Dabney, John Bass

 [N. Boston, EUA, 13.12.1767 – m. Horta, 1826] Oriundo de uma família huguenote de apelido d’Aubigné, era filho do Dr. Charles Dabney e de Mary Bass. Educado nas artes do comércio e imbuído do espírito mercantil que a independência dos Estados Unidos da América fez florescer nas antigas colónias inglesas, John Bass Dabney procura em França oportunidades de negócio no ramo do comércio dos vinhos, adquirindo apreciável frota para o comércio transatlântico. Pouco antes, em 1792, casou com Roxa Lewis, nascendo desse casamento, em 19 de Março de 1794, Charles William *Dabney cuja infância será passada em França e que, mais tarde, representaria no mais elevado grau o espírito empreendedor da família que no Faial marcou uma época de excepção. Do referido casamento nasceram ainda as filhas Roxaline, Nancy, Emmeline e Olivia e também os filhos John Lewis, George, James Madison, Frederick, William Henry. Um segundo filho de nome George viria a falecer em Inglaterra.

Todavia, mergulhada na aventura napoleónica, a França não se revelaria propícia ao êxito do jovem Dabney, então na casa dos 30 anos, perdendo os dez navios adquiridos na voragem dos sequestros em nome da causa nacional e esquecidas, então, as solidariedades revolucionárias entre a jovem nação americana e a França. É no regresso da Europa que terá feito um primeiro contacto com o Faial, possivelmente no ano de 1795, apercebendo-se das possibilidades que a ilha lhe poderia proporcionar no plano do comércio. É bem provável que não lhe tenha escapado a importância dos negócios da casa inglesa Scott Idle & Sobradello, há pouco estabelecida na vila faialense, para o comércio do vinho verdelho abundantemente exportado para a Martinica e outras ilhas das Caraíbas. Correspondência de John Dabney, datada já de 1811, fornece a evidência inequívoca de uma avaliação rigorosa que o futuro cônsul americano nos Açores terá feito das potencialidades do comércio do vinho e da importância da vila da Horta para este efeito. É neste contexto que John Bass Dabney permanece alguns meses na Horta, entre finais de 1804 e Maio de 1805, fixando-se na ilha do Faial em 1806. Era, nessa altura, portador das credenciais de cônsul americano para as ilhas dos Açores, estatuto que lhe convinha pelas vantagens que o cargo poderia proporcionar-lhe, já que aos cônsules não estava vedado o envolvimento activo nos negócios. Já no ano seguinte junta-se-lhe a família, embora as intenções do cônsul visassem apenas uma estada de algumas anos, conforme aventava na correspondência acima mencionada.

Apesar dos panegíricos que ao longo dos anos incensaram as alegadas virtudes do cônsul e da respectiva família e seus descendentes, o certo é que dedica toda a sua energia aos negócios, envolvendo-se no melhoramento e exportação do vinho verdelho para portos do Norte da Europa e do Leste dos Estados Unidos, criando, ao mesmo tempo, os fundamentos de uma casa comercial em que a reparação naval, o agenciamento de navios e seu refresco, terão provavelmente pesado mais do que a actividade exportadora.

Estabelecido na Horta em 1806, John Dabney vai beneficiar de circunstâncias excepcionais, favoráveis à consolidação da sua casa comercial. De facto, a persistência de uma situação de conflito latente entre os Estados Unidos da América e a Inglaterra – aqueles irredutivelmente defensores de um estatuto de liberdade de navegação e comércio por parte de países neutros e esta pugnando por uma prática restritiva visando acautelar as vantagens que a inimiga França poderia retirar de um comércio livremente exercido por nações fora da sua tutela – criarão as condições de excepção que Dabney aproveitará como trampolim para lançar os fundamentos da sua actividade no Faial. Os sucessivos diplomas do Congresso dos Estados Unidos da América publicados entre 1806 e 1811, destinados, alegadamente, a penalizar os interesses britânicos, facultaram ao cônsul a oportunidade de ouro. É, sobretudo, no período em que vigorou o Nonintercourse Act, iniciado em Março de 1809, em que o porto da Horta serve de entreposto para baldeação das cargas dos navios americanos originados em portos da mesma nacionalidade, para navios ingleses que demandavam o Faial onde as recebiam, com destino a portos britânicos, que se criam as referidas condições de excepção. A consignação de centenas de navios e o manuseamento de cargas baldeadas terão feito arrecadar ao cônsul e negociante John Bass Dabney largos proventos. É o próprio, em correspondência para um parente na América, a afirmar que 3/4 do movimento marítimo na baía faialense, neste período, lhe estava consignado.

