Costa, Estêvão de Jesus Maria da (D. fr.)

 [N. Mafra, 26.12.1786 – m. Angra, 28.7.1870] 27.º Bispo de Angra (1827-1870). Pertenceu à Ordem dos Menores Reformados, da Província da Arrábida e foi Comendador da Ordem de N. Sr.ª da Conceição de Vila Viçosa. Professou no Convento de Mafra (1802) e aí leccionou Hermenêutica Sagrada por nove anos. 14.º Bispo de Meliapor (Padroado Português do Oriente, actual arquidiocese de Madras-Mylapore), eleito a 24.6.1825, foi transferido para Angra, a 3.8.1827, por ofício do ministro da Justiça, D. Bernardo António de Figueiredo, bispo do Algarve. Tomou posse do novo bispado (30.4.1828) por alvará de procuração passado ao pe. Dr. Frutuoso José Ribeiro, deão da Sé de Angra, que havia nomeado, por sua provisão de 10.3.1828, governador do bispado. As bulas de confirmação de Leão XII, de 26.1.1828, selaram-lhe o compromisso de instituir o Seminário Diocesano de Angra, que efectivamente inaugurou a 9.11.1862. A vida de D. fr. Estêvão foi tocada pela instabilidade política criada pelas lutas liberais, o que levou a que só em 1840 assumisse, ainda que com restrições, o governo da sua diocese em Ponta Delgada, onde chegou a 2.12, fazendo entrada solene na Matriz de S. Sebastião a 6.12, e onde permaneceu, quase em reclusão, até 6.9.1859, data em que embarcou para Angra, aí aportando a 21.9.1859, agora na plenitude dos seus direitos episcopais. Dos acontecimentos que o retiveram em Lisboa até 1840, aponte-se a revolta liberal de 22.6.1828, na Terceira, que ele próprio condenou nas Pastorais de 7.3. e 12.7.1829, exortando as ilhas à prece pública pela vitória de D. Miguel. A 31.12.1833, conotado com o miguelismo, recebeu ordem de prisão, com o seu secretário fr. José de Santo Agostinho, permanecendo no Convento de S. Vicente de Paula (Rilhafoles). Liberto sete meses depois (5.8.1834), jurada a Constituição, abriu-se-lhe um período favorável no reinado de D. Maria II. O desejo que tinha a rainha de restabelecer as relações diplomáticas com a Santa Sé (tornadas efectivas em 1841) removeu-lhe, em 1839, o impedimento de governar o bispado. Terminava o longo período da diocese, por dez anos entregue a governadores intrusos (na expressão da Santa Sé), eleitos pelo poder secular, entre eles se contando o prior da Matriz de Ponta Delgada, Dr. Bernardo do Canto Machado de Faria e Maia, a quem o regente D. Pedro fez mercê de indigitar (30.5.1832) para governador temporal e visitador do Bispado. Por imposição de D. Maria II, a 9.10.1839, foi o mesmo prior nomeado provisor e vigário-geral da diocese (19.10.1839) por D. fr. Estêvão. Esta foi uma das transigências do prelado. Por sua parte, o governo cedeu à maioria das críticas feitas pelo bispo às reformas eclesiásticas introduzidas na diocese por Mousinho da Silveira, sobretudo as consagradas no decreto de 17.5.1832, todas elas anti-canónicas. As razões que em 1840 justificaram a ida de D. fr. Estêvão para S. Miguel parecem ter sido de ordem económica e não por medo dos liberais terceirenses, já que a ordem régia para a paga da côngrua apenas foi dada ao governador civil de Ponta Delgada, unicamente enquanto o prelado ali residisse. Só em 1859, ano da sua partida para a Terceira, e entrado o reinado de D. Pedro V, passou a recebê-la também pela Fazenda Pública de Angra (Pereira, 1950: 328). Empreendeu diversas reformas na diocese, muitas delas incompreendidas e objecto de controvérsias que se estenderam às páginas dos jornais. Fez-lhe sobretudo oposição o Trombeta Açoriana (1866-1869). Foi, no entanto, sempre tido como homem de virtude. Falecido na sua casa da Quinta da Misericórdia, recebeu a mais imponente manifestação de pesar das cerca de 3.000 pessoas que o acompanharam ao cemitério do Livramento. Manuel Cândido Pimentel (Fev.2002)

Bibl. Anuário Católico de Portugal (1953), Lisboa, Rádio Renascença: 312. Pereira, J. A. (1950), A Diocese de Angra na História dos seus Prelados [1.ª parte]. Angra do Heroísmo, Liv. Editora Andrade: 266-370. Id. (1963), O Seminário de Angra: Esboço Histórico. Angra do Heroísmo, União Gráfica Angrense. Arquivo dos Açores (1980-1984), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 15 vols. [contém pastorais de e documentação diversa sobre D. Fr. E. de J. M.].