comunalismo

Com excepção da ilha de S. Miguel – onde a propriedade pode apresentar por vezes dimensões médias importantes – o regime de propriedade nos Açores assenta na pequena propriedade familiar muito fragmentada. Simultaneamente, o povoamento apresenta características bastante dispersas, que só recentemente se têm vindo a atenuar.

Estas duas características tendem a projectar uma imagem algo individualista da organização social açoriana. De facto, tanto a paisagem agrícola, por vezes profundamente retalhada, como a paisagem construída, com inúmeras casas frequentemente isoladas, parecem sugerir uma sociedade que, tendo na família nuclear a sua unidade social básica, acentua sobremaneira a autarcia desta. Deste ponto de vista, os Açores estariam mais próximos do sul de Portugal continental – individualista, baseado na família nuclear, sem grandes trabalhos agrícolas comuns nem formas colectivas de propriedade – do que do norte – colectivista, baseado na família extensa, com formas mais comunitárias de produção e propriedade (cf. Dias 1991).

Esta primeira imagem da organização social açoriana é entretanto enganadora. De facto, uma aproximação mais cuidadosa sugere que são inúmeras as teias de relacionamento social que unem entre si as pessoas e as famílias e que aquilo que a paisagem tende a mostrar como disperso e virado sobre si mesmo é afinal atravessado por formas de sociabilidade razoavelmente importantes.

A primeira dessas formas de sociabilidade assenta no parentesco. Cada indivíduo e cada família faz parte de uma teia de parentesco, de orientação bilateral, marcada por deveres e direitos particularmente constrangentes. Esses direitos e deveres estendem-se da inter-ajuda diária, à formação de grupos de trabalho por ocasião das tarefas produtivas – com particular destaque para a matança do porco – aos ritos de passagem – sobretudo ao casamento e ao funeral. A força desses laços de parentesco foi essencial na configuração «familiar» que a emigração tomou nos anos 1960, 1970 e 1980 e manifesta-se hoje em dia na força que redes sociais transnacionais baseadas no parentesco continuam a ter na vida social açoriana.

A par do parentesco, a esfera da vizinhança é também de grande importância na configuração das relações sociais na sociedade tradicional açoriana. Entre casas vizinhas – sobretudo entre os chamados vizinhos mais de perto – estabelece-se de facto uma rede de cooperação que, em muitos casos, possui similitudes importantes com o tipo de relacionamento social existente entre parentes.

Para além do parentesco e da vizinhança, a vida social nos Açores é também marcada pela importância de duas unidades sociais mais amplas: o lugar e a freguesia. O lugar, apesar da sua irrelevância administrativa, é em muitas ilhas, uma unidade básica do povoamento e de interacção social. A freguesia – que, nos Açores coincide com a paróquia – além das suas funções administrativas, políticas e religiosas, funciona como um dos quadros mais relevantes para interacção social alargada e para a definição da identidade colectiva. A tendência extremamente forte para a endogamia de freguesia, a força das rivalidades existentes entre freguesias vizinhas, o papel que a cooperação entre vizinhos de uma mesma freguesia desempenha na realização de festas religiosas – com particular destaque para as Festas do Espírito Santo – sugere a força sociológica que a freguesia possui nos Açores. João Leal (2006)

Bibl. Leal, J. (1994), As Festas do Espírito Santo nos Açores. Lisboa. Publicações Dom Quixote.