currais

Nos Açores o termo curral está principalmente associado a dois tipos de organização do espaço agrícola e doméstico: uma característica dos terrenos pedregosos de lava fragmentada de zonas litorais, onde se cultiva a vinha; e outra afecta à criação de gado, que surge junto da habitação ou dispersa por zonas de pastagem. Trata-se em qualquer dos casos de uma parcela de terreno de dimensões relativamente reduzidas.

No primeiro caso encontram-se os pequenos compartimentos fechados por muros de pedra solta e negra, onde se gera um microclima de ar quente e seco favorável ao crescimento da videira, com a absorção do calor pela pedra negra e a protecção dos ventos marítimos criada por aqueles muros, designados por currais de vinha ou por curraletas. Esta compartimentação do terreno dá lugar a uma paisagem única, de um reticulado negro, que caracteriza algumas zonas litorais das ilhas Terceira (Biscoitos e Porto Martins), Pico (aro de S. Mateus a Santana) e Graciosa, e que, nos dois primeiros casos, é hoje objecto de protecção patrimonial. De facto, este terreno negro rendilhado constitui não só uma paisagem digna do olhar, como um verdadeiro monumento ao esforço e ao saber de gerações de viticultores. Outros currais com funções semelhantes mas de forma semi-circular são os currais de figueiras da ilha do Pico.

Ao contrário destes, que definem conjuntos paisagísticos notáveis, os currais afectos à criação de gado encontram-se dispersos pelas várias unidades domésticas ou de produção agro-pecuária. Estes currais de gado – curral do porco, das galinhas ou das vacas, etc. – têm na generalidade funções de *abrigo, mas podem estar também associados a certas tarefas em que é necessário criar condições de recolha do gado. Daí que tenham, em geral, a forma de uma cerca de muros relativamente elevados, e que, nalguns casos, incorporem uma construção com um tecto de uma água para abrigo dos animais.

Na realidade alguns destes recintos têm desaparecido ou deixado de estar associados à criação do gado. O curral do porco, por exemplo, fazia parte do conjunto habitacional, revelando a importância que este tinha na economia e na alimentação do agregado familiar. Podia não ser mais do que um pequeno compartimento, tendo a um canto um abrigo e uma pia; mas em zonas como o Ramo Grande, na ilha Terceira, este curral ou rua do porco era (e ainda é) feito de grandes lajes de cantaria bem aparelhadas e integradas na arquitectura da unidade funcional que era a casa do lavrador, formando o telheiro de abrigo de um lado e, do outro, as pias com aberturas para o exterior, pelas quais era dada a comida ao animal. Na mesma área da casa ou do quintal, havia ainda o curral ou rua das galinhas.

Nas terras baixas, mais ou menos próximo das moradias, existiam também algumas parcelas conhecidas por currais do gado, que serviam para reunir e abrigar o gado bovino consoante as necessidades do manejo e, sobretudo, as exigências das condições climatéricas. Este gado era normalmente o gado de leite e de trabalho, aquele que se procurava proteger das intempéries.

Nas terras altas e do interior, os currais de gado encontram-se ainda dispersos mas devidamente localizados consoante as necessidades de agrupamento da manada. Na Ilha Terceira, onde a criação de gado bravo é conhecida e apreciada, os currais de gado estão particularmente associados ou gosto pela festa brava – as ferras, as tentas e as touradas. Cada criador de gado bravo possui nas suas propriedades um complexo de currais com casa onde promove as tentas e as ferras, ou seja, onde marca o gado com o seu ferro, os mais jovens experimentam as suas habilidades para o toureio perante uma assembleia de curiosos, de pé ou sentados sobre os muros altos; e onde separa o gado para a tourada.

Dentro desta diversidade de casos o termo curral acaba por estar associado a situações opostas conforme os lugares. Deste modo e segundo Pires (1976), que estudou o pastoreio na ilha Terceira, por meados dos anos 60 a expressão gado de curral referia-se então a gado de leite e de trabalho na zona das Lajes, enquanto que na freguesia da Ribeirinha era sinónimo de gado de cima ou gado do mato e alfeirio. Aliás, o mesmo autor chama a atenção para o facto da expressão curral de gado ou curral de vacas poder ser sinónimo do próprio colectivo formado pela manada. Helena Ormonde (Mai.2001)

Bibl. Ordem dos Arquitectos (2000), Arquitectura Popular dos Açores. Lisboa, OA. Pires (1976), A. M. B. M., A Pastorícia dos Bovinos na Ilha Terceira (1969). Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 24-32: 231-398.