coleópteros carabídeos

Insectos coleópteros incluídos na superfamília dos Caraboidea (Lawrence e Newton, 1995). Constituem a terceira família mais numerosa em número de espécies conhecidas dentro daquele grupo de insectos. Segundo Erwin (1979) terão surgido no início do Mesozóico (cerca de 200 milhões de anos), sofrendo forte irradiação devido sobretudo à competição com outros insectos (e.g., coleópteros estafilinídeos e formigas). Os indivíduos deste grupo são normalmente de dimensões pequenas a médias, podendo contudo, algumas espécies atingir mais de 50 mm de comprimento (e.g., Anthia circunscripta). A coloração destes insectos é normalmente escura, podendo alguns, contudo, exibirem cores estruturais esverdeadas, azuladas, douradas, com brilho metálico muito vivo (e.g., Carabus lateralis). A maioria dos carabídeos são predadores polífagos, vivendo na superfície do solo e na manta morta onde se alimentam de numerosos invertebrados, tais como anelídeos, gastrópodes e larvas e adultos de outros artrópodes com ênfase para os insectos. Algumas espécies especializaram-se a predar sobre colêmbolos (e.g., Elliptosoma wollastoni), possuindo uma quetotaxia especial na armadura bucal adaptada a este tipo de predação. Muitas espécies são ainda saprófagas e algumas granívoras (e.g., espécies do género Harpalus). Os carabídeos encontram-se praticamente em quase todos os ecossistemas terrestres (excepto os dulciaquícolas) desde o nível do mar até às altas montanhas e desde os trópicos até às regiões sub-árcticas. Muitos carabídeos ocorrem em microhabitats húmidos nomeadamente nas margens de charcos, lagos e cursos de água e ainda em sapais e zonas intertidais. Outras espécies colonizaram ainda o domínio subterrâneo (cavernícola e endógeo) e outras adaptaram-se a ambientes extremamente deficitários em água como os desertos quentes. Embora predominantemente edáficos, podemos encontrar, principalmente nas regiões tropicais, alguns géneros arborícolas com uma enorme diversidade (e.g., género Agra). Tanto pela sua ubiquidade, como pela abundância e acções funcionais que exercem nos diversos ecossistemas terrestres onde se encontram, os carabídeos têm vindo a ser utilizados como excelentes indicadores dos mesmos (e.g., Luff e Woiwod, 1995). Os adultos depositam os ovos nos locais onde vivem (solo, troncos, etc.) e o desenvolvimento das larvas pode variar muito, passando na maioria dos casos por três instares até atingir o estado pupal. Os adultos são muitas vezes atraídos às luzes artificiais. Estes coleópteros são facilmente reconhecíveis pela forma ovalada e alongada do corpo, normalmente achatado dorso-ventralmente, sendo a cabeça prognata. Os adultos podem ser alados, braquípteros ou mesmo ápteros. Na cabeça destacam-se as mandíbulas fortes e longas. As antenas são quase sempre filiformes, à excepção de alguns grupos mais primitivos onde são clavadas e com conformações especiais. As patas são do tipo marchador, sendo a fórmula tarsal das mesmas 5-5-5. Estes coleópteros podem evitar ser capturados não só através da corrida, como pela utilização de defesas químicas. Em situações extremas segregam substâncias tóxicas através das glândulas pigidiais e em grupos mais evoluídos conhecidos vulgarmente por escaravelhos bombardeiros (e.g., Pheropsophus hispanus) podem mesmo produzir reacções químicas violentas numa câmara especial do abdómen, que se traduzem por um jacto de gases (composto por água, oxigénio, benzoquinonas e toluquinonas) direccionado para o potencial predador, acompanhados por uma forte explosão com temperaturas muito elevadas (cerca de 100º C).

Esta família de coleópteros é uma das mais diversificadas desta ordem, sendo conhecidas cerca de 40.000 espécies a nível mundial (Lorenz, 1998) e cerca de 1.300 só na Península Ibérica (Zaballos e Jeanne, 1994). Nos Açores é a segunda família de coleópteros melhor representada, com 49 espécies registadas, sendo um género e 17 formas endémicas (Ocydromus derelictus, Ocydromus schmidti azoricus, Athalassophilus azoricus, Trechus torretassoi, Trechus picoensis, Trechus terceiranus, Trechus montanheirorum, Trechus jorgensis, Cedrorum azoricus, Cedrorum azoricus caveirensis, Calathus lundbladi, Calathus vicenteorum, Calathus extensicollis, Calathus carvalhoi, Olisthopus inclavatus, Pseudanchomenus aptinoides, Bradycellus chavesi) (Borges, 1990; Borges e Serrano, 1993). Os géneros Trechus (5 espécies) e Calathus (4 espécies) destacam-se dos restantes pelo maior número de espécies conhecidas neste arquipélago. Para mais dados sobre a distribuição e biogeografia destes coleópteros nos Açores aconselhamos a consulta de Lindroth (1960) e Borges (1992). Artur Serrano (Ago.2001)

Bibl. Borges, P.A.V. (1990), A Checklist of the Coleoptera from the Azores with some Systematic and Biogeographic comments. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 42, 220: 87-136. Id. (1992), Biogeography of the Azorean Coleoptera. Ibid., 44, 237: 5-76. Borges, P.A.V. e Serrano, A.R.M. (1993), New taxa of Poecilini (Coleoptera, Carabidae, Pterostichinae) from the Azores. Bolletino Museo Regionale diScienze Naturali – Torino. 11 (2): 315-329. Erwin, T.L. (1979), Thoughts on the Evolutionary History of Ground Beetles: Hypotheses Generated from Comparative Faunal Analyses of Lowland Forest sites in Temperate and Tropical Regions In Erwin, T. L., Ball, G. E. e Whitehead, D. R. (eds.), Carabid Beetles, Their Evolution, natural history and classification. Haia/ Boston: 539-587. Lawrence, J. F. e Newton, A. F. (1995), Families and subfamilies of Coleoptera (with selected genera, notes, references and data on family-group names) In Pakaluk, J. e Slipinski, S.A. (eds.), Phylogeny and Classification of Coleoptera. Varsóvia: 779-1006. Lindroth, C.H. (1960), The Ground-Beetles of the Azores (Coleoptera: Carabidae) with some reflexions on over-seas dispersal. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 13, 31: 5-48. Lorenz, W. (1998), Nomina Carabidarum. A directory of the scientific names of ground beetles (Insecta, Coleoptera “Geadephