coretos (arquitectura)
A palavra deriva de coro, sendo o coreto um Pequeno coro. Espécie de Coro, construído ao ar livre, para concertos musicais (Silva, 1949, III: 551). Em Portugal, como um pouco por todo o Ocidente, é frequente este tipo de pequena e singela construção em espaços públicos, inserida na tradição da música pública.
Nos Açores, dada a impressiva presença e permanência de uma cultura popular vernácula, manifesta nas várias tradições e costumes nomeadamente na música popular, no folclore - esta tradição sente-se ainda mais como presente. Monterey (1981: 251) refere a existência das bandas de música como instituição eminentemente popular, especialmente em S. Miguel e no Pico: «Por toda esta ilha se encontram agrupamentos musicais, desde a cidade às vilas, desde os centros de freguesia aos simples povoados. E, com as filarmónicas, os imprescindíveis coretos, quase sempre erectos nos adros das respectivas igrejas».
O mesmo autor lista mesmo as filarmónicas micaelenses que atingem segundo ele cerca de uma trintena. Também faz uma lista de coretos das povoações e freguesias, na mesma ilha, com o total de mais de uma dezena mas serão provavelmente ainda mais actualmente. Como em S. Miguel, também nas outras ilhas se observa o mesmo fenómeno, com mais ou menos intensidade.
O coreto tem origem certamente na necessidade de preparar acústica e socialmente os espaços públicos para a audição de música num ambiente popular e deve ter atingido mais desenvolvimento com a difusão da música em ambientes urbanos da cidade burguesa, populosa e liberal, que se firmou em toda a Europa e América ao longo do século XIX apoiada na criação de pequenos grupos de instrumentos de sopro.
De pequenas construções efémeras que se teriam utilizado para concertos em ambientes palacianos ou sacros, anteriormente a esta época, passou-se para a edificação de estruturas com carácter mais definitivo.
Basicamente o coreto constitui um corpo sobre-elevado em relação ao plano do pavimento da rua ou do largo onde se situa, ao qual se pode aceder subindo alguns degraus. Nele se acomodam os músicos da banda, com os seus instrumentos musicais. Podem ser cobertos ou a céu aberto, sendo mais frequentes nas ilhas os primeiros. O século XIX, com o seu uso frequente do ferro industrial, popularizou as estruturas metálicas de coretos, mas mais recentemente tem sido utilizado o betão armado para a sua construção. Os mais antigos, ainda oitocentistas, exibem frequentemente desenho exóticos, ligados ao formulário decorativo romântico ou Arte Nova.
A sua planta segue habitualmente uma figura hexagonal ou octogonal, regular - o que talvez se explique pela provável origem oriental dos primeiros modelos, bem como dos seus contemporâneos, os quiosques pois as formas geométricas poligonais, de seis ou oito lados, são temas preferenciais da cultura islâmica ou islamizada das áreas orientais, seguindo a tradição geometrista e abstracta; e foi aqui que o Romantismo foi buscar estas temáticas exóticas.
Voltando às ilhas, o coretos situam-se habitualmente no centro dos espaços públicos mais significativos, frequentados, representativos ou centrais de cada povoado. O jardim público, o largo central, o terreiro da feira, são as tipologias de largos ou praças mais correntes, onde o coreto se implanta.
O coreto do pequeno mas equilibrado jardim das Velas, em S. Jorge, frente à câmara municipal, em espaço central ao povoado, é um dos exemplos mais perfeitos de coreto, utilizando a estrutura metálica de finos pilares e ornada com singelos elementos decorativos. Mas muitos outros exemplo se poderiam dar, como nos jardins da Horta, no Faial, na praça municipal de Vila do Porto, em Santa Maria, ou nas várias localidades do Pico.
Em S. Miguel deve destacar-se o coreto grande do chamado Campo de S. Francisco, frente ao antigo convento mendicante, depois hospital hoje Praça 5 de Outubro. Segundo Monterey (1981:257), «o primitivo coreto, erecto nesta praça, então denominado de quiosque, teve inauguração a 12 de Maio de 1871. Destruído por um incêndio. De novo levantado, com a aparência de um pagode chinês. Inaugurado a 7 de Maio de 1972. Vítima de outro incêndio, ergueu-se o actual, cujas obras finalizaram a 15 de Outubro de 1979».
Na restante ilha há ainda coretos (todos datados por Monterey) nas freguesias da área da Bretanha e de poente, como nos Mosteiros (de 1937), na Candelária (de 1978), nos Ginetes (de 1959), no Pilar (1976) e na Ajuda (1980) para além dos sitos noutras áreas da ilha, como o Faial da Terra (1962), ou em povoações mais importantes como Vila Franca (1966), Povoação (1932) ou Ribeira Grande.
O aspecto importante, funcional, a destacar no coreto é o da sua importância agregadora da vivência da comunidade urbana, especialmente em períodos de feiras e festividades: pólo central de um espaço público, constituindo como que um palco elevado, cénico - qual templo erigido à música popular - ele ajuda a constituir e sedimentar a dimensão colectiva, urbana ou rural, das comunidades açóricas. José Manuel Fernandes (Abr.2001)
Bibl. Monterey, G. (1981), Santa Maria e São Miguel. Lisboa: Ed. do autor. Silva, A. M. (1949), Grande Dicionário da Língua Portuguesa [«Dicionário de Morais»]. 10.ª ed., Lisboa, Ed. Confluência.
