cozinha (arquitectura)
A cozinha constitui desde tempos muito antigos um espaço doméstico de grande importância, no espaço rural como no ambiente urbano isto quer pela sua função de suporte da vida familiar, quer pela articulação que tradicionalmente permite estabelecer entre o habitat e os espaços de apoio complementares, ligados estes às funções de produção e de armazenamento caseiras.
Nos Açores esta importância da cozinha e da sua relação com o conjunto do agregado doméstico é especialmente patente, dada a forte persistência das estruturas vernáculas e tradicionais do habitar, e dada igualmente a componente ainda fortemente rural e agrícola da vida colectiva.
Todo o estudo e entendimento da casa popular, rural e urbana açoriana, bem como da casa de feição mais erudita e tradicional caso dos solares classicizantes e barrocos dos séculos XVII a XIX passa pela consideração do valor, significado e importância do espaço da cozinha.
É por um lado, a sua colocação ou implantação, ainda hoje, nos casos mais antigos ou elementares, num corpo construído com total autonomia em relação aos restantes espaços da casa quartos e salões e deles afastada físicamente; por outro lado, é a sucessiva gradação de aproximação aos referidos espaços, em alteração tipológica evolutiva, patente ao longo do tempo, com exemplos de habitat em que a cozinha já está muito próxima, ou mesmo justaposta ao volume principal dos quartos-sala; e finalmente, há que considerar os casos em que entre a cozinha e os quartos se estabelecem ligações materiais, mediante elementos construtivos que permitem dar algum conforto ou facilitar a circulação entre essas duas partes da casa (por meio da meia-água, ou seja, de um telheiro ou coberto apoiado entre a cobertura da cozinha e a dos quartos que finalmente é fechada com paredes de madeira, depois com planos verticais já de alvenaria).
O resultado desta adivinhada evolução - para além da permanência simultânea dos vários tipos de cozinha e sua articulação com a casa - é que no arquipélago podem sistematizar-se três grandes grupos de casas populares sobretudo patentes no meio rural, mas igualmente em áreas proto-urbanas e urbanas agrupáveis em função da relação espacial e volumétrica que se estabelece entre as áreas dos quartos e a da cozinha (OA, 2000: 26-27).
a) «a casa com cozinha dissociada, onde este compartimento tanto pode estar fisicamente separado, como unido por um telheiro, como encostado (com ou sem comunicação interna);
b) a casa linear, com uma única frente, em que os compartimentos se sucedem em linha (simples ou em L), ocupando a cozinha sempre um dos extremos;
c) a casa integrada, com um volume unitário e uma composição espacial frequentemente simétrica (correspondente a uma fachada de janela-porta-janela), geralmente dobrada (com compartimentos para a frente e para trás), ficando a cozinha englobada na volumetria geral onde só o forno se salienta.
Estas características estruturais (
) estendem-se frequentemente às casas rurais mais abastadas e às [casas] de influência erudita (e, em parte, às habitações urbanas) que se distinguem, sobretudo, pelas dimensões e pelo desenvolvimento dos elementos compositivos externos». Assim, as tipologias da casa açórica são a um tempo, as que resultam da colocação da cozinha no conjunto dos seus compartimentos e espaços.
Outro aspecto importante é o da relação da cozinha com os espaços complementares da casa, nomeadamente no que respeita à casa do meio rural, onde a cozinha é fulcral ou mesmo nuclear na constituição e estruturação do agregado doméstico-agrícola. Aí a cozinha articulava-se frequentemente com os espaços dos animais quer por estar sobre a tradicional loja térrea do gado, ou em ligação lateral com a mesma (no caso do Corvo), quer por prolongar ou estar na proximidade de instalações como a casinha do carro, o curral do porco, a casa de despejo, etc.
Verdadeiro interface entre a área limpa da casa quartos e salas e a parte suja gados, arrumos, sequeiros e alfaias, é a cozinha deste modo que lhes dá sentido e suporte funcional.
Note-se ainda a importância do elemento interno principal da cozinha, que é o forno, associado por sua vez ao lar e à bancada de preparo de alimentos.
Desta articulação interna entre função da cozinha e o forno, decorre que cada um dos atrás referidos tipos ou grupos principais de casas açorianas populares têm uma presença geograficamente diferenciada: a área de maior presença das casas com cozinha dissociada coincide com as ilhas onde o forno interior é mais frequente e onde é mais frequente a associação entre ambos [os temas] (Flores, Pico, Faial e S. Jorge) (OA, 2000: 542); a casa linear, « com a sua fachada característica sempre com duas portas, pode-se considerar um tipo de transição entre o de cozinha dissociada e o integrado ( ) ocorre em todas as ilhas menos em Santa Maria e no Corvo» (OA, 2000: 543); e a casa com cozinha integrada « constitui um tipo ligado às ilhas mais orientais e, enquanto modelo vernáculo, não existe nas ilhas onde se salienta a cozinha dissociada e se encontra o forno interior: no Grupo Ocidental (Flores e Corvo) e em parte do Grupo Central (S. Jorge, Pico e Faial)» (OA, 2000: 542).
Deste modo, e complementarmente a este tríptico da casa popular açórica, há que salientar a importância das inúmeras variantes de inserção do forno na casa ou na sua cozinha separada dependendo da relação estabelecida entre o forno, o lar e a chaminé (quando esta existe). De facto, com o forno e a cozinha estamos perante uma verdadeira dupla de elementos morfo-tipológicos, já que a sua articulação permite incluir a casa em diferentes tipologias, imprimindo ao mesmo tempo forte expressão formal e plástica a cada uma das suas variantes.
Formalmente a cozinha não seria tão protagonista, inspiradora ou valorizadora da expressão plástica e arquitectónica da casa, não fora precisamente a teia de variantes formais e materiais que a mobilidade e diversidade das soluções concretas do sistema de forno-lareira-chaminé, em associação interior ou exterior - com o corpo e espaço da cozinha, acabam por gerar e edificar, em cada ilha e em cada área tipologicamente homogénea.
Assim, nas casas com cozinha de expressão mais primeva, é no interior dessas cozinhas que a presença das combinações internas entre o corpo do forno, as condutas de ligação com o lar, ou as engenhosas saídas de fumo (em ângulo oblíquo) da boca do forno para as coberturas telhadas - conjuntamente com algumas caiações e pinturas de tons mais vibrantes - animam os espaços internos das construções com cozinha sem chaminé; e, nas casas com a cozinha já ligada aos quartos num só conjunto, é graças aos volumes exteriormente salientes da chaminé, caiada e alva, com o corpo do forno saliente na sua base, e a caixa do lar ou da lareira também salientes, que a personalidade desses domus se afirma e atinge por vezes, nos casos mais cuidados e depurados, uma dimensão estética tão forte como espontânea e ingénua.
Estes exemplos são especialmente patentes em ilhas como Santa Maria (com a chaminé cilíndrica dita de vapor) ou S. Miguel (na área das Lombas da Povoação), ou na Terceira (com a tradicional chaminé de mãos postas) e na Graciosa (com corpos de chaminés, emergentes das cozinhas, em formas robustas e piramidais). José Manuel Fernandes (Abr.2001)
Bibl. Ordem dos Arquitectos (2000), Arquitectura Popular dos Açores. Lisboa, OA.
