Corcuera y Mendonça, Iñigo Hurtado de (D.)
Cavaleiro da ordem de Santiago e do Conselho de El-Rei. Substituiu o governador do Castelo de S. Filipe do Monte Brasil, mestre de campo D. Pedro Esteban dAvila, chamado à corte para se justificar da acusação de parcialidade e de favorecimento a um dos bandos organizados pelos principais da Cidade de Angra, na disputa por cargos camarários e da Misericórdia (1625- 1628).
«Era este desastrado homem naturalmente malévolo, mal intencionado, imprudente e teimoso, e sobretudo levado de ambição, todo prezado de absoluto». Este juízo do P.e Maldonado assenta, curiosamente, não em conflitos havidos com a população, tal como acontecera com D. Pedro Esteban dAvila, mas no comando do próprio presídio espanhol. Como diziam entre si os seus subordinados descontentes, «estando o governador bem com a cidade e cabido, não podia ir bem com os soldados». O maior obstáculo ao governo de D. Iñigo terá sido de natureza financeira: interrompido o comércio com os países do Norte da Europa, faltaram à alfândega os rendimentos necessários ao pagamento dos soldados do presídio. E os escassos meios de que dispunha o governador, foram distribuídos preferencialmente pelos soldados novos e solteiros, em prejuízo dos soldados velhos e casados que pouco mais recebiam que para vinho, pão e barbeiro. Entenderam, então, alguns soldados fazer chegar, sob anonimato, o seu descontentamento à corte, nomeadamente através de D. Pedro dAvila que encaminhou a correspondência que lhe foi dirigida para Filipe IV de Espanha, oferecendo-se, na oportunidade, para regressar ao Castelo de S. Filipe, em cuja propriedade ainda estava provido, a restaurar a ordem. Informado destas movimentações, D. Iñigo foi implacável na perseguição aos supostos autores das cartas anónimas, recorrendo à tortura e à sua condenação à morte, acusados de motim em processos inconclusivos conduzidos por gente da sua confiança. A vítima mais notável da sanha do governador foi o capitão Filipe de Espínola Queirós, sobrinho do primeiro governador do Castelo, D. Diogo de Miranda Queirós, que com este viera para a Terceira e aqui casara com D. Francisca de Mello, dama da nobreza local. Antigas rivalidades entre D. Iñigo e Filipe de Espínola, nascidas no tempo de juventude de ambos em Castela, aliadas ao facto deste oficial espanhol ter ficado de procurador do governador D. Pedro dAvila enquanto chamado à corte, estiveram subjacentes a um processo manipulado que levou à execução do capitão.
Pela sua crueldade, pelos seus excessos foi chamado a Madrid e preso. O processo contra ele instaurado terminou, porém, sem condenação, ficando D. Iñigo escandalosamente impune pelos crimes praticados.
Sem nunca ter assumido a sua efectiva propriedade, se bem que com autoridade para exercer a generalidade das funções de comando e de gestão dela decorrentes, foi D. Iñigo Hurtado de Corcuera y Mendonça substituído no governo do Castelo de S. Filipe do Monte Brasil, pelo mestre de campo D. Diogo Fajardo. Manuel Faria (2002)
Bibl. Drummond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura, I. Maldonado, M. L. (1990), Fenix Angrence. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, II.
