contistas
O fenómeno da insularidade deixou marcas no espírito do povo açoriano. Cinco séculos de isolamento físico, de contacto permanente com o mar, de horizontes finitos, de cataclismos vulcânicos, de uma religiosidade que foi gerada no terror sagrado de sismos e vulcões são factores que marcaram e moldaram definitivamente o modo de ser, de pensar e de agir desse povo - um povo historicamente definido, dotado de um imaginário, de uma memória e possuidor de uma cultura e de uma identidade próprias.
A terra e o povo, como marcas de uma açorianidade (conceito criado por Vitorino Nemésio e que traduz a influência do meio geográfico no espírito dos açorianos) estão bem patentes nas obras dos escritores açorianos. Há, por conseguinte, uma expressão literária açoriana, que deverá ser entendida como um fenómeno de especificidade literária, inserido no contexto da literatura de língua portuguesa.
Infelizmente, a fragilidade das estruturas culturais dos Açores, a quase inexistência de circuitos de produção do livro e sua distribuição dificultam o conhecimento de toda uma produção literária açoriana que, desde meados do século XIX até aos nossos dias, tem conhecido alguma pujança e uma indiscutível qualidade.
São com estes pressupostos que metemos mãos a este trabalho, o qual não perderá nunca de vista os importantes e decisivos contributos de dois autores que, em contextos diferentes, abordaram o tema em epígrafe, tendo localizado os seus estudos num espaço temporal que vai até ao ano de 1978: Pedro da Silveira (Os Açores, Grande Dicionário da Literatura Portuguesa, Lisboa, s.d., Iniciativas Editoriais) e João de Melo (Antologia Panorâmica do Conto Açoriano, Vega, 1978).
É comum dizer-se que o aparecimento de uma novelística, enquanto reconhecida como tal, remonta necessariamente à sua primeira cronologia. Tome-se, como exemplo, o mundo literário português que se reconhece a partir da poesia galaico-portuguesa, dos cronistas e do teatro vicentino, isto é, em épocas já posteriores à nacionalidade.
Nos Açores há um autor e uma obra que inauguram uma, por assim dizer, literatura açoriana: Gaspar Frutuoso (1522-1591), com Saudades da Terra. O longo hiato de tempo que medeia entre a publicação desta obra e outras pequenas obras poéticas e romanescas de autores menores, funciona como premissa do embrião literário, perdido ora em citações de um dizer popular de tradição, ora em alusões de nenhum rigor histórico. Passara, já então, mais de um século sobre o que se convenciona ter sido o início do povoamento das ilhas açorianas. Exceptuando-se dessa literatura fradesca a pena vigorosa de Frutuoso, fundador de uma novelística pastoril que descende de Bernardim Ribeiro, tudo o resto se leva na conta dos recreios da oratória, formando um espesso enredemoinhado onde será pouco aconselhável penetrar.
Quase três séculos para diante, e o panorama não é significativamente diverso: aí abunda ainda esse subproduto de talha fradesca e seus apêndices ideológicos, apostado numa marca emblemática de condicionante religiosa tão concentracionária quanto erudita.
Razões de arrumação material e de uma desejada objectividade sobre o eixo que nos propomos aqui traçar levam-nos por agora a recusar qualquer importância à ficção que antecede no tempo os meados do século XIX. Grande suporte dessa ficção é, de facto, o século XIX, período inaugural por excelência de uma novelística que conhecerá sucessivas variações temáticas, até se fixar na reposição do viver insulano. E, ainda que partindo desse marco fundamental, vamos também dispensar-nos de adiantar vastas considerações acerca de um ou outro contista cujos livros tiveram, no máximo, o mérito de colmatar a brecha então existente. Citaríamos para o caso autores como José do Canto, José de Torres e Augusto Loureiro, cujo livro Serões de Inverno (1870) não sendo nenhuma obra prima, é de leitura agradável.
