corrente dos Açores

Os Açores situam-se no interior do Atlântico Norte. O oceano circundante é dominado por dois grandes sistemas de correntes: a Corrente do Atlântico Norte, a norte do arquipélago, e a Corrente dos Açores, a sul. Ambos têm origem na Corrente do Golfo que, na zona da Terra Nova, se bifurca, dando-lhes origem (Klein e Siedler, 1989).

Em virtude da sua proximidade em relação ao arquipélago, a Corrente dos Açores é, sem dúvida, o sistema que mais directamente o afecta, quer pelas suas consequências climáticas, quer pelas suas consequências económicas (a distribuição e abundância das várias espécies de grandes pelágicos dela depende directamente).

À semelhança de “grandes rios” no seio do oceano, estes sistemas de correntes transportam grandes volumes de água, estimando-se para a corrente dos Açores um valor médio anual de 12 milhões de m3s-1, com um máximo de 18 milhões de m3s-1 na Primavera (mais de 100 vezes o volume transportado pelo rio Tejo em época de grandes inundações!).

Com uma largura média de 70 km e uma velocidade típica de 1 nó (1,852km.h-1), a Corrente dos Açores raramente atinge uma profundidade superior a 1 500m, mesmo assim suficiente para interagir com a camada heterogénea de água de origem mediterrânica que domina as profundidades compreendidas entre os 800 m e os 1800 m em toda a área a sul do arquipélago e que se estende entre o estreito de Gibraltar e o eixo da Crista Média Atlântica.

A Corrente dos Açores é também o bordo norte do Vórtice Subtropical do Atlântico Norte, separando assim a água quente e salgada (T » 18° C, S » 36.5 usp) de origem tropical da água mais fria e menos salgada (T » 13° C, S » 35.5 usp) de origem subpolar (ambas a uma profundidade entre os 100 m e os 600 m). Este facto leva-nos a designá-la com frequência por “Frente” dos Açores ou, mais correctamente, por Frente-Corrente dos Açores.

A grande instabilidade dinâmica que lhe está associada faz dela a zona de geração privilegiada da maioria da actividade de mesoscala turbulenta observada na região dos Açores (Alves, 1996). O termo mesoscala aplica-se às escalas espaciais e temporais das estruturas oceânicas e atmosféricas mais energéticas. No oceano, essas estruturas têm escalas espaciais entre os 20 e os 200km e escalas temporais que vão de alguns dias a alguns meses. Na atmosfera, as escalas espaciais são da ordem dos 1000 a 4000 km e as temporais vão de algumas horas a algumas semanas. Este comportamento turbulento está na origem da grande actividade biológica que ocorre não só na própria Frente-Corrente dos Açores, como também em torno do arquipélago, uma vez que os anticiclones que dela se desprendem atingem, em geral, as ilhas dos Açores (Alves, 1996). Na Frente-Corrente dos Acores, a designação de anticiclone aplica-se a bolsas de água tropical provenientes do lado sul da FCA, com dimensões da ordem dos 150 km de diâmetro e até 1000 m de profundidade, que rodam em sentido retrógrado com velocidade típica de 1 nó.

Embora o sistema Frente-Corrente dos Açores e a turbulência que lhe está associada sejam os grandes motores do comportamento do oceano na zona dos Açores, existem outras fontes de circulação que podem, localmente, assumir um papel preponderante. A propagação da onda de maré semidiurna através do arquipélago é, sem dúvida, a principal responsável pelas fortes correntes observadas, quer nos canais entre ilhas (no canal Faial-Pico a corrente pode atingir os 4 nós), quer nos bancos submarinos que polvilham o fundo oceânico desta área. Com uma periodicidade de cerca de 12h 25min e uma amplitude média de 1.3 m, esta onda apenas assume um relevo especial nas zonas de estrangulamento batimétrico, não tendo qualquer efeito relevante sobre os grandes sistemas dinâmicos como o da Frente-Corrente dos Açores. Mário Alves (Jul.1996)

Bibl. Alves, M. (1996), Instability Dynamics of a Subtropical Jet. The Azores Front­Current System Case (FCA). Tese de Doutoramento (Doctor Communitatis Europene), Université de Bretogne Occidentale, Laboratoire de Physique des Océans. Klein, B. e Siedler, G. (1989), On the Origin of the Azores Current. Journal of Geophysic Research, 94 (C5): 6159-6168.