comunicação social

É característica da gente insular uma particular apetência para a reflexão. Se o individualismo é, também, um dos mais marcantes aspectos da sua índole, a verdade é que nos Açores desde muito cedo se assistiu ao pulsar de uma vivência colectiva no debate das questões políticas, sociais e económicas. É neste contexto que vários estudiosos situam o aparecimento da imprensa nas ilhas dos Açores e a multiplicidade de títulos, em todas as oito ilhas. Apenas no Corvo não há registo da publicação de qualquer periódico.

Essa diversidade de jornais atinge particular expressão nos períodos de maior agitação social, económica ou política, não só a nível regional como também nacional, embora neste caso com o desfasamento resultante da distância e das maiores ou menores dificuldades de comunicação.

Nos momentos de crise da História de Portugal, a imprensa dos Açores jamais deixou de marcar posição como tiveram sempre reflexo nas ilhas açorianas as lutas de facções políticas. A existência de jornais, muitos com vida efémera e não poucos com apenas uma edição, não se limitava às cidades, registando-se a publicação de periódicos em muitas das vilas e aldeias açorianas.

Na nota introdutória do catálogo de uma exposição sobre a imprensa açoriana, para assinalar o sesquicentenário de Manuel António de Vasconcelos, que foi o fundador do Açoriano Oriental, o mais antigo jornal português em publicação contínua e com o mesmo título e um dos mais antigos em todo o mundo nestas condições, José d'Almeida Pavão Jr. afirma que em 160 anos teriam existido nos Açores mais de dois mil títulos, número notável se tivermos presente a pequenez das ilhas, cerca de 250 mil pessoas dispersas por nove ilhas.

Números que consolidam a tradição de imprensa existente nos Açores hoje em dia com sete jornais diários, cinco semanários, três quinzenários e três revistas, uma semanal e duas mensais, para além de um vasto número de publicações paroquiais.

Actualmente, publicam-se os seguintes jornais, Açoriano Oriental, Correio dos Açores e Diário dos Açores, diários; Atlântico Expresso, Expresso das Nove e A Crença, semanários, os dois primeiros em Ponta Delgada e o último em Vila Franca do Campo, ilha de S. Miguel; Terra Nostra, quinzenário, editado em Ponta Delgada; A União e Diário Insular, ambos diários e os dois em Angra do Heroísmo; Correio da Horta, O Telégrafo e Tribuna das Ilhas, na cidade da Horta; O Dever, nas Lajes e Ilha Maior, na Madalena, os dois na ilha do Pico; e Correio de São Jorge, nas Velas e Fajã das Letras, na Calheta, ambos na ilha de S. Jorge. Publicam-se ainda com carácter regular a revista Açores, semanal, incluída na edição de domingo do Açoriano Oriental; a Saber, uma edição para os Açores da revista com o mesmo nome que se publica na Madeira, e a Açorianissima, estas duas com publicação mensal. As três revistas publicam-se em Ponta Delgada.

Para além dos boletins paroquiais são publicados boletins de associações agrícolas, de lavoura e comerciais e os boletins das associações culturais, como a Insulana, do Instituto Cultural de Ponta Delgada; Atlântida, do Instituto Açoriano de Cultura, Boletim do Núcleo Cultural da Horta; Açoreana, da Sociedade de Estudos Afonso de Chaves e Arquipélago, da Universidade dos Açores.

O Açoriano Oriental, matutino, com uma tiragem média diária de cinco mil exemplares é o jornal de maior expansão da Região Autónoma dos Açores, sendo propriedade do Grupo PT Portugal Telecom em cujo universo multimédia está integrado. O Correio dos Açores, matutino com uma tiragem de 4400 exemplares, o Diário dos Açores, verpertino, tiragem média de 3000, o Atlântico Expresso, semanal à segunda-feira tirando em média 4400, e a revista Açorianíssima, mensal, pertencem a um mesmo grupo privado sediado em Ponta Delgada. A diocese de Angra do Heroísmo é proprietária dos diários vespertinos, Correio da Horta, com uma tiragem de 1200 exemplares, e A União, tirando cerca de 2000 exemplares; dos semanários A Crença e O Dever. O Diário Insular, com cerca de 3400 exemplares de tiragem, pertence a um grupo empresarial da ilha Terceira, com negócios nas áreas do comércio, agropecuária, transportes terrestres e transportes marítimos. Os restantes jornais são propriedade de privados, associados em empresa ou cooperativa.

A tradição de imprensa nos Açores foi levada pelos açorianos emigrantes para os Estados Unidos e Canadá, onde se publicam jornais com títulos a lembrar as ilhas como Azorean Times, mas hoje em dia já nenhum existe. A imprensa de língua portuguesa que hoje em dia se publica nos Estados Unidos e no Canadá não tem ligação específica com os Açores.

