Costa, Clemente Joaquim da
[N. Santo Isidoro de Eiró, Aveiro, 22.11.1819 m. S. Miguel, 10.11.1906]. Terá fixado residência na ilha de S. Miguel aos 19 anos, aqui permanecendo até à sua morte. Nunca se casou, sendo seus herdeiros usufrutuários, os sobrinhos Henrique Pereira da Costa, Clemente Pereira da Costa (médico), Maria Joana Pereira da Costa Faria e Maia e Clotilde Pereira da Costa Medeiros Albuquerque, conforme o seu testamento.
Viveu na freguesia de S. Pedro, na travessa de S. João, numa casa de grandes dimensões comprada aos herdeiros do Morgado Francisco Afonso da Costa Chaves e Melo.
A sua vida encontra-se profusamente documentada na imprensa e arquivos locais. Numa geração, Clemente Joaquim da Costa construiu uma fortuna calculada em mais de mil contos. De resto, não deixa de ser curioso verificarmos que a partir do ano de 1856, Clemente Joaquim da Costa, só com 37 anos, passou a ser incluído na Relação anual dos 40 maiores contribuintes do concelho de Ponta Delgada, facto que indicia o rápido processo do seu enriquecimento, volvidos poucos anos da sua chegada à ilha de S. Miguel. Note-se ainda que, desde a criação do Tribunal Comercial em Ponta Delgada, no ano de 1850, o seu nome sempre figurou na Lista geral dos comerciantes recenseados e inscritos para elegerem ou serem eleitos juizes jurados comerciais.
Os bens deixados por Clemente Joaquim da Costa encontravam-se divididos em pratas 935$000 (0,19%); recheio da casa, 1 768$000 (0,3%); bens imóveis distribuídos pelos concelhos de Ponta Delgada, Ribeira Grande, Povoação e Ribeira Grande no valor de 163 603$870 (34,2%); foros, 11 974$222 (3,1%); domínios enfitêuticos, 1 559$800 (0,3%); títulos 34 581$875 (7,2%); dívidas activas, 213 404$536 (44,66%) (das quais 28 433$158 de difícil cobrança) e dinheiro em depósito, 49 961$804 (10,45%). O património ilíquido de Clemente Joaquim da Costa era avaliado em 477 789$807, cabendo aos quatro herdeiros, após descontados os encargos judiciais e religiosos, 105 709$230 ex aequo.
CJC foi a única sigla comercial que Clemente Joaquim da Costa utilizou durante a sua vida útil - antes e depois de adquirida a notabilidade.
O seu primeiro estabelecimento comercial ficava no largo da Matriz, n.º 34, tendo Clemente Joaquim da Costa conservado este negócio até aos anos oitenta, quando o passou aos seus antigos empregados.
Pouco afastado do armazém de vendas, no Largo da Misericórdia Velha, a nascente da Praça da Matriz, também possuía uns granéis onde vendia milho. Se não restam dúvidas de que os primeiros lucros advieram do seu armazém, parece-nos inquestionável que a sua fortuna terá sido adquirida graças à sua intensa e bem sucedida actividade creditícia, investindo os seus dividendos, quer no aprofundamento dos seus negócios, quer na aquisição de inúmeros bens imóveis - prédios rurais e urbanos.
A necessária diversificação dos seus investimentos, aconselhou-o a subscrever acções da tutelar espanhola Companhia de seguros mútuos sobre a vida, a oferecer serviços de consignação a várias companhias de navegação - a Empresa Portuguesa de Navegação para o Brasil, a Linha de vapores portugueses para a América de J.H. Andersen & Sucessores (vapores D. Maria e Oevenum), a Companhia Portuguesa de Navegação com viagens para o arquipélago da Madeira e para o Reino, a Linha de vapores Prince e a Cuban Line nos tráfegos para Londres (vapores Caio Romano e Caio Mono), La Ligure Brasiliana de Génova para o Brasil (vapores Re Umberto e Maranhão) e, finalmente, a Orient Steam Navigation Company, Limited com tráfegos para a Grã Bretanha (vapor Garonne). Nestas linhas transportavam-se emigrantes para o Brasil e para os Estados Unidos e mercadorias nos outros percursos.
