Conferências de S. Vicente de Paulo
Estas conferências, também chamadas vicentinas (por ser seu patrono S. Vicente de Paulo), aparecem nos Açores no dealbar do século XX, quando de há muito eram constituídas já no continente português (1859, Hospício de S. Luís, Rei de França). Formaram-se originariamente em Paris (1833) e em breve se expandiram não só em França, mas nos cinco continentes. A sua fundação deve-se a António Frederico Ozanam, estudante de 20 anos que compartilhava com alguns colegas universitários a união no serviço dos pobres, no seu sentido mais amplo e profundo do contexto humano e sociológico, de que pobre é todo aquele que precisa de alguma coisa. Vivia-se então e ainda um período eivado de chagas sociais ocasionadas pela Revolução Francesa.
Trata-se, em súmula, de uma associação de leigos que, todavia, não exclui a adesão dos seminaristas ou sacerdotes que desejem participar activamente na vida vicentina. Os membros dessa sociedade são recrutados das mais diversas camadas sociais, jovens ou idosos, sem olhar a quaisquer mesclas de distinção étnica, social, racista ou nacionalista. São membros das conferências homens e/ou mulheres, solteiros, casados ou viúvos, inclusive aos casais. De notar que as características jurídicas do estatuto vicentino imposto pela Regra foram reconhecidas por várias gerações papais da Igreja romana e mais recentemente pelos decretos e constituições conciliares do Vaticano II. Cabe ainda à Sociedade de S. Vicente de Paulo fixar os seus próprios regulamentos de conduta apostólica, não os recebendo pois do magistério, assim como é soberana na eleição dos seus membros e na administração dos seus bens. Todavia, a S.S.V.P., apesar da liberdade de acção que lhe é atribuída, tem, por dever e tradição, dar conhecimento das suas actividades ao Papa, ao bispo e ao pároco, sendo este normalmente quem exerce a função de assistente espiritual nas paróquias das conferências de S. Vicente de Paulo.
Subjacente às práticas, às acções de caridade e à espiritualidade desse aglutinador movimento de leigos, á escala universal, estão determinações, directrizes, doutrinas e documentos papais, como aqueles que expressam as matérias das encíclicas Gaudium et Spes, Mater et Magister e Populorum Progressio. São estas as grandes forças espirituais dos vicentinos, quer se trate das conferências dos Açores, quer das de qualquer outra parte do mundo, onde existem os mesmos princípios norteadores e a mesma homogeneidade caritativa, cujos fins são sempre os mesmos: ajudar o pobre. Aliás, dos princípios fundamentais estatutários já vinham os da última Regra (1996) evocando os mesmos síndromas da droga, prostituição, marginalização, presidiária e «... por todos aqueles que sofrendo de isolamento (um dos primeiros problemas dos nossos dias) esperam de nós uma visita, uma palavra, um sentido para as suas vidas».
Estruturalmente as conferências açorianas estão em hierarquia ligadas a conselhos particulares ou centrais, que dependem do conselho nacional e este do conselho geral internacional, com sede em Paris, entidade emissora das Cartas de Agregação às conferências.
A hierarquia vicentina dispõe de dois conselhos centrais nos Açores: um em Angra do Heroísmo e outro em Ponta Delgada, este para as ilhas de S. Miguel e Santa Maria, enquanto o primeiro abrange as ilhas Terceira, Graciosa, S. Jorge, Pico, Faial, Flores e Corvo. O conselho central de Angra do Heroísmo foi aprovado na XLVI Reunião Plenária em Aveiro, Centro Paroquial de Santo André a 13.3.1999 e veio substituir o antigo conselho particular que teve como fundador e 1º presidente o cónego José Augusto Pereira em 7.11.1934.
Cabe a estes conselhos coordenar e organizar sessões de reflexão e convívio e efectuar visitas programadas às conferências. Os conselhos representam-se nos plenários do Conselho Nacional, procurando agora actualizar os seus métodos com as exigências vicentinas do III milénio.
Desde o seu começo que a S. S. V. P. se inspira na ajuda aos pobres, em minorar as necessidades de uma pobreza envergonhada, carenciada, desprotegida; hoje o espírito vicentino universal voa mais alto, tem ainda outras preocupações, nomeadamente aquelas que advêm dos problemas complexos do mundo contemporâneo. Sem deixar de ter sentido os preceitos caritativos e fraternais com que a S. S. V. P. se debatia, acrescente-se os do mundo actual, nascidos com a problemática dos vícios, da subvalorização dos princípios morais e espirituais, da falta de identidade e personalismo, da decadência social, das doenças, dos atacados de sida ou de cancro ou de outras enfermidades mortíferas, e, mais do que isso, a sua intervenção faz-se sentir em muitos casos de injustiças sociais.
