danças (Entrudo)

As danças do Entrudo que conhecemos nos Açores são fruto do contributo trazido pelos povoadores do continente, e das influências dos contactos mantidos com outros povos e culturas – França, Espanha, Brasil, etc.

Em épocas mais recuadas, as danças andavam ligadas às festas religiosas, mas as autoridades eclesiásticas moveram-lhes várias perseguições, considerando-as pecado grave, no século XIII. Proscritas do santuário, os dançarinos passaram para a rua, para o adro da igreja e continuaram a acompanhar as procissões.

Não é fácil determinar a época em que estas manifestações se tornaram uma componente fundamental das festas do Entrudo. Elas realizavam-se em diversas épocas do ano e, no caso da Terceira, nos intervalos das touradas de praça. Nos Açores, o que parece seguro é que no século XIX elas se foram fixando predominantemente na época carnavalesca.

Nas várias ilhas do arquipélago, encontramos as seguintes variedades de danças: a) a dança do pau das fitas (designação utilizada na Terceira) ou dos cadarços (designação utilizada em S. Miguel e no Faial); b) dança dos arcos; c) danças do entrudo. Todas elas apresentam alguns elementos comuns. A dança estrutura-se em torno de duas alas de bailarinos que podem variar entre os doze e os dezasseis pares, um mestre ou puxador, um “velho” (espécie de bobo medieval), e é acompanhada por tocadores de instrumentos musicais. Ao mestre, munido de espada ou pandeiro e apito, compete dirigir a coreografia e apresenta-se vestido de forma mais sumptuosa do que os restantes elementos; o “velho” (na Terceira designa-se “ratão”) tem a função de “limpar” o terreno para a exibição, realizar o peditório e intervir com piadas mais brejeiras.

A indumentária tem variado ao longo dos anos, com tendência para se ir apresentando cada vez mais colorida. Na primeira metade do século XX, o branco era a cor predominante. Sobre as camisas são frequentemente utilizadas faixas coloridas, as calças apresentam listas também coloridas e na cabeça usam chapéus dos mais variados feitios. Os mestres usam dragonas aos ombros e chapéus emplumados. O acompanhamento musical também se enriqueceu com a utilização de novos instrumentos musicais, de corda ou de sopro. Estas danças desenrolavam-se essencialmente em torno de uma coreografia. Embora cantassem alguns versos, não existia um enredo desenvolvido, contando uma história.

a) Dança dos cadarços ou do pau das fitas – Segundo Carreiro da Costa, estas danças teriam origem na Provença, com raízes nas remotas festas pagãs da Primavera, do Verão ou do Outono, andando ligadas a diversas actividades agrícolas. A sua introdução, nomeadamente em S. Miguel, terá sido feita só no século XIX, de acordo com Luís Bernardo *Ataíde. Em 1825, uma companhia de teatro deslocou-se àquela ilha, apresentando uma dança do género que acabou por se tornar popular. A dança baseia-se numa sequência de coreografias que terminam com o encadeamento dos cadarços ou mastros de várias cores, num grande mastro colocado no meio da dança. Esta dança, com algumas variantes foi muito popular em outras ilhas.

b) Dança dos arcos – Esta ra a dança mais conhecida no Faial. Para além dos participantes comuns às outras, apresenta também dois comandantes que se vestem de fraques brancos, com mangas agaloadas e listas douradas nos calções. Os dançarinos transportam um semi-arco, com vistosas e polícromas folhas de papel entufadas. Seguram-no pela extremidade com cada uma das mãos, executando a coreografia, acompanhada com o canto de várias quadras, com algum entrosamento.

c) Danças do entrudo – Tal omo as outras, baseavam-se essencialmente numa coreografia, acompanhada por algumas quadras. Estavam muitas vezes ligadas a artes ou ofícios: danças das redes (pescadores), do picão, dos maços, dos ferreiros, carpinteiros, etc. Nos finais do século XIX, o enredo foi-se afirmando, tornando-se posteriormente o elemento fulcral da dança, transformando-a num teatro popular. Esta introdução do enredo parece coincidir com a mesma introdução do enredo no samba brasileiro. Existiram em todas as ilhas e, após sofrerem um período de declínio, voltariam a aparecer recentemente. Só mantiveram a sua continuidade na ilha Terceira, transformando-se na maior manifestação cultural. Praticamente todas as freguesias apresentam pelo Carnaval uma ou mais danças, o que movimenta umas largas centenas de intervenientes.

Nas chamadas danças do entrudo encontramos algumas variantes. A dança de espada, também conhecida por dança de dia, que parece ser a mais antiga; a dança de pandeiro ou da noite e, mais recentemente, o bailhinho. Entre elas existem muitas características comuns, mas também algumas especificidades. A dança de espada era a mais teatral, apresentando um maior número de intervenientes e um assunto mais sério. Nelas, representavam-se temas históricos, religiosos ou dramáticos. Nos últimos anos esta variante tem tendido a desaparecer. Nas danças da noite e nos bailhinhos os enredos são mais humorísticos e satíricos.

Todas elas se compõem de três partes distintas: uma coreografia inicial a que se segue a saudação em que se dirigem os cumprimentos ao povo; o assunto, em que é apresentado o enredo que se desenrola de imediato; a despedida, em que se agradecem aos espectadores a atenção dispensada. Cada uma destas partes é iniciada e concluída pelo mestre que também dirige as marcas. Nos últimos anos têm surgido danças com dois mestres. Nas danças de pandeiro aparecia frequentemente um velho ou ratão que comentava o enredo com ditos picantes, desbocados, tomando o papel de intriguista e de crítico mais perspicaz. Ultimamente este personagem deixou de ser utilizado. Nalgumas danças aparecem personagens e tocadores que não intervêm na coreografia com os outros dançarinos. Ficam colocados na cauda da dança. Até há poucos anos, só os homens entravam numa dança, representando os papéis femininos. Nos finais do século XX, as raparigas passaram a integrar as danças, inclusive como mestres.

As despesas decorrentes de toda a organização de uma dança – indumentária e transportes – são suportadas pelos participantes. Durante a exibição por vezes faziam-se peditórios para aliviar os custos. Recentemente, a Secretaria Regional da Cultura atribui subsídios que, mesmo assim, não cobrem todas as despesas.

As danças exibiam-se essencialmente no terreiro ou em casas de particulares. Mas à medida que foram sendo construídas sociedades recreativas, a exibição passou a ser feita nos palcos e quase só à noite. Famílias inteiras enchem por completo os salões para assistirem a sessões contínuas de danças durante as três noites do Carnaval. Carlos Enes (Mar.2003)

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