Consignação de carvão, compra de barcos, consignação de navegação para a América, para o Brasil, para a Grã Bretanha e para Portugal continental desencadearam uma crescente competição com os já cimentados interesses Bensaúde - com a firma Salomão Bensaúde e Filho (1865-1873), e, posteriormente, com Bensaúde & C.ª (a partir de 1873). Foi essa concorrência que o terá aconselhado à construção das pontes, que ficariam conhecidas pelas Pontes do Clemente, no Aterro.
Os serviços de consignação na doca de Ponta Delgada também terão aconselhado Clemente Joaquim da Costa a investir na aquisição de barcos. Assim, temos conhecimento de que subscreveu acções da Empresa de navegação a vapor entre Portugal e os Açores, na ilha de S. Miguel, que comprou a escuna Dolphin no ano de 1869, em parceria com Abraão e José Bensaúde, Salvador Azulay e Jacinto Fernandes Gil, e que adquiriu o vapor Olive em parceria com Abraão Bensaúde e Jacinto Gago da Câmara. Ao morrer, porém, apenas se lhe atribui um barco no valor de 10 contos de réis, embora com uma pequena nota a acrescentar que já não existe.
Paralelamente à sua actividade de consignação, Clemente Joaquim da Costa também investiu nos maiores empreendimentos industriais do tempo: a Fábrica de Tabaco Micaelense e a fábrica de destilação de Santa Clara. A primeira, foi fundada em 1866, como sociedade em nome individual, com o capital social de 22 800$000, distribuído, ex aequo, pelos quatro sócios - José Jácome Correia, Abraão Bensaúde, José Bensaúde e Clemente Joaquim da Costa -, e a segunda, tendo por fim a distillação de batata doce e outros productos de que se possa extrahir alcool para exportar e vender onde melhor convenha, foi fundada em 1884, detendo Clemente Joaquim da Costa 150 acções (num total de 3 754 acções).
Ainda se deve acrescentar às actividades de Clemente Joaquim da Costa, a agência da companhia de seguros Bonança. No entanto, foi a actividade creditícia aquela que lhe proporcionou, indiscutivelmente, as maiores mais-valias. Não é, pois, por acaso que se torna o agente da Caixa filial do Banco Lusitano, graças à sua grande experiência no domínio.
Clemente Joaquim da Costa conviveu, desde sempre, com a elite tradicional micaelense. Pelos cargos que foi ocupando ao longo da vida, foi conhecendo e convivendo com os centros de poder e de decisão. Pertenceu à Junta de Administração dos fundos destinados à construção do porto de Ponta Delgada, criada por carta de lei de 9 de Agosto de 1860. Da mesma forma, fez parte da Comissão nomeada pela Junta Geral do distrito de Ponta Delgada sobre o ante-projecto do caminho de ferro em S. Miguel, em 1897. As comissões de que fez parte demonstram as ligações, os sócios , os canais de sociabilidade existentes. Também participou em inúmeras causas cívicas, como se verifica nas listas de subscritores publicadas, com regularidade, pela imprensa. Assinou os Estatutos da Sociedade Teatral Micaelense, juntamente com mais seis cavalheiros da sociedade local. Faz parte da Comissão Administrativa provisória do Clube Micaelense, (antiga loja maçónica) ocupando o lugar de vogal. Pertenceu à Mesa da Direcção da Associação Comercial de Ponta Delgada em 1845 e 1846, 1848, 1852 e 1853, 1874 a 1878, 1882 e 1884 a 1892. Mas também, segundo a imprensa, em 1851, e em 1843 já tinha recebido 6 votos nas eleições para a Mesa da Assembleia.
Pertencia ao partido Progressista, apoiando o Visconde de Porto Formoso para várias legislaturas. Foi cônsul do Uruguai, pelo menos desde 1849. Foi Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Fátima Sequeira Dias (Jun.2000)
Bibl. Dias, F. S. (1995), Clemente Joaquim da Costa o homem, o empresário e o notável. População e Sociedade, rev. do Centro de Estudos da População e da Família, 3: 311-335.