O já bem-aventurado beato António Frederico Ozanam, pela sua obra e pelo seu papel desempenhado na concretização de objectivos muito concretos na promoção dos pobres e necessitados e na grande expansão que conferiu às conferências durante toda a sua vida, o que, para Lacordaire, constituiu uma forma marcante do catolicismo no séc. XX, merece de todos nós o sentimento carismático que lhe é atribuído e que levou o Papa João Paulo II, em solene cerimónia realizada a 22 de Agosto de 1997, a canonizar António Frederico Ozanam, na Catedral de Notre-Dame, na cidade de Paris, onde ele fundara a primeira instituição ainda chamada Confférence de Charité, precursora das actuais sob a invocação de S. Vicente de Paulo, um franciscano piedoso e amigo dos pobres, que viveu no séc. XVI.
Em Portugal coube a um dignitário da Igreja, o cónego J. J. Sena Freitas, a responsabilidade de introduzir no país as conferências vicentinas, e, de tal modo o fez, que em breve se assistia a uma cobertura completa. Em 1884 publicou, do texto francês, o Manual da Sociedade de S. Vicente de Paulo, por ele próprio traduzido, revisto e adaptado ao meio português. Foi por isso reconhecido como o grande obreiro das mesmas no nosso país. Sena Freitas era açoriano, natural da ilha de S. Miguel. Mas, fosse por influência deste ou por outro motivo, coube ao deão e cónego da Sé de Angra, José dos Reis Ficher, ser o fundador da primeira conferência que em breve passava às outras ilhas açorianas. Com efeito, a primeira conferência que houve nos Açores, foi designada por conferência de Angra do Heroísmo e ocupou um espaço na Catedral de Sancti Salvatoris de Angra, tendo o seu início a 2 de Dezembro de 1904. Este evento ficaria a assinalar o Ano Dogmático da Imaculada Conceição na diocese, com luzidas celebrações religiosas.
A documentar o aparecimento da 1ª conferência de S. Vicente de Paulo nas ilhas açorianas, respiga-se do Boletim Eclesiástico dos Açores, n.º 390, Dez.º, 1904, este texto, que também é o primeiro sobre tal matéria: - «... O Rev.mo Cabido da Sé de Angra teve (...) a bela ideia de promover nesta cidade, sob proposta do seu Ex.mo Deão, a instituição de uma conferência de S. Vicente de Paulo, para distribuir esmolas temporais e espirituais à pobreza envergonhada. Foi instalada a conferência no dia 2 de Dezembro, sendo nomeado seu presidente o Sr. Deão da Sé, Dr. José dos Reis Ficher, ficando-lhe pertencendo todos os membros do Cabido, muitos sacerdotes e seculares. Já se acha funcionando com suas sessões regulares semanais aos sábados, e vai distribuindo muitas esmolas nas residências dos pobres, conforme os estatutos.»
Existe a letra de um Hino de S. Vicente de Paulo (encontrado nos papéis do antigo arquivo do Conselho Particular da S.S.V.P. de Angra do Heroísmo) assinado por Ina Tosta, s./d., num pequeno papel escrito à máquina, de fita roxa, nada se sabendo da muita ou pouca repercussão que teve no meio angrense. O poema, em três quadras, é assim composto: 1) Irmãos nossos, mendigos, chagados/ Sem um lar, sem trabalho e sem pão/ Quantas vezes, por nossos pecados/ Sem a luz duma consolação. Coro: Alma em chamas de fé e amor/ Vela acesa no sírio pascal/ Levaremos às trevas e à dor/ Luz e pão de um amor fraternal. 2) Em mansardas humildes os vemos/ Quais presépios, sem luz nem calor/ E profundas lições recebemos/ Destes novos natais do Senhor!