Sempre ligado à fundação de órgãos de imprensa, o projecto cultural açoriano polariza, primeiramente, ao redor do semanário hortense O Incentivo (1857), onde alguns daqueles e outros contistas deixarão produção de interesse. Seriam, aliás, o Faialense (1851), órgão percursor de uma extensa fauna romântica e, depois, O Açoriano (1883), este, sim, elemento aglutinador de várias tendências, as grandes raízes dessa dinâmica literária e cultural orientada no sentido de uma novelística e também de uma poética progressivamente integradas no quotidiano da terra e dos homens. Os intelectuais, na Horta, formavam a notável legião de uns trinta a quarenta poetas e prosadores que editavam jornais e publicavam livros. Alguns nomes: João José da Graça, Manuel Zerbone, Lacerda Bulcão, Manuel Greaves, Machado Serpa, Manuel Joaquim Dias, Roberto Mesquita, Florêncio Terra, Rodrigo Guerra, Garcia Monteiro, Nunes da Rosa, António Baptista, Street de Arriaga, Ernesto Rebelo, Luís de Barcelos, Osório Goulart, Abílio Greaves, Marcelino Lima, Bernardo Maciel, Silva Peixoto, António Ferreira de Serpa, Júlio Andrade, entre muitos outros.
Estendendo-se para outras ilhas, esse movimento cultural da Horta viria a remeter para uma escrita quase comunitária, mas ainda timidamente voltada para os homens do seu tempo. Levava, no entanto, diante de si a aparente astenia literária de Angra e Ponta Delgada. Ernesto Rebelo, Manuel Zerbone, Rodrigo Guerra, Florêncio Terra e mesmo Teófilo Braga, publicarão, nos citados periódicos, alguns contos de certa feição transitória, não perfeitamente localizada. Certo é que parte desse material disperso apenas conhecerá a cartolina e a lombada no dealbar do século XX e só então iremos surpreender os traços característicos do pequeno universo novecentista. Contistas algo singulares, dir-se-ia que desamarrados do contexto, são-no Silveira Moniz (Contos Insulanos, s.d.), Moniz de Bettencourt (Insulares, 1907) e Manuel da Câmara (Vinte Contos Insulanos, 1917).
Uns furos acima de toda esta ficção de passagem, está Armando Cândido, o legionário micaelense que viria a fazer carreira de deputado, e que em 1938 publicou Eira de Pecados, livro de contos que revela um escritor adulto, com alguma perspectiva do imaginário sobre o real da sua ilha.
Até onde nos foi dado penetrar, dois nomes apenas do núcleo hortense se impuseram à nossa consideração: Florêncio Terra e Rodrigo Guerra. Do primeiro, foram publicados, postumamente, Contos e Narrativas (Horta, 1942), Contos de Natal (Horta, s/d), Munhecas (histórias infantis, Angra, 1978), Água de Verão, Contos e Narrativas (Horta, 1987), e o romance O Enjeitado (Horta, 1988). Do segundo autor, foi publicada a colectânea de contos A Americana. Deixaram-nos, um e outro, o que talvez se possa classificar de escrita bravia, algo imediatista, em cujas máximas não é difícil surpreender uma certa caracterização da época a que remontam. Com mão segura eles ultrapassam o provincianismo híbrido e interceptado da maioria dos seus contemporâneos, dando-se então início a uma literatura interessada em dar testemunho do tempo e do lugar em que é construída.
Em 1904, ainda na cidade da Horta, reúne Nunes da Rosa num volume de 120 páginas (Pastorais do Mosteiro) parte da sua produção de contista, que viera publicando nos jornais. E só em 1925 lhe darão à estampa um segundo livro de contos, Gente das Ilhas (Bandeiras, Pico), de qualidade muito superior ao primeiro. Ainda deste autor será publicado, em 1988, o livro Madrugada Entre Ruínas (Horta), repositório de escritos que escreveu para O Telégrafo, alguns deles assinados com o pseudónimo de João Azul. O seu estilo demonstra a contenção serena do discurso de narrar, sendo que da sua escrita poderemos fruir um certo prazer do texto, no conceito e no termo de Roland Barthes.