A comunicação social açoriana inclui ainda a rádio e a televisão. A única estação de televisão existente nos Açores é a delegação da RTP­ Radiotelevisão Portuguesa, criada no Verão de 1975, por diligências do então Comandante Chefe das Forças Armadas nos Açores e Presidente da Junta Governativa Regional, general Altino Amadeu Pinto Magalhães, cujo consulado, como representante do Movimento das Forças Armadas que a 25 de Abril de 1975 devolveu a democracia a Portugal, teve uma profunda influência na instalação do regime autonómico e no período que o antecedeu, em especial de Junho de 1975 a Setembro de 1976.

As emissões da televisão nos Açores, então com o nome de RTP/Açores, tiveram início em 10 de Agosto de 1975 a partir de estúdios emissores localizados em S. Miguel. Uma rede de retransmissores em todas as ilhas assegura a cobertura integral da Região Autónoma dos Açores.

A actual estrutura da RTP nos Açores, com o estatuto de delegação, inclui uma redacção com dois telejornais diários de âmbito generalista e um exclusivamente dedicado às actividades desportivas e diversos programas de informação. Uma das acções mais importantes da RTP nos Açores é a preparação de programas sobre temas açorianos a emitir por estações e programas de língua portuguesa nas comunidades emigrantes açorianas nos Estados Unidos, Canadá, Brasil e Hawai.

Há, ainda, um sistema público de distribuição de televisão por cabo e satélite, cobrindo todas as ilhas, e que inclui cerca de 40 estações portuguesas e estrangeiras.

A rádio tem, também, tradição nos Açores se bem que não tão profunda como a da imprensa, embora bastante antiga e activa. A primeira estação de rádio que apareceu nos Açores foi iniciativa do micalense João Soares Júnior, comerciante de artigos eléctricos em Ponta Delgada e que no início da década de 1930 principiou a emitir a partir dos escritórios do seu proprietário na Rua António Joaquim Nunes da Silva daquela cidade, mantendo-se até 1938.

Em plena Segunda Guerra Mundial, quando interesses dos beligerantes visavam os Açores, o governo decidiu instalar em Ponta Delgada uma delegação da Emissora Nacional, no quadro de várias acções desenvolvidas na altura para sublinhar a soberania de Portugal no arquipélago dos Açores. As emissões tiveram início a 28 de Maio de 1941, mantendo-se até hoje através de diversas e diferentes fases de actividade sendo actualmente a única estação de rádio que cobre todas as ilhas do arquipélago, com delegações nas cidades de Angra do Heroísmo e Horta e correspondentes em todas as ilhas.

Na década de 1950, apesar dos apertados regulamentos que condicionavam a comunicação social portuguesa, apareceram as duas primeiras estações de rádio privadas, não controladas pelo Estado, embora uma fosse dependente, por uma forma indirecta é certo mas eficaz, da Direcção Geral de Aeronáutica Civil. A primeira, foi o Rádio Clube de Angra, fundado em 3 de Abril de 1947, como sociedade recreativa, assim se mantendo até aos nossos dias.

Meses depois, a 5 de Outubro de 1947, começou a emitir a estação emissora do Clube Asas do Atlântico, no Aeroporto de Santa Maria. O Clube Asas do Atlântico é uma associação recreativa e cultural dos funcionários do aeroporto de Santa Maria, fundada um ano antes, a 5 de Outubro de 1946, e que até 25 de Abril de 1974 funcionava sob a supervisão do director daquele aeroporto e que, pouco depois, passou a ser gerida como uma colectividade de cultura e recreio.

Nas décadas de 1980 e 1990 foram criadas várias estações de rádio de carácter privado, tais como: Rádio Horizonte, com sede e estúdio central em Angra do Heroísmo e estúdios em Ponta Delgada; Rádio Atlântida e Rádio Açores, com sede em Ponta Delgada; Rádio Nova Cidade, com sede em Ribeira Grande; Rádio Lumena, com sede na vila das Velas, em S. Jorge; Rádio Cais, sediada em Cais do Pico, ilha do Pico e Rádio Graciosa, sediada em Santa Cruz, ilha Graciosa. Rádio Horizonte, Rádio Atlântida, Rádio Açores e Rádio Nova Cidade são empresas comerciais que retiram da publicidade as suas receitas enquanto as restantes, também, com produção publicitária, têm ligações a municípios e ou associações cívicas de direito público. Não podendo ser classificado como comunicação social açoriana, há, todavia, que registar a produzida pelo Destacamento Militar Americano estacionado na Base Aérea n°4, nas Lajes, ilha Terceira, que mantém diariamente uma estação de rádio e outra de televisão, com informação e programação em língua inglesa de temas de interesse dos Estados Unidos e da vida do destacamento e um jornal quinzenal, também em língua inglesa e com idêntico conteúdo, o Crossroads. Gustavo Moura (2002)