Cumberland, conde de

George Clifford (1558-1605), 3º Conde de Cumberland, tem o seu nome associado à história dos Açores em virtude das acções de corso que conduziu nos mares do arquipélago, destacando-se em particular a incursão de 1589, ao serviço de Isabel I de Inglaterra, no decorrer das quais algumas ilhas, em especial o Faial, viveram ocasião de enorme angústia causada pelo desembarque dos marinheiros britânicos por ele chefiados.

Muito embora o objectivo prioritário de Cumberland fosse surpreender as naus das Índias e sua valiosa carga, o certo é que, frustrado este intento, apresou os navios que encontrou, quer no porto faialense, quer no decorrer do cruzeiro efectuado entre as ilhas.

Esta e outras incursões inglesas no arquipélago inseriam-se na estratégia de Isabel I visando o domínio dos mares como forma de viabilizar a construção do Império Britânico, suplantando a Espanha. Para alcançar este objectivo, havia que abalar o crescente poder dos Habsburgos, personificado por Filipe II, impedindo a chegada a Sevilha da prata americana, que se acreditava ser o suporte essencial da grandeza do império. A posição geográfica dos Açores como escala das rotas de retorno das Índias conferia ao arquipélago a maior relevância no desenvolvimento da estratégia britânica, facto que terá justificado um tímido apoio inglês à causa de D. António no decorrer das lutas que conduziram à tomada da ilha Terceira pelas forças espanholas, em 1583. Porém, a tomada da ilha Terceira, associando definitivamente o arquipélago aos destinos da União Ibérica, torná-lo-ia muito vulnerável enquanto zona privilegiada de confronto dos interesses entre as coroas britânica e espanhola. Esta vulnerabilidade era tanto maior quanto a defesa dos Açores apresentava graves carências para responder com eficácia a qualquer ataque externo. Foi neste contexto que se deu a incursão da armada do Conde de Cumberland, com particular violência na ilha do Faial. As descrições coevas são elucidativas a propósito do assalto à vila da Horta, no dia 11 de Setembro de 1589, onde os marinheiros britânicos, durante quatro dias, causaram o pânico e a devastação, saqueando os haveres dos habitantes, para além de exigirem um resgate de dois mil ducados pago pelas autoridades locais, na maior parte com a prata dos templos cujos edifícios não seriam igualmente poupados à vontade destruidora da marinhagem. Sem repercussões assinaláveis no quotidiano das populações, para além do sobressalto causado pela sua presença ameaçadora, os navios de Cumberland ainda escalariam as ilhas de Santa Maria, Graciosa e Flores com vista ao seu aprovisionamento, operação que levariam a cabo não sem alguma resistência por parte dos habitantes. Ricardo Madruga da Costa (Abr.2001)

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