Congresso Açoriano
A ideia da realização de um congresso açoriano esteve presente em vários momentos do processo de construção da unidade açoriana. Inicialmente, em 1908, defendeu-se a sua realização nos Açores, mas não foi possível criar condições para que o desejo se tornasse realidade. Na década de 20, quando se desenrolava no continente o movimento regionalista, várias províncias promoveram os respectivos congressos o que deu novo impulso aos açorianos. O objectivo continuava a ser o mesmo: juntar os açorianos de todas as ilhas para discutirem os problemas comuns e apresentarem propostas de resolução ao Poder Central. Apesar do discurso e da campanha na imprensa em torno da unidade açoriana, os bairrismos e desconfianças funcionaram sempre como um obstáculo ao diálogo conjunto.
Em 1938, graças ao esforço da direcção da *Casa dos Açores, em Lisboa, foram ultrapassadas várias dificuldades e conseguidos os apoios necessários para um congresso com dezenas de participantes que se deslocaram dos Açores. A realização do congresso revela um espírito unitário mais fácil de obter longe da terra natal e reflecte a dinâmica de intervenção que o lobby organizado em torno da Casa dos Açores vinha imprimindo. O facto de os Açores estarem longe do Poder Central e de serem difíceis as deslocações das autoridades regionais ao continente levaram a que os açorianos residentes em Lisboa assumissem o papel de interlocutores frequentes com os diversos ministérios, na defesa dos interesses das ilhas. Estas razões justificaram a realização do congresso em Lisboa, em Maio de 1938, com o patrocínio da Presidência da República e muitas outras autoridades. Nas numerosas comunicações, que abarcaram aspectos da vida económica, social, política, cultural e religiosa, foi feito o levantamento dos problemas insulares mais prementes e foram apresentadas propostas de resolução aos poderes públicos. Apesar dos organizadores estarem em perfeita sintonia com o Estado Novo e os discursos serem bastante moderados, alguns sectores do governo não encararam com agrado a iniciativa e a ousadia dos açorianos, nomeadamente Salazar que se desvinculou do apoio.
O I Congresso Açoriano representa um dos momentos mais altos da vida da Casa dos Açores e pode ser referenciado como um dos marcos mais importantes de todo o processo de construção e aprofundamento da unidade e consciência açorianas. Contudo, algumas individualidades da Horta consideraram que os interesses do distrito não tinham sido plenamente defendidos e decidiram realizar, no ano seguinte a *Conferência Económica da Horta. Uns anos depois, com um espírito semelhante ao do Congresso Açoriano, realizaram-se as *Conferências Administrativas Distritais e Insulares. Carlos Enes (Fev.2001)
Bibl. Cordeiro, C. (1999), Nacionalismo, Regionalismo e Autoritarismo nos Açores durante a I República. Lisboa, Ed. Salamandra. Enes, C. (1996), A Casa dos Açores em Lisboa. Lisboa, Casa dos Açores. Livro do I Congresso Açoriano (1940), Lisboa, Casa dos Açores [2ª ed., 1996, Ponta Delgada, Jornal de Cultura].
