conceito popular de avantage. Nele interagem a disposição para o feito excepcional e a aspiração a uma certa categoria de transcendência. Implica a natureza do desafio, originariamente ligado às contingências do mar e aos limites que impõe, como, também, o sentido do mesmo desafio, no grito contra a insularidade e no desejo de a vencer, pelo facto glorioso. Trata-se de um campo fenomenal distinto, embora próximo, do herói grego ou do herói desportivo da actualidade (autor do record ou da prestação notável e efémera). Na avantage está presente o homem total na sua circunstância histórica, essencialmente telúrica.
Este tipo de comportamento observa-se em todas as ilhas dos Açores, na criança e no adulto. Sobre ele, autêntica atitude insular, podem coleccionar-se provas, tais como, a travessia do canal Faial-Pico a nado, o percurso em barco a remos entre S. Miguel e Terceira, as proezas de pesca e o imaginário aventureiro das touradas à corda e da caça à baleia. Tipicamente açorianas são as provas desportivas em canoas baleeiras que mantêm (em vela e remo) esse imaginário, curiosamente, projectado, também, na designação de aventureiros atribuída aos iates que demandam os Açores vindos de outros países. O triatlo do Peter ligando as ilhas do triângulo (S. Jorge, Pico e Faial) evoca, ainda, este espírito de aventura. Henrique Melo Barreiros (Jul.2003)
