deportados
No século XX, os Açores continuaram a ser um local de deportação para vários elementos que se opunham aos diversos governos ou aos regimes políticos. No período da I República, na sequência de uma tentativa de derrube do governo de Afonso Costa, levada a cabo por Machado Santos, em 17 de Abril de 1913, foram deportados para a Terceira mais de uma centena de participantes. Em 1925, outra remessa de revoltosos chegou também à Terceira na sequência da agitação efectuada por sectores anarquistas e da Legião Vermelha, ligada ao Partido Comunista. A grande vaga de deportações ocorreu após o golpe militar de 28 de Maio de 1926. Os Açores receberam largas dezenas de militares, por participarem em revoltas contra o regime, e de civis que se opunham à ascensão das forças mais conservadoras de cariz ditatorial. O próprio general Gomes da Costa fez parte dessa remessa, quando foi afastado da chefia do governo a 9 de Julho, permanecendo nos Açores até 1927. Mas as grandes levas de deportados começaram após a revolta de Fevereiro de 1927. Espalhados pelas mais diversas ilhas, gozavam de uma certa liberdade de movimentação, apesar de terem de marcar o ponto nas unidades militares ou nos departamentos da polícia. Os que tinham menos posses viviam comunitariamente, em pequenas pensões improvisadas, como por exemplo a Casa dos Deportados, no Cais do Pico, ou a República do Reviralho, em S. Jorge. Os mais abastados hospedavam-se em hotéis e pensões, tendo alguns chamado as famílias para junto deles. Os subsídios atribuídos não tinham um critério uniforme. Os militares e civis funcionários do Estado recebiam 5/6 do ordenado, acrescido de um subsídio adequado à posição hierárquica que ocupavam nos respectivos aparelhos. Os civis, não funcionários do Estado, viviam na base de um subsídio que variava entre os 12$00 e os 28$00 diários, consoante a sua categoria social. O critério de atribuição parece ter estado também muito ligado ao rótulo que os acompanhava: quanto mais perigosos eram considerados, menor era o subsídio.
No seio dos deportados encontramos um vasto leque de tendências políticas, desde Cunha Leal a Bento Gonçalves ou Mário *Castelhano. As divisões entre eles eram muito profundas, continuando as lutas internas e as discussões acesas em público. Os sectores mais elitistas conviviam com os seus correligionários locais e colaboravam na imprensa com artigos de opinião, de forma moderada, tendo em conta a censura que se havia instalado. Os sectores mais radicais procuravam influenciar a população local, com estratégias diferentes. Foi o caso de Bento Gonçalves, na altura secretário-geral do Partido Comunista, que fundou uma escola primária nas Lajes do Pico, e deu aulas nocturnas a crianças e adultos. De igual modo, prestou apoio aos pescadores com os seus conhecimentos de mecânica, na reparação dos motores dos barcos.
A concentração de deportados no arquipélago levou o governo a criar o cargo de Delegado Especial do Governo para os Açores, em 1927, com o objectivo de melhor os controlar e evitar tentativas de revolta. O cargo durou até 1932 e foi ocupado pelo coronel Silva Leal. Apesar da tentativa de controlo, os deportados provocavam com frequência alguns desacatos e procuravam enfrentar a autoridade. Em 1930, por exemplo, o grupo ligado a Cunha Leal promoveu uma romagem à casa onde havia nascido Teófilo Braga, não respeitando a proibição do governador civil. Cunha Leal foi preso, por suspeita de fuga, gerando-se movimentações para o arrancar da prisão, o que deu origem a novas prisões. Sempre atento às movimentações e influências dos deportados, o governo deslocava-os para outras ilhas ou para fora da região quando considerava que a sua acção estava sendo perniciosa. O regime de deportação trouxe ao governo vários contratempos, pois quanto mais espalhados estivessem os deportados maiores eram as possibilidades de propaganda contra o mesmo.
A intervenção mais importante dos deportados ocorreu no ano de 1931, na sequência da eclosão de uma revolta na Madeira, a 4 de Abril. Ao terem conhecimento dessa revolta, ultrapassaram algumas desavenças e aderiram ao movimento, tendo sido criadas duas Juntas Revolucionárias, uma em Ponta Delgada e outra em Angra do Heroísmo. Durante dez dias, os revoltosos tomaram conta das ilhas, substituindo as autoridades e publicando legislação vária. Com a chegada das forças fiéis ao governo, acabaram por se render, embora alguns tivessem fugido para a Madeira que continuava controlada pelos deportados. Terminada a revolta, o regime de deportação para os Açores deixou de funcionar. A partir de então, os opositores ao regime passaram ao regime de prisão, tendo sido instalado em Angra do Heroísmo, no Castelo de S. João Baptista, o chamado *Depósito de Presos.
Para além da colaboração na imprensa, um grupo de deportados publicou um pequeno jornal manuscrito, intitulado O *Deportado órgão de todos aqueles que sem vontade veraneiam em Angra, mas que teve curta duração. Carlos Enes (Jan.2003)
