descobrimento dos Açores
Para elaborar uma síntese sobre a problemática do descobrimento das ilhas hoje chamadas dos Açores convém começar por nos interrogarmos desde quando a Europa tem conhecimento da existência dessas ilhas no Atlântico norte e desde quando, tendo conhecimento delas, conseguiu meios técnicos suficientemente eficazes para as poder localizar com precisão e frequentá-las com segurança.
Começou por haver a ideia de tais ilhas teriam sido do conhecimento europeu desde a Antiguidade e os defensores desta tese apoiavam-se na interpretação de textos clássicos, identificando as Cassitérides como afinal as ilhas do Atlântico norte, mas não tinham em conta que sendo as Cassitérides produtoras de estanho, esse metal nunca existiu nos Açores. A partir do século XVIII pensou-se mesmo que teria aparecido a prova material dessas navegações da Antiguidade que haviam atingido as ilhas, com o célebre aparecimento de umas moedas fenícias, em 1749, na ilha do Corvo. Mas a crítica histórica não aceita nos nossos dias tais viagens sequer como possíveis e nega a autenticidade dos vestígios materiais, mesmo da estátua do cavaleiro apontando para o poente, que teria sido também encontrada no Corvo e que Damião de Góis regista na sua crónica do Príncipe D. João.
Bem mais complexo é o problema do registo cartográfico de um conjunto de ilhas no Atlântico norte numa série de portulano do século XIV e inícios do século XV essencialmente o de Angelino Dalorto (1325), o de Angelino Dulcert (1339), o portulano Laurenciano (1351), o de Pizzigani (1367), o Atlas Catalão (1375), o Atlas Walckernaer (1384), o mapa de Soleri (1385), o mapa de Viladestes (1413), o portulano Giroldi (1426) e de Beccario (1435).
Nestes portulanos surge, em todos, um número variável de ilhas dispostas no sentido norte sul a cerca de 100 léguas da costa da Península Ibérica, com nomes também variáveis mas mais ou menos fixos que se pretendem identificar com as actuais ilhas do arquipélago açoriano e que juntamente com a descrição feita pelo frade mendicante no seu célebre Libro del conocimiento, um compêndio de geografia e de viagens, imaginárias muitas delas, de cerca de 1345-1348, seriam ambas as provas materiais do conhecimento efectivo dessas ilhas.
Contudo, a crítica histórica tem vindo a lançar sucessivas dúvidas sobre a possibilidade de tais ilhas serem fruto de um reconhecimento geográfico dessa zona do Atlântico, mas antes sim imaginárias. Invocam a sua péssima localização relativamente à realidade, porque os Açores reais não estão na situação norte sul, mas antes nascente poente e ficam entre 200 e 300 léguas da costa e não a 100 léguas. Além disso, invocam a grande improbabilidade de que pudessem ser atingidas com os meios técnicos navais então existentes no século XIV, mas não são unânimes, antes muitos admitem, que não seria impossível que algumas ilhas tivessem sido avistadas nesses recuados tempos em alguma viagem de regresso das Canárias.
O que hoje é aceite, com base em sucessivos estudos sobre a matéria, é que a descoberta efectiva das ilhas ocidentais se fez na sequência dos progressos técnicos e das sucessivas experiências de navegação no Atlântico, possibilitando as rotas de regresso da costa de África pelo largo no mar aproveitando os ventos favoráveis. Apoiam-se esses estudos nos progressos da própria cartografia onde o eco de tais viagens fica registado, principalmente na carta de Bianco, de 1436, onde se assinala o mar da Baga, o actual mar do Sargaço, que era o lugar geográfico a atingir para tomar os ventos favoráveis ao regresso à costa ibérica, situado ao largo dos Açores e na carta de Valsequa, uma carta maiorquina datada de 1439, onde figuram pela primeira vez as ilhas açorianas em posição correcta e com uma célebre legenda que as diz descobertas recentemente, em 1427, pelo piloto do rei de Portugal, Diogo de Silves. Pareciam assim desvendados de uma só vez o nome do descobridor e o ano. Porém, a leitura desta legenda é muito problemática e tem tido sucessivas interpretações, quer no nome do piloto, quer na data.
