construção naval
Nos primeiros séculos de ocupação do arquipélago, a construção naval terá estado fundamentalmente virada para a epopeia marítima portuguesa. Salvo o caso, a que já Gaspar Frutuoso alude, do galeão Trindade que foi lançado ao mar na Prainha do Sul da ilha do Pico daí Prainha do Galeão chamada que Garcia Gonçalves Madruga «deu em pagamento a el-rei Dom João, terceiro do nome, por certas dívidas que lhe devia» (Frutuoso, 1978), esta actividade inicialmente deve ter-se concentrado nas ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial. Por outro lado, embarcações de boca aberta para a pesca artesanal terão sido em todos os tempos construídas em várias partes de todas as ilhas, incluindo o Corvo.
Em nossos dias, e com primazia de há mais de cem anos e esta parte, ao falar-se de construção naval vêm logo à mente as oficinas de Santo Amaro, industriosa freguesia picoense que mantém o cognome de Estaleiro dos Açores. E assim é, se nos ativermos aos barcos de cabotagem, iates e chalupas, que singraram por todos os canais a ligar as parcelas açorianas pelo mar separadas. A quase totalidade desses cascos, hoje desaparecidos, como o Santo Amaro, Espírito Santo, Terra Alta, Helena e Maria Eugénia, e tantos mais que os precederam, saíram das suas carreiras de montagem. O mesmo se diga de outras embarcações de tráfego local como a famosa lancha Calheta, mas foi pela quantidade e também pela elegância de linhas e conforto de instalações da grande maioria da frota de traineiras da pesca do atum, ali delineadas e concretizadas para todo o arquipélago e até para a Madeira, que os artífices de Santo Amaro se tornaram ainda mais conhecidos e procurados.
Neste ramo, mais que na especificidade das tarefas, importaria falar dos construtores, nalguns que se notabilizaram no exterior, designadamente nos E.U.A. e nos demais, que tantos foram, que nas suas terras de origem permaneceram. Vêm à cabeça Daniel Nunes, Estulano Nunes e Manuel Inácio Nunes da mesma linhagem, sendo que o último ganhou renome e evidência no seu disputado estaleiro em Sausalito, marco da especialidade na grande nação americana, mas que nunca deixou de ajudar com a sua arte os seus conterrâneos.
Em Santo Amaro se fez escola e, conseguida a necessária e exigente aprendizagem, cada qual montava oficina própria como elo de uma cadeia em que se sucederam Mestre Manuel António Furtado Simas (mais conhecido por Manuel Bento), Mestre José Joaquim Alvernaz, Mestre Manuel Joaquim de Melo, Mestre José Teixeira Costa, Mestre Júlio Matos de Melo e o actual Mestre João Alberto Neves que, embora jorgense de nascimento, herdou e continua a tradição da construção naval na ilha do Pico. A completar essa galeria de homens ilustres, deve referir-se o nome do santamarense ainda vivo, Comendador José Vitorino da Silva, que nos estaleiros de San Diego (E.U.A.) tem projectado verdadeiros prodígios no âmbito da construção naval, com talento e engenho reconhecidos internacionalmente. Dos últimos dos seus calafates, mencionem-se Mestre Manuel Dias Vieira e seus filhos Manuel e José.
Todavia, antes dos ciclos acima referidos, apareceram os barcos a remos e à vela, aparelhados à latina, que tiveram muita expressão em Vila Franca do Campo na ilha de S. Miguel e que abundaram na ilha do Pico, pelo menos a partir dos começos do século XVIII, em grande parte dos seus portinhos, com destaque para os da chamada fronteira. Das muitas dezenas de que há notícia ainda navegam, de há muito motorizados, o centenário Rival e o veloz Adamastor, baseados na doca da vila da Madalena.