À projecção internacional do porto da Horta alcançada nesta época, está, sem dúvida, associada a presença de John Bass Dabney e o sucesso dos negócios a que a família, após a sua morte em 1826, deu continuidade com igual êxito.

No que toca ao estatuto consular outorgado em 1806 pelo governo do presidente Thomas Jefferson, a ideia de que John Bass Dabney terá sido o 1.º cônsul dos Estados Unidos da América para o arquipélago dos Açores, não é consensual, havendo dúvidas quanto ao âmbito da jurisdição do cônsul americano na Horta, João Street, ocupando este cargo antes da chegada de Dabney. Em qualquer caso, ainda que sem comprovar a afirmação, a cronista da família, Roxana Lewis *Dabney, anota nos seus Annals of the Dabney familiy in Fayal, que antes do avô ninguém teria sido nomeado como cônsul geral para as ilhas dos Açores.

Enquanto cônsul, foi várias vezes confrontado com a ocorrência de situações delicadas resultantes da prática de corso nas águas dos Açores, destacando-se o episódio do combate travado na baía da Horta entre o navio corsário americano General Armstrong contra tropas de uma flotilha inglesa chegada ao porto faialense, em clara violação dos direitos de neutralidade de Portugal. Trata-se de um dos últimos episódios da guerra de 1812 e a regularização do diferendo a que deu lugar, arrastou-se por vários anos, vindo a ser resolvida por decisão arbitral de Luís Napoleão.

Ainda que a compilação da correspondência transcrita nos anais da família resulte do critério de um familiar e, por isso, possa suscitar suspeitas, a sua transcrição confronta-nos com manifestações de apreço cujo teor permite compor o perfil psicológico de John Bass Dabney. Seria, no dizer de Noah Jones, que visitou a Horta em 1811, pessoa afável e comunicativa, revelando a sua conversação o maior interesse junto de quem o escutava, a que a experiência de vida na Europa libertou de preconceitos e muito enriqueceu. Conduzindo os negócios com firmeza, mantinha na família uma harmonia e uma tranquilidade notáveis.

A construção de uma imponente moradia situada em local privilegiado da vila da Horta, ostentando as características da traça colonial – que baptizou com o nome de “Bagatelle” – denuncia, de forma eloquente, o gosto e sensibilidade de alguém que buscava o retiro de um lar agradável e desafogado, que a beleza magnífica dos jardins valorizava sobremaneira, e exprime a opulência com que a sorte e o sucesso rapidamente contemplou John Bass Dabney. Ele mesmo afirmava, em carta de 1812 para familiar nos Estados Unidos, que a casa, uma vez terminada a obra, seria a maior e a mais bela do Faial. Escassa meia dúzia de anos bastou para que as vantagens de um estatuto diplomático, o talento e a oportunidade permitissem fazer renascer do insucesso da sua experiência francesa, fortuna considerável e prestígio nas teias do comércio transatlântico. Boas razões terá tido para que os vatícinios de breve permanência em terras do Faial não passassem de mera intenção inconsequente.

A consolidação da sua posição nos negócios da ilha e a promoção do seu porto, abriram certamente caminho seguro para que a sua descendência, com o filho Charles William Dabney e o neto Samuel Wyllys Dabney, se sentisse estimulada a prosseguir os negócios da Casa Dabney. Da sua presença no Faial, causada pelos ventos adversos da França napoleónica, nasceu uma verdadeira dinastia de cônsules-mercadores que até final do século trouxe ao Faial prosperidade. Por isto, o epíteto de “pioneer of the colony” que Roxana Dabney lhe dedica, ganha pleno sentido.

Por ocasião da sua morte na ilha do Faial em 1826, um obituário inserto num jornal de Boston referia-se-lhe como uma autêntica e providencial instituição a meio do Atlântico, considerando que pela sua intervenção e méritos, o Faial era conhecido pelos marinheiros como refúgio da navegação em dificuldades e lugar privilegiado de acolhimento hospitaleiro. Este, possivelmente, o maior serviço que John Bass Dabney terá prestado à terra faialense. Ricardo Madruga da Costa (Jan.2003)

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