Afirmam ainda os defensores de uma descoberta real dos Açores só no século XV, pelos marinheiros portugueses, que tendo a cartografia a partir de então continuado a fixar o conjunto das ilhas tiradas dos portulanos do século XIV e agora as realmente existentes e descobertas pelos portugueses no século XV, quer isso dizer que não confundiram umas com as outras e a ambas consideravam existentes e distintas.
Parecia assim tudo esclarecido, mas na verdade a polémica entre ambos os defensores, aqueles que advogam o conhecimento das ilhas por navegadores do século XIV e aqueles outros que entendem que elas só foram conhecidas no século XV pelos marinheiros portugueses, não cessou.
Além disso há ainda que esclarecer pelo menos dois pontos. O primeiro prende-se com o silêncio dos documentos oficiais e crónicas coevas sobre a descoberta das ilhas ocidentais, posteriormente chamadas dos Açores. Tal situação poderia ter a ver com a realidade de um prévio conhecimento das ilhas e consequentemente o aceitar que não teria havido descobrimento mas simplesmente uma ocupação e um acesso garantido pelos novos meios técnicos e progressos náuticos, mas para a outra parte esse silêncio é antes uma medida cautelar de se guardar um segredo de estado importante e uma garantia que o acesso às estratégicas ilhas se faria unicamente pelos portugueses.
O segundo ponto tem a ver com as informações transmitidas por Gaspar Frutuoso na sua crónica e que durante séculos foi tida como a prova do descobrimento do arquipélago em 1432, por Gonçalo Velho Cabral por mandado do Infante D. Henrique. A defesa desta opinião e desta fonte, acaloradamente feita principalmente por historiadores insulares e muitas vezes com argumentos que pouco têm a ver com a história, assenta nas Saudades da Terra e pretende interpretar a legenda do mapa de Valsequa como fixando a data em 1432 e não 1427 e dizendo Gonçalo, e não Diogo, Senill (Velho em latim), e não Silves, ficando assim o referido mapa como uma confirmação da crónica fructuosina.
Em resumo pode-se dizer que abandonada a hipótese de um conhecimento da Antiguidade Clássica das ilhas atlânticas ocidentais, não é de excluir que no século XIV elas tenham sido casualmente avistadas, mas não é provável que correspondam aquelas, essas imaginárias, fixadas nos portulanos. Só com os progressos e conhecimentos técnicos e práticos dos navegadores portugueses foi possível atingir e reconhecer as ilhas agora chamadas dos Açores e isso teria acontecido em 1427 por um piloto chamado Diogo de Silves ou coisa parecida. Pouco tempo depois o Infante D. Henrique decidiu reconhecer melhor as ilhas e ocupá-las, encarregando de tal missão Frei Gonçalo Velho que a iniciou em 1431-1432, sendo essas as viagens que Frutuoso nos transmitiu. Aliás, o que diz as Saudades da Terra, usando descobrir por reconhecer, nesse e noutros casos, é que o Infante mandou às ilhas, que ele já sabia existirem (o que confirma a viagem de Diogo de Silves em 1427), o comendador Gonçalo Velho.
Mas tudo isto se refere aos grupos oriental e central, as sete ilhas dos Açores de que fala a carta régia de 1439, o primeiro documento oficial sobre o arquipélago, porque o grupo ocidental, as Flores e o Corvo, tidas por um arquipélago diverso, as ilhas Floreiras, só foi atingido e descoberto em 1452 por Diogo de Teive, no regresso de uma viagem de exploração do Atlântico na direcção do Ocidente.
Pode-se concluir, que apesar dos progressos científicos e da análise histórica feita em relação aos problemas levantados pela documentação existente sobre o conhecimento das ilhas ocidentais, chamadas a partir do século XV e pelos portugueses, dos Açores, este assunto continua a ter interpretações divergentes e não existe unanimidade nem de datas, nem de nomes, mas é por todos considerado como dos mais importantes feitos dos navegadores henriquinos e de enormes consequências para os progressos do conhecimento do mundo. Ver Açores. História Idade Moderna J. G. Reis Leite (Dez.2003)
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