Potencialmente, nos Açores, o seu quadro actual apresenta-se assim:
Ilha Terceira a) Freguesias citadinas de Angra do Heroísmo: Sé, S. Salvador (antiga conferência de Angra do Heroísmo), 2.12.1904, S. Tomás de Aquino (seminário), s./d., Obra da Cadeia, s./d.; Conceição, Nª Srª da Conceição, 7.10.1934, Santa Isabel, s./d.; S. Pedro, S. Pedro, 18.6.1941; S. Bento, S. Bento, 2.10.1934; Santa Luzia, Santa Luzia, s./d. b) Cidade da Praia da Vitória, Santa Cruz, Nª Srª da Conceição, 10.11.1946; e as de Santa Rita (antiga Santa Isabel); Santa Luzia, s./d. c) Freguesias rurais: Terra Chã, Nª Srª de Belém, 19.10.1952; Lajes, Nª Srª do Ar, na Base Aérea n.º4, 17.11.1954; S. Miguel Arcanjo, na própria freguesia deste nome, 21.6.1968; S. Mateus, S. Mateus da Calheta, 13.5.1956; Posto Santo, Nª Srª da Penha de França, 4.9.1959; S. Bartolomeu dos Regatos, Sagrada Família, 10.1.1960; Ribeirinha, Santo Amaro, 21.7.1961; Cabo da Praia, Santa Catarina, 12.5.1968; Porto Martim, Santa Margarida, 30.3.1969; Porto Judeu, Santo António, s./d. e Cinco Ribeiras, S. José, s./d.
Na Sé houve a conferência de S. José, só de senhoras, que se extinguiu há anos, assim como a do Espírito Santo, na freguesia de Vila Nova, concelho da Praia da Vitória, igualmente desaparecida.
Ilha de S. Miguel cidade de Ponta Delgada: Matriz, S. Sebastião, 20.1.1917; Rainha Santa Isabel, 1940; S. Pedro, Nª Srª da Visitação, 2.6.1940; S. José, Santa Teresinha do Menino Jesus, 13.4.1941. Outras localidades daquela ilha: Povoação, Nª Srª Mãe de Deus, 8. 5.1947; Lagoa, S. Francisco de Assis, 1.1.1953; S. João de Deus, s./d.; Fajã de Cima, Nª Srª da Oliveira, masc., 1946; Nª Srª da Oliveira, fem., 24.11.1964; Porto Formoso, Nª Srª da Graça, 23.1.1974; Ribeira Grande, Nª Srª da Conceição, s./d.; Ribeira Seca da Ribeira Grande, S. Pedro, s./d. e Rabo de Peixe, Nª Srª do Rosário, s./d.
Ilha do Faial Só se registam duas conferências, uma de nome Nuno Álvares Pereira que funciona na matriz da Horta; outra, denominada conferência dos Cedros, vindo de tradição de que foi a primeira fundada na Ilha do Faial, a 2.10.1927. Em 1959 ainda estava activa com 72 confrades e confreiras, sendo sua primeira presidente D. Teresa dos Santos Freitas. De assinalar ainda a conferência de Nª Srª das Angústias, na mesma ilha, fundada em 29.12.1960 por um grupo de cem senhoras que se reuniram para o efeito, durante a qual lançaram as bases da instituição e elegeram sua primeira presidente D. Lígia Cardoso Amaral.
Com uma bem ordenada actuação das conferências de S. Vicente de Paulo, não há dúvida de que se minimizaram muitos casos sociais e foi reavivado sobretudo o espírito cristão de entreajuda. Intensificaram-se as visitas semanais domiciliárias aos pobres, doentes, presos, infantários, internatos, oferecendo-se roupas, estudos, rendas de casa, medicamentos, utilizou-se e utiliza-se ainda o antigo e controverso vale como meio de aproximação, o qual é trocado como dinheiro pelo próprio utente na compra dos géneros que mais necessita, celebraram-se baptizados, crismas e até casamentos, procurando-se com apoios pecuniários de diversas procedências oferecer algum conforto a quem dele necessitasse. Nas conferências dos Açores há datas especificamente assinaláveis, com dimensão particular na Páscoa, no Pão por Deus e no Natal, o que obriga a redobrados dispêndios; mas, como diz a própria Regra, a Sociedade de S. Vicente de Paulo, «como grupo é tradicionalmente pobre (...) não entesoura (...) dá em cada dia o que recebe dos seus membros e dos seus benfeitores, pouco ou muito». Valdemar Mota (Mai.2001)
Bibl. Manual de S. Vicente de Paulo (1884), Lisboa. Boletim Eclesiástico dos Açores (1904), Angra do Heroísmo. Princípios, Objectivos e Métodos da Acção Vicentina (1967), Lisboa. Mota, V. (1979), S. Salvador de Angra 1ª conferência vicentina 1904-1979. Angra do Heroísmo, Conselho Particular de Angra do Heroísmo da Sociedade de S. Vicente de Paulo. Regra da Sociedade de S. Vicente de Paulo (1996), 11ª ed. Conselho Nacional de Portugal da Sociedade de S. Vicente de Paulo. Que Sociedade de S. Vicente de Paulo para o 3º Milénio, Congresso Nacional, Fátima, 7 de Outubro de 2000.