Aos escritores da terra e do mar que são Florêncio Terra e Rodrigo Guerra, sucede o Nunes da Rosa da escrita poliédrica: a terra, o mar, a emigração de partida e regresso e dos homens que permanecem amarrados ao sonho da viagem.
Citados a propósito de um paralelo de gerações, estes homens de fim de século obscurecem um sem-número de nomes e obras de baixa estatura formal. Num repentino parêntesis, caberia aqui referir ainda Maximiliano de Azevedo com as suas Histórias das Ilhas (1899), apenas para nos determos na profunda ambiguidade que este título nos sugere e no paradigma que nele se introduz a propósito desta literatura de gosto, encomendada por uma burguesia que se estafa a consumir esquemas de arte feitos à sua medida, e Faria e Maia, pela razoável qualidade do seu romance Beatriz (1900).
Já no século XX e para além dos casos de Manuel da Câmara, Júlio Andrade (Calhaus rolados, 1958) e Armando Cândido, ainda antes da infância do neo-realismo insular, lemos também Aventura de Baleeiros, de Manuel Greaves, livro publicado em 1950, de tema marítimo, como o título sugere, bem como Gente do Monte, I e Gente do Monte II - 1933 e 1956), de João Ilhéu, escritor terceirense nascido em 1896 e autor de contos muito desiguais, com traços de uma narrativa tipológica. Não sendo um escritor de primeira grandeza, assinou algumas páginas de mérito, como o provará a leitura do seu conto Justiça da Noite (op. cit.).
De Armando Cortes-Rodrigues ficaram-nos algumas prosas livres que marginam a sua poesia lírica e a sua razoável experiência dramatúrgica de Quando o Mar Galgou a Terra (1940).
A estes se seguirão três prosadores de valor muito desigual, merecedores, no entanto, de nota alta: Vitorino Nemésio (1901-1978), grande mestre de todas as gerações, Diogo Ivens (1903-1950) e Maduro Dias (1904-1972). Ivens acerta com a recriação do indivíduo no sentido da sua universalidade. Decididamente se encontra na sua obra (quase toda inédita) o eclodir de uma consciência criadora que se cruza e identifica com o mundo do trabalho. Operários e camponeses figuram com frequência nos seus contos, alternando a cidade com os campos e descendo por vezes aos caminhos do mar. E eis que chegamos à figura cimeira de todo o edifício literário açoriano. Com Vitorino Nemésio e os seus livros O Mistério do Paço do Milhafre (1949), esse enorme fresco em prosa que é o romance Mau Tempo no Canal (1944) e as crónicas de Corsário das Ilhas (1956) opera-se uma definitiva viragem no discurso e na linguística da açorianidade. Linguística, é bom sublinhá-lo, que se não limita a transcrever com algum rigor a fala açoriana; recria-a, redescobre-a, sem necessidade de a instrumentalizar ou de lhe provocar a menor deformação. E não apenas isso: Nemésio é o que se pode chamar um criador da Língua Portuguesa, ao lado de um Camilo ou de um Aquilino, tão original é a sua palavra. O admirável filólogo tinha do signo a exacta noção das suas motivações: os planos fónico, semântico e sintáctico de uma linguagem afectiva e nobre. Maduro Dias, que escreveu Contos Açorianos (1974), ficará na história por ter sido um estimável escritor regionalista (contrariamente a Nemésio, não soube ser universal a partir das ilhas). E de Dinis da Luz ficará o seu livro Destinos do Mar, de onde ressaltam dois ou três contos de antologia e não mais.
Aliás, o neo-realismo aí estará. Vem na voz de todos esses homens que apostam o seu nome na descoberta de novas conotações para o referente que lhe é comum. Tentam interceptar, mais dos que os dramas latentes da pequena comunidade que os rodeia, as angústias de um quotidiano finalmente motivado para a causa/consequência da insularidade e para a recepção de um tempo universal. A fase genética desse neorealismo vai longe. Em 1953, Eduíno Borges Garcia é o primeiro a lançar nos Açores a apologia de uma verdadeira Literatura Açoriana, no jornal A Ilha, numa série de artigos que ficou como sinal de aviso contra o produto fácil e os equívocos da literatice inflacionária. São muito agradáveis os seus contos reunidos no livro Ilhéus, Portugas & Outros (Salamandra, 1995).
