Dabney, Charles William

[N. Boston, EUA, 19.3.1794 – m. Horta, 12.3.1871] Filho de John Bass *Dabney e de Roxa Lewis, do seu casamento com Francis Alsop Dabney nasceram quatro filhas, Clara Pomeroy, Roxana Lewis, Frances Alsop e Francis Oliver, e três filhos John Pomeroy, Charles William Jr. e Samuel Wyllys Dabney.

Tendo acompanhado o desenvolvimento dos negócios do pai no Faial desde os tempos da sua juventude e tendo beneficiado de uma educação orientada para os negócios, que a permanência numa casa comercial dos Estados Unidos terá apurado, Charles William Dabney – que ainda em vida de seu pai é nomeado vice-cônsul americano no Faial – reúne todas as condições para dar continuidade aos negócios da família. Nesta qualidade, dinamizou os negócios da casa comercial que veio depois a designar-se por “Charles Dabney & Sons” e que se terá constituído com esta firma por volta do ano de 1868. Sob a sua direcção, com espírito empreendedor e com um grande rigor na condução dos seus negócios, facto que transparece dos registos dos Annals of the Dabney Family in Fayal compilados em 1897 por sua filha Roxana, a Horta vê expandir-se a procura do seu porto. A casa Dabney assegurava um variado leque de serviços, como a reparação naval, refresco, manuseamento e baldeação de azeite de cachalote, comércio de importação e de exportação, em especial do vinho do Pico. Entre as actividades que a casa igualmente assegurou, conta-se a de armadora de navios para serviço de transporte entre os Açores e os Estados da América – entre eles o Sarah, Harbinger, Azor e Fredonia – participando ainda nas iniciativas pioneiras de armamento de navios locais para pesca da baleia. Com a intensificação da navegação a vapor, é ainda a casa Dabney que dispõe dos armazéns de carvão para fornecimento da navegação que escala a baía da Horta que a própria firma promove. Aos seus esforços devem-se-lhe também diligências para a construção de uma doca na Horta, chegando a apresentar planos para esse fim. Pode afirmar-se que é com Charles William Dabney que a firma ganha maior projecção nos meios do comércio marítimo internacional, consolidando o legado recebido de seu pai John Bass *Dabney.

Nos anos derradeiros da vida de Charles William Dabney esboçam-se os sinais de algumas dificuldades nos negócios, facto que coincide com o estabelecimento da família Bensaúde na Horta e com a concorrência movida por esta casa comercial em áreas de negócio coincidentes, como são a do agenciamento de navios e a que se refere ao fornecimento de carvão à navegação.

Com um notável sentido de hospitalidade, na esteira da tradição legada pelo pai, Charles William Dabney desempenha um papel de relevância na promoção do Faial, acolhendo naturalistas, viajantes e jornalistas que na sua residência e nos jardins da Bagatelle encontram sempre acolhimento e motivo de encanto. A literatura de viagens da época dedica ao Faial encomiásticas páginas a que o nome de Charles William Dabney, invariavelmente, está associado, sendo certo que os jardins da sua residência inspiraram algumas das referências mais elogiosas.

Assegurando funções de natureza consular à data da morte de seu pai em 1826, conseguiu a nomeação de cônsul dos Estados Unidos da América nos Açores, dando continuidade ao cargo que a seu pai, pela primeira vez, fora outorgado para exercer no arquipélago. Com uma breve interrupção em 1870 e parte do ano de 1871, em que o posto consular foi assegurado por J. C. Cover, ocupou o cargo até à sua morte em 1871.

Torna-se difícil fazer a destrinça entre o estatuto de representante da sua pátria de origem e a condição de negociante, já que, nesta época, a obtenção de patente consular era uma forma de obter vantagens no plano dos negócios. Ao longo do seu mandato, e para além dos muitos casos que teve de enfrentar devido ao socorro que lhe cabia prestar a concidadãos em dificuldades, designadamente aos muitos náufragos e a embarcações arribadas à Horta, teve também de gerir situações mais complexas. De facto, com a Guerra da Secessão e os perigos que se colocavam à navegação yankee, sobretudo por ocasião das devastações causadas pelo corsário Alabama ao largo dos mares das Flores, é de admitir que o cônsul se visse obrigado a uma missão de informação junto do governo americano, atraindo sobre ele o despeito de uma parte da família afecta à causa do Sul. A recusa de abastecimento de carvão a navios suspeitos de apoio aos “rebeldes” e o facto de ter embandeirado um dos seus navios com o pavilhão inglês, de modo a subtrair-se aos riscos de qualquer recontro com o corso sulista, são outros tantos episódios com que o cônsul terá tido alguma dificuldade em lidar.

Sendo inúmeras as ocasiões em que a Horta representou o papel de anfitriã de personalidades destacadas, designadamente no plano político e científico, coube sempre a Charles Dabney e à sua família, papel primacial no acolhimento que a vila da Horta, depois cidade, lhes dispensava, abrindo os salões da sua residência e promovendo agradáveis saraus que os anais e as muitas evocações desta época registam. Fica-se com a ideia que o desempenho das próprias autoridades municipais ficava, em representação, muito aquém da notoriedade das iniciativas que o cônsul Dabney prodigalizava junto dos forasteiros de destaque que chegavam à Horta.

Pelos seus méritos e actos filantrópicos, a Câmara da Horta, em 1863, atribuiu a uma das artérias citadinas o nome de Rua Cônsul Dabney em sua homenagem. Por idêntico motivo, no salão nobre da mesma câmara, foi descerrado um retrato de Charles William Dabney. No plano do reconhecimento por acções de natureza filantrópica, uma portaria de 23.8.1858 exara um louvor em que Charles Dabney é contemplado.

Talvez com o exagero característico das pequenas comunidades em que uma elite restrita facilmente sobressai na prática de acções ou iniciativas tidas como decisivas em momentos de dificuldade generalizada para a população mais carenciada, a verdade é que a imprensa da época aureolou a personalidade de Charles William Dabney com atributos filantrópicos de excepção. Numa comunidade muito pobre e frequentemente assolada por crises frumentárias, é natural que o empenho da gente influente na solução de dificuldades que a própria edilidade provaria não ser capaz de resolver, fosse acolhido e saudado pelas chamadas forças vivas da época. O que Charles William Dabney representa, com certeza, é o espírito de um infatigável e hábil homem de negócios para quem a prática esporádica da generosidade se enquadraria numa actuação para a qual, a simpatia e um desejável good-will por parte das populações locais, só poderia revelar-se benéfica para o bom desempenho dos negócios.

Numa avaliação do perfil das três figuras representativas da presença da família no Faial - John Bass, Charles William e Samuel Wyllys *Dabney – é seguro afirmar-se que ao filho do primeiro cônsul dos Estados Unidos da América nos Açores, caberá o mérito de ter elevado o prestígio da firma por este fundada, a um nível jamais alcançado. Ricardo Madruga da Costa (Jan.2003)

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