Correia
Das ilhas do Faial, Graciosa, S. Miguel e Terceira. Pêro Correia (da Cunha), filho segundo de Gonçalo Correia, senhor da imemorial jurisdição e honra de Farlâes (Farelães na versão moderna), que lhe fora confirmada, a 4.12.1433, pelo rei D. Duarte, e de sua mulher Branca Rodrigues Botelho, foi fidalgo da casa do Infante D. Henrique. Este infante, como donatário da ilha do Porto Santo e preocupado com a administração da mesma, atento o facto do 1.º capitão dessa ilha, Bartolomeu Perestrelo, ter morrido ainda no começo do respectivo povoamento deixando por herdeiro, um filho menor de oito anos, nascido do seu terceiro matrimónio, concertou o casamento, julga-se que celebrado ao redor de 1457, deste Pêro Correia com Iseu Perestrelo de Mendonça, filha de Bartolomeu Perestrelo e de sua segunda mulher, Catarina Furtado de Mendonça, esta última filha bastarda de Afonso Furtado, capitão-do-mar de D. João I. Dado que a viúva do capitão do Porto Santo, Isabel Moniz, tinha manifestado a intenção de abandonar a ilha, como efectivamente veio a suceder, retirando-se para o mosteiro de Santos-o-Velho, em Lisboa, o infante D. Henrique, obteve a sua aprovação, e a de seu irmão Diogo Gil Moniz, que eram tutores de Bartolomeu Perestrelo, o moço, herdeiro do Porto Santo, para que a capitania da ilha fosse vendida a seu tio Pêro Correia. Essa transação realizou-se em 1458 e obteve a aprovação régia. Pêro Correia, sua mulher Iseu Perestrelo de Mendonça e um grupo de familiares de ambos radicaram-se efectivamente no Porto Santo que o primeiro governou pacífica e efectivamente durante mais de uma década, até à maioridade de Bartolomeu Perestrelo, o moço. Mas este, regressando de Larache, aonde fora servir o rei, aposentou-se no Caniço, na ilha da Madeira, onde residia um outro seu cunhado, Mem Rodrigues de Vasconcelos. A conselho, e com a ajuda deste, que era parente dos Câmaras, capitães do Funchal, Bartolomeu Perestrelo demandou em justiça Pêro Correia alegando que este comprara a capitania com licença régia mas sem sua outorga visto ser menor, e esbulhado de seus direitos hereditários. Teve ganho de causa e foi reintegrado na capitania do Porto Santo em 15 de Março de 1473. Pêro Correia deslocou-se à corte, onde teve conhecimento de que a capitania da ilha Graciosa se encontrava vaga, e administrada oficiosamente por Vasco Gil Sodré desde o rapto do cunhado deste, o primeiro capitão dessa mesma ilha, Duarte Barreto. Provando ser a Graciosa demasiado pequena para ser dividida em várias capitanias, Pêro Correia obteve a capitania integral da dita ilha. Segundo o consenso actual dos investigadores este, na sua qualidade de 2.º capitão-do-donatário da Graciosa, radicou-se no Outeiro das Mentiras (o mesmo local onde viria a erigir-se a futura vila de Santa Cruz da Graciosa, cerca de 1486) entre 1475 e 1485, acompanhado pela mulher, filhos, parentes e criados. A sua administração enfrentou, como era de esperar, a oposição dos antigos povoadores chefiados por Vasco Gil Sodré, confrontos esses pormenorizadamente relatados pelo Dr. Gaspar Frutuoso. O 2.ª capitão da ilha Graciosa morreu em Lisboa, em casa de seu parente o marechal D. Fernando Coutinho, em 1497. Foi sepultado na capela de S. João, de que era padroeiro, na igreja do convento do Carmo, e na mesma sepultura vieram a ser depositados os restos mortais de sua mulher D. Iseu Perestrelo de Mendonça e de seu filho primogénito Duarte Correia da Cunha.
Apesar da capitania ter saído da família os descendentes de Pêro Correia que permaneceram na Graciosa continuaram, durante séculos, a ocupar os cargos da governança da ilha aliando-se à nobreza insular e do continente, com numerosa geração actual.
Outro tronco dos Correias açorianos descende de Margarida Correia, natural de Castro Marim, no Algarve, que os genealogistas fazem derivar de D. Paio Peres Correia. Esta casou com Martim Afonso Picanço, escudeiro do infante D. Fernando, que foi juiz ordinário e vereador em Mértola, de quem teve, entre outros, Diogo Afonso Picanço, natural de Mértola, onde também foi vereador e juiz, fidalgo de cota de armas, escudeiro do conde de Faro, mencionado nas listas de mareantes da costa da Guiné em 1448. Este, «por ter cometido certo homicídio» passou à ilha do Faial, tendo povoado a Praia do Almoxarife com sua mulher Maria Afonso de Medeiros. Estes Correias Picanços deixaram numerosa descendência nas chamadas ilhas de baixo, da qual existe geração actual.
O terceiro ramo de Correias, povoadores dos Açores, provém de Jácome Dias Correia, que os genealogistas também fazem derivar da casa de Farlães, e que se radicou na ilha de S. Miguel no século XV, fundando uma grande casa que, de acordo com as fontes, rendia por ano cerca de 300 moios de trigo. Casou já na ilha com Brites Rodrigues Raposo, filha de Rui Vaz Gago, natural de Beja, e de sua mulher Catarina Gomes Raposo. Ele morreu nos Fenais da Luz em 1542 e sua mulher um ano mais tarde. De entre a sua numerosa e ilustre geração, muita da qual com representantes actuais, contam-se os marqueses de Jácome Correia, título criado por el-Rei D. Carlos I, por decreto de 31.11.1901, em favor de Aires Jácome Correia, filho do 1.º conde de Jácome Correia, Pedro Jácome Correia, e da condessa D. Libânia Amélia Ferreira..
Na ilha Terceira estabeleceu-se João Correia o velho - , escudeiro fidalgo da Casa Real, que fez o seu assento na freguesia da Agualva. Casou com Catarina Simoa, com a qual fez testamento de mão-comum em 16 de Dezembro de 1520. A sua geração aliou-se aos Machados da mesma ilha, designadamente através da linha iniciada pelo casamento de sua filha Catarina Correia com Gonçalo Anes Machado. Manuel Lamas (2002)
