Dabney, família
A identificação inequívoca de uma dada ilha do arquipélago dos Açores por simples associação ao mais ilustrado dos nomes de um qualquer dos seus naturais será, certamente, raridade de fácil constatação. Menos ainda, pela ordem natural das coisas, buscaríamos em gente estranha, de longa ou efémera estadia por estas terras, o arquétipo de virtudes e qualidades que, pela excelência alcançada, se tornasse merecedora de uma tal honra.
A verdade é que, em dado momento da história faialense, recobrindo grande parte do século XIX, a família Dabney ligou o seu nome à ilha do Faial, de forma tão íntima, que bem pode dizer-se que entre aquela e a ilha do Faial que em 1806 acolheu o primeiro dos seus representantes John Bass *Dabney se produziu uma identificação plena. Fundadas razões terão levado a que a era de Oitocentos, no que toca àquela ilha, já tenha sido designada como o século Dabney.
Com adequado distanciamento, já no último quartel do século, ao relatar o quotidiano da pequena cidade da Horta, onde a presença dos Dabney se destacava, Júlio Castilho, sob forma epistolar, confiava ao leitor, em expressiva prosa, essa ideia de plenitude quando se tratava de fazer alguma alusão à família. Estavam, de facto, omnipresentes na sociedade faialense e gozavam de um prestígio quase mítico.
O pioneiro da família fixou-se na Horta no ano de 1806, após breves visitas para avaliação das condições locais com vista ao desenvolvimento de uma casa comercial. Como era comum na época, ao chegar aos Açores era portador da patente de cônsul dos Estados Unidos das América para o arquipélago, cargo que, quase em sucessão dinástica, permaneceu na família através de nomeações consecutivas. Primeiro para seu filho Charles William *Dabney e, depois, para seu neto Samuel Wyllys *Dabney, este último nascido em terra faialense.
Ao longo dos anos, numa afirmação de espírito empreendedor que caracterizou as sucessivas gerações que na ilha do Faial deram corpo a uma firma comercial de prestígio à escala do Atlântico, desenvolveram amplas relações de natureza comercial, marcando posição de relevo no agenciamento de navios e seu aprovisionamento. Por sua iniciativa, o porto da Horta passa a suprir as necessidades da navegação transatlântica, nomeadamente em palamenta, apetrechos e reparações nos seus estaleiros.
No período em que permaneceram na ilha do Faial, o porto da Horta alcançou assinalável notoriedade como escala mais vantajosa para a navegação cruzando o Atlântico. A competência evidenciada na administração dos negócios da sua casa comercial e as relações que cultivaram junto dos armadores e capitães de navios, muito terão contribuído para a promoção do porto faialense.
A actividade baleeira e a sua iniciativa como armadores de navios à vela de apreciável porte para o transporte de passageiros e carga, sobretudo na rota ligando os Açores e os Estados Unidos da América, mereceram igualmente o interesse da firma.
O comércio dos vinhos trazidos da ilha do Pico para os seus armazéns na Horta, foi também alvo dos seus cuidados e empenho, promovendo o seu tratamento e melhoria para exportação com destino aos Estados Unidos, Norte da Europa, portos do Báltico e até para paragens bem mais distantes como a Índia.
Por morte de John Bass Dabney, em 1826, seu filho Charles William Dabney provou estar à altura do legado paterno. A Casa Dabney consolidou a sua reputação e os negócios, sob a direcção do sucessor, terão alcançado uma importância jamais atingida. Para o sucesso da firma, que a partir de 1868 adoptaria a denominação de Casa Dabney & Sons, a época do transporte marítimo a vapor terá desempenhado papel essencial. Eram os Dabney que possuíam os mais importantes depósitos de carvão.
Por via da prosperidade alcançada e de uma perfeita inserção dos familiares na vida faialense, ocupando três das melhores residências da Horta, a família Dabney desempenhou um papel social de grande relevância. A par dos negócios, os salões das suas residências abriram-se vezes incontáveis para receber e acolher visitantes e naturalistas; príncipes e magnatas, e, até o imperador D. Pedro frequentou os seus salões enquanto se preparava nos Açores o corpo expedicionário da tropa que haveria de desembarcar no Mindelo.
A hospitalidade que prodigalizaram nestas paragens do Atlântico, conferiu aos membros da família Dabney a imagem de verdadeiros anfitriões da ilha do Faial, suprindo, de algum modo, o apagamento da edilidade espartilhada pela magreza dos recursos que escassamente chegariam para satisfazer as obrigações mais prementes.
Ainda no plano social, não obstante ser difícil avaliar a dimensão em que a sua acção filantrópica se exerceu, não pode deixar de averbar-se a favor dos seus préstimos a sua solicitude e generosidade na ocorrência de crises e dificuldades que afectavam as camadas da população mais carenciada e que os fizeram merecedores de público louvor do governo do reino.
Os anos derradeiros da permanência de Charles William Dabney à frente dos negócios da firma, coincidem com a implantação dos Bensaúde no Faial. Apesar da crescente importância dos recém-chegados, nas mesmas áreas de negócios em que os Dabney sempre haviam pontificado, estes prosseguem os negócios da casa para além da morte de Charles Dabney em 1871. É a Samuel Dabney, seu filho, que cabe dar continuidade aos negócios e à função consular. A ele, também, os testemunhos da época prestam idêntico tributo de gratidão enaltecendo as suas qualidades de cidadão e de filantropo. Todavia, o declínio das actividades da Casa Dabney & Sons e a impossibilidade legal imposta pelo governo americano em manter o cargo consular a par com os negócios familiares, terão sido razões determinantes para o seu regresso definitivo aos Estados Unidos da América em 1892.
Muito embora o quadro político-social vigente ao longo da permanência desta família no Faial coincida com um período muito conturbado da vida nacional, decorrendo desde os tempos finais do Antigo Regime, em que os Açores vivem a experiência mal sucedida do regime de capitania-general, até à longa travessia das lutas liberais e todo o tempo de incerteza que se lhes segue, é bem possível que sob a sua influência o Faial tenha vivido um dos mais prósperos períodos da sua existência até então. Ricardo Madruga da Costa (Abr.2003)
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