Ainda nos anos 50, surgem, em Ponta Delgada, alguns cronistas e contistas, alguns dos quais haveriam de ficar pelo caminho: Manuel Barbosa (Enquanto o Galo Canta, Ribeira Grande, l985, é o seu único livro de contos), Manuel Ferreira (o celebrado autor do livro O Barco e o Sonho, Ponta Delgada, l978), Fernando de Lima, Eduardo Vasconcelos Moniz, Ruy Galvão de Carvalho (que se ficou por alguma obra poética e pela ensaística voluntariosa), Eduíno de Jesus, poeta, ensaísta e também antologista. O mais novo do grupo, Fernando de Lima, chegou a ensaiar alguns quadros sobre a emigração mas logo se desligou da escrita.
Apenas Dias de Melo se decidirá pela assunção integral da sua condição açoriana, metendo mãos à unívoca trajectória da vida épica dos homens do mar. Iniciando-se na ficção com Mar Rubro (1958), o ciclo haveria de continuar com Pedras Negras (l965) e finalizar com Mar pela Proa (1976). Será com esta "trilogia da baleia" que este autor picaroto ficará na história da literatura portuguesa. Trata-se de um repositório afectivo, moral e mítico da criação dos dramas da pesca da baleia, da luta dos homens pela sua dignidade numa perspectiva humana e marxista de exploradores (proprietários das companhias baleeiras) versus explorados (os baleeiros). Nos últimos 20 anos, tem Dias de Melo vindo a escrever um sem número de livros, nos quais revela a memória do vivido e do sentido.
Com Cinco Histórias Sem Classificação Especial, livro publicado em 1953, Carlos Wallenstein traz-nos uma maneira de contar por vezes fantástica e alucinante, integrada por uma capacidade inventiva digna de registo e infelizmente não continuada.
Ruy-Guilherme de Morais escreveu duas pequenas obras de ficção: As Terras da Santa, de 1960, sendo que em 1993, a editora Salamandra reedita As Terras de Santa & outros Causos, onde recupera uma determinada hipótese sobre o povoamento das ilhas, passando de seguida pelo caciquismo, pela ganância da política e pela pouco escrupulosa posse da terra, e Passaporte de Emigrante (Ponta Delgada, 1961), dois contos que são outras tantas faces da emigração e suas marcas. Já em 1958 nos aparece um livrinho de contos de comedido interesse. Referimo-nos a Amanhã Será o Mesmo, de Sousa Nunes: a infância recuperada com alguma probidade verbal e agradável trânsito diegético, pondo de parte por agora alguns tons esbatidos da sua linguagem. Por essa altura conheceremos ainda, de Carreiro da Costa, Contos Largos, e de Maria Brites, que não sendo açoriana de nascença, viveu pelos Açores e dessa experiência resultou Um Saco de Diabelha (1969), mancheia de contos que, pelo seu conteúdo manifestamente micaelense, atinge um nível linguístico nem sempre conseguido por muitos dos que naquelas ilhas aprenderam a amar e a conhecer os seres e as coisas.
Uma nova geração de poetas, escritores, intelectuais e artistas plásticos surgirá em redor do suplemento Glacial, do jornal terceirense A União (1968-1974). Mais do que uma página literária fortemente localizada, Glacial aproxima gerações etárias e conceptuais distintas, parte da ilha mas abre-se ao mundo, transforma-se num importante movimento cultural que veicula uma consciência colectiva sobre a identificação do povo açoriano. Este suplemento teve outra face: a edição de alguns livros de diversos autores, através de uma colecção que se designou por Gávea/Glacial. E deixou marcas nos anos subsequentes: a fundação de cooperativas livreiras e galerias de arte, o aparecimento de novas páginas literárias, a quase constante fermentação de sucessivas dinamizações culturais, etc. Desse movimento farão parte autores como Emanuel Félix, Almeida Firmino, Rogério Silva, Carlos Faria, David Mestre, Cunha Oliveira (que assinava poesia com o pseudónimo de Silva Grelo), Álamo Oliveira, Santos Barros, Ivone Chinita, Vasco Pereira da Costa, Marcolino Candeias, Urbano Bettencourt, Rui Duarte Rodrigues, António Cunha Ribeiro, etc.
Nos anos 60 e 70, dois autores açorianos são já consagradíssimos a nível nacional: Vitorino Nemésio (que, em 1971 publica um caderno antológico de contos, crónicas de viagem e relatos diversos intitulado Quatro prisões Debaixo de Armas) e Natália Correia (que se afirma na poesia e no teatro). A década de 70 é também a afirmação de José Martins Garcia como grande prosador, poeta e ensaísta. Em 1974 publicou dois livros de contos em que fala da terra açoriana vista no quadro polissémico do motivo social e da metáfora crítica: Katafaraum É Uma Nação e Alecrim aos Molhos, seguindo-se o romance Lugar de Massacre (1975), sendo este um dos primeiros livros de ficção sobre a experiência da Guerra Colonial. A par de vários outros romances, publicará os seguintes livros de contos: Revolucionários e Querubins (1977), Receitas para Fritar a Humanidade (1978), Morrer Devagar (1979) e Contos Infernais (1987).
Da geração de escritores do 25 de Abril Com o advento da revolução do 25 de Abril de 1974, muitos escritores açorianos irão conhecer uma nova consciência literária, sendo que é a partir daquela data que toda uma geração de autores produziu ou está em vias de produzir as suas obras maiores.
Falar desses escritores é falar dos retroactivos da memória. A memória da ilha é, ainda e sempre, a temática primeira e privilegiada. A memória da infância insular, a emigração, o devir do tempo, o amor, o mar, a terra, a vida, o sonho e a morte são, por isso mesmo, os veios temáticos mais constantes nas suas escritas. Encontra-se, nos seus livros, uma permanente relação dialética entre a ilha e o mundo, funcionando a ilha como uma alegoria ou um símbolo do mundo.
À boa maneira nemesiana, a ilha, enquanto espaço do vivido, do sentido e do evocado, é materializada não apenas na sua vertente realista mas, sobretudo, na sua vertente mítica.
Por outro lado, há nas obras destes autores saídos da geração do 25 de Abril, uma certa concepção anti-clerical (explícita nalguns, implícita noutros). A isso não será indiferente o facto de um significativo número desses autores ter passado pelos bancos do Seminário. Porque esta é uma geração estigmatizada pelos dogmas da religião e da instituição militar. E também pelos dogmas da política, já que o Verão (quente) de 1975 fez escorraçar das ilhas alguns desses escritores. Por isso mesmo, escrever funcionará como uma forma de catarse e de exorcismo da memória. Por exemplo, a memória dolorosa da Guerra Colonial, de cuja experiência alguns escritores (José Martins Garcia, João de Melo, Cristóvão de Aguiar e Álamo Oliveira) souberam retirar o testemunho literário.
Do 25 de Abril aos nossos dias, vejamos qual tem sido a evolução do conto açoriano e seus autores.
Em 1977, é publicado o livro Ilhas, contos/crónicas, da dupla autoria de Santos Barros e Urbano Bettencourt, dois grandes poetas.
Por essa altura, o Instituto Açoriano de Cultura, através da sua colecção Ínsula, publicou Contos Açorianos, em dois volumes, divulgando autores nascidos no arquipélago.
O ano de 1978 marca o aparecimento de Raiz Comovida - a Semente e a Seiva, de Cristóvão de Aguiar, romance da infância açoriana recuperada e que ensaia uma experiência linguística sem precedentes. A trilogia romanesca continuaria com Raiz Comovida II, Vindima de Fogo (1979) e Raiz Comovida III, o Fruto e o Sonho (1981). A par de outros romances, novelas, e narrativas de cunho biográfico, este autor escreverá um livro de contos: A Descoberta da Cidade e Outras Histórias (1992). 1978 é também o ano da publicação do livro de contos Nas Escadas do Império, de Vasco Pereira da Costa, que após fazer uma incursão na novela, Amanhece a Cidade (1979), regressa ao conto com os livros Plantador de Palavras, Vendedor de Lérias (1984) e Memória Breve (1987), ele continua a dar boa conta de si na poesia.
Onésimo Teotónio de Almeida revela-se, em 1983, como contista de mérito ao escrever o livro Sapateia Americana, oferecendo-nos outros olhares sobre a vivência e as experiências colhidas nas comunidades emigrantes. A par da ensaística e do texto dramatúrgico, tem este micaelense vindo a notabilizar-se na crónica e como comunicador nos media.
Daniel de Sá, que em 1982 havia escrito Génese, uma novela que tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola, publicará, em 1985, um livro de contos de temática açoriana (Sobre a Verdade das Coisas) e, entre novelas, ensaio, romance e teatro, escreverá um outro livro de contos (de Natal): A Longa Espera (1987).
João de Melo, que já em 1975 se havia estreado com Histórias da Resistência, dá à estampa Entre Pássaro e Anjo (1987), livro de contos que tem o melhor acolhimento junto do público, sendo que, no ano seguinte, com a publicação do romance Gente Feliz com Lágrimas, recebe o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e vê definitivamente o seu nome consagrado na literatura portuguesa. Em 1992 voltará ao conto (Bem-Aventuranças), e continuará a escrever romances, sendo editado por duas prestigiadas editoras portuguesas.
Outro contista de méritos conhecidos é Manuel Machado. Os seus livros Enquanto os coveiros dormem (1981) e Virtudes, Reis, Moscas & outras hortaliças (1988) dão-nos conta de uma escrita inesperada, radical e surrealista.
Nos anos 90, Álamo Oliveira, poeta e dramaturgo, lança-se à ficção narrativa, escrevendo quatro romances e dois (belíssimos) livros de contos: Contos com Desconto (1991) e Com Perfume e com Veneno (1992).
Nos últimos anos outros contistas açorianos têm despontado: Luís Fagundes Duarte (Histórias dAssombração, 1988), António Bulcão (Histórias Desta e Doutras Vidas, 1989), Manuel Ferreira Duarte (A Banda Nova e Outras Histórias, 1991), Fernando Melo (Fragmentos da Memória, 1993), Humberto Moura (Na Diáspora do Tempo, 1996, e Errâncias de Pedra e de Sal, 1998), Madalena Férin (Dormir com um Fauno, 1998), José Francisco Costa (Mar e Tudo, 1999) e, por último, aquele que nos parece ser o grande contista açoriano do princípio deste novo milénio: o faialense João Carlos Fraga, com dois livros absolutamente hilariantes e fantásticos: Histórias de Anticiclone, de Rum e Outras Coisas (1997) e A Gargalhada do Melro Preto de Bico Amarelo (2001).
Se evolução houve na ficção narrativa açoriana ao longo das últimas décadas, tal não se verificou apenas a nível da temática, mas sobretudo em termos de processo de escrita. Assim de um certo neo-realismo ilhado (tardiamente absorvido nos anos 50 e 60) por um Dias de Melo, evoluiu-se para um realismo insulado (sobretudo com a geração da Glacial), que mais tarde desembocaria nalgumas interessantes experiências do realismo fantástico.
Actualmente verifica-se que, a pouco e pouco, os escritores açorianos vão-se deixando de nebulosidades narrativas e optam decisivamente por uma escrita que parte do eu para os outros. Não prescindindo da sua condição insulada, estes autores têm vindo a abrir-se ao enigma do mundo, numa escrita que busca espaços do universal. Este é seguramente um caminho a ser trilhado. Para que a açorianidade literária não se deixe ficar ensimesmada nas ilhas. Victor Rui Dores (Out.2002)