Da mesma freguesia da Candelária do Pico foram Mestre Guilherme da Rosa Lemos e seus irmãos Alberto e José. Os dois últimos possuíram credenciado estaleiro na costa leste dos Estados Unidos da América do Norte e o primeiro distinguiu-se pelo risco e feitura de muitas das embarcações ao serviço do porto da Horta, de apoio aos milhentos navios que ancoravam fora e dentro da sua baía. De resto, ali já era viveiro antigo de calafates, postos à disposição de D. Pedro IV, em 1832, para reparação e aprontamento de parte da armada que transportaria os seus 7500 bravos ao Mindelo. Ainda hoje o sítio conserva o nome de Arsenal, com placa alusiva a memorar o feito.
Da maior relevância é a era da baleação, que os açorianos, mormente os picoenses, trouxeram da prática adquirida nas barcas americanas. No começo utilizavam os botes que vinham desmontados dos Estados Unidos, que não iam além dos trinta pés de comprimento. Com o objectivo de tirar o máximo de rendimento quando à vela na perseguição dos cetáceos - chegando a dar as catorze milhas - os botes foram progressivamente acrescentados até aos quarenta pés, afeiçoados na finura do seu recorte, tornados mais leves e ligeiros, acabando por se atingir a perfeição no risco e materiais da canoa baleeira picoense, considerada mundialmente uma autêntica maravilha das maravilhas no âmbito da construção naval.
É sabido que construiu o primeiro bote baleeiro nos Açores, nas Lajes do Pico, Mestre Francisco José Machado, por alcunha o Experiente, que encabeçou uma verdadeira dinastia de construtores abalizados: seus filhos Manuel José Machado, Joaquim José Machado e António José Machado e, depois, seus netos Francisco Alves Machado, Manuel Alves Machado, Firmínio Alves Machado e Manuel Quaresma Machado.
Na oficina dos irmãos Machado, desde o assentar da quilha até o armar dos remos, aparelhava-se um bote no curto espaço de um mês. Além dos botes fizeram lanchas e traineiras.
Na mesma vila das Lajes muitos foram os botes que saíram das mãos do Mestre António dos Santos da Fonseca, conhecido por Mestre Antonico, que também fez lanchas da baleia e traineiras do atum.
Em S. Roque do Pico, outra importante base de caça ao cachalote, pontificaram nos estaleiros da Furna Mestre Manuel Vieira Maciel na construção de canoas e Mestre Manuel José da Silveira, tratado por Mestre Janeiro, o artista que à sua parte maior número de lanchas da baleia fez lançar ao mar, a par de umas tantas traineiras para a captura de tunídeos.
Belos botes, lanchas e traineiras também os fez, na Calheta do Nesquim, Mestre António José da Silveira, que dava pelo apelido de o Racha, mas os exemplares de canoas mais falados em todo o Pico, pelo seu talho e esmerado acabamento - verdadeiras peças de Museu - devem-se a outra geração que deixou fama, actuando no lugar da Aguada nas Pontas Negras, concelho das Lajes do Pico: Mestre Manuel Machado de Oliveira e seus filhos, Mestres João Baptista Machado, José Machado de Oliveira, António Machado de Oliveira e Francisco Machado de Oliveira.
Do Pico irradiou a baleação para as demais ilhas dos Açores, sendo que o último bote foi construído em 1948. Em menor escala, noutras partes se fizeram embarcações para a caça ao cachalote, cabendo aqui o apontamento de que a mais falada lancha de todos os tempos, de nome Walquiria, que ainda hoje se conserva, foi construída nas Velas de S. Jorge, a cargo de Mestre José Maria Gambão Júnior.
Prosseguindo nas novas tecnologias, fabricam-se actualmente barcos para a pesca e recreio, em fibra de vidro, nas ilhas de S. Miguel e Terceira e em Santo Amaro do Pico. Tomaz Duarte Jr. (2002)
Bibl. Frutuoso, G. (1978), Livro Sexto das Saudades da Terra. 2ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada.
