derrame lávico

Um derrame lávico (o mesmo que escoada lávica) resulta de extrusão lávica de um modo efusivo. A designação é aplicada tanto ao fenómeno activo como ao produto resultante após arrefecimento e solidificação. As características morfológicas e estruturais de um derrame lávico dependem de vários factores, tais como a composição química da lava, o ambiente em que a lava é extruída, a taxa de efusão (volume de lava por unidade de tempo), a temperatura a que a lava é emitida e a topografia sobre a qual a lava se depositou.

A composição química da lava condiciona a sua viscosidade; as lavas mais ricas em sílica (lavas ácidas, > 55% SiO2) contêm compostos silicatados com um grau de polimerização mais elevado, tornando-as mais viscosas, ao contrário das lavas com menor teor em sílica (lavas básicas, < 55% SiO2), que são mais fluidas. A viscosidade condiciona a velocidade de escoamento, e portanto, para taxas de efusão e declives topográficos idênticos, uma lava mais viscosa tende a formar derrames mais espessos e curtos que uma lava básica. Tipicamente os derrames de lavas básicas apresentam extensões até 10 km e espessura média de 3 a 20 m, enquanto que as lavas ácidas raramente ultrapassam 5 km de extensão e têm espessuras que podem variar entre 20 e 300 m.

Nos Açores encontramos duas composições químicas dominantes, lavas basálticas s.l. (básicas) e lavas traquíticas (ácidas). As primeiras, apresentam maior extensão e menor espessura que as segundas, que tendem a formar escoadas curtas e espessas (por vezes designadas como coulées).

O ambiente de deposição, subaéreo (fora de água) ou subaquático (dentro de água ou debaixo de calotes glaciares), tem igualmente um papel importante. As morfologias que se formam nesses dois ambientes são substancialmente diferentes. Os derrames subaquáticos (mais frequentemente submarinos) formam quase sempre escoadas do tipo pillow lavas (ver *almofada, lavas em), formas tubulares sobrepostas e por vezes moldadas umas às outras. Se o declive submerso for muito acentuado, os tubos podem soltar e fragmentar-se, dando origem a acumulações de fragmentos contendo esporadicamente pillows intactas, formando níveis de brechas de pillow lava inclinados. Contudo, se a taxa de efusão for muito elevada, o grande volume de lava impede que se criem as formas tubulares, gerando-se derrames com continuidade lateral muito semelhantes aos que se formam fora de água. Em ambiente subaéreo, os derrames básicos tendem a apresentar dois tipos de morfologia mais comuns: os *derrames aa e os *derrames pahoehoe, designações de origem havaiana. Os derrames do tipo pahoehoe são geralmente formados por acumulações de extrusões de lava de espessura reduzida (em geral < 1 m), apresentando superfície suave (lisa, enrugada, encordoada ou formando línguas alongadas) que se sobrepõem umas às outras no decurso da erupção. Os derrames com esta estrutura estão normalmente relacionados com taxas de efusão reduzidas. As diferentes morfologias da superfície da lava dão origem a designações mais ou menos expressivas como lava em tripas, encordoada, em pasta de dentes ou em placas. As escoadas com estrutura aa correspondem a derrames geralmente mais espessos (> 10 m), envolvidos numa capa escoriácea ou brechóide, formados durante fases de efusão volumosa. Os materiais brechóides que as envolvem resultam da fragmentação da crosta exterior arrefecida, pois a elevada velocidade de fluxo da lava deforma o material mais externo que apresenta maior viscosidade devido à menor temperatura. Os fragmentos escoriáceos, assim formados à superfície da escoada, vão caindo à sua frente e sendo cobertos pelo avanço da lava, criando-se uma capa brechóide que envolve totalmente o interior maciço do derrame. Note-se que as acumulações de material fragmentado que se formam no bordo do derrame acabem por funcionar frequentemente como represas laterais (levées) que confinam lateralmente a escoada, originando um processo de auto-represamento. As levées fazem com que este tipo de escoada apresente canais lávicos bem definidos que dirigem a lava para uma frente única. Ao fim de algum tempo, a superfície superior da lava que corre no interior do canal pode solidificar, criando-se um tubo de lava. Os tubos de lava permitem que a lava seja conduzida até à frente da escoada, por longas distâncias, sem que ocorram perdas de calor significativas para o exterior, em resultado da fraca condutividade térmica da rocha. Uma vez terminado o fornecimento de lava a um tubo, este pode ser parcialmente esvaziado, por condução da lava líquida existente no seu interior até à frente do derrame, formando-se uma gruta vulcânica.

Numa mesma erupção, sem que ocorram variações na composição química da lava, podem formar-se derrames com características pahoehoe e aa. Em geral os primeiros resultam da elevada taxa de efusão dominante na fase inicial das erupções enquanto que os segundos se formam geralmente numa fase posterior em que o volume de lava emitido é já reduzido. Também a variação súbita de declive pode também originar a passagem de um derrame com morfologia pahoehoe para aa e vice-versa, em resultado de variações da velocidade de fluxo da lava.

Os derrames de lavas ácidas apresentam geralmente uma morfologia do tipo aa ou em blocos (blocky lava) em que a cobertura brechóide é constituída por fragmentos lávicos de forma irregular, muito espinhosos, ou apresentando faces lisas, respectivamente.

Nos Açores a grande maioria dos derrames lávicos expostos são derrames basálticos com morfologia aa ou pahoehoe, emitidos no decurso de erupções havaiano-estrombolianas a partir de cones de escórias monogenéticos (Complexo dos Picos de S. Miguel, região leste do Pico. Zona do Capelo no Faial, etc.) ou durante as fases iniciais de vulcão escudo dos grandes edifícios vulcânicos do tipo central. Os derrames de lavas ácidas encontram-se melhor representados na ilha Terceira, onde se encontram numerosos e belos exemplos de espessas escoadas traquíticas e coulées, e em S. Miguel. Os derrames de lavas em almofada têm grande expressão em Santa Maria, cuja sequência estratigráfica exposta acima do nível do mar actual é constituída por importante volume de produtos vulcânicos submarinos, entre os quais belos exemplos de pillow lavas. José Madeira (Ago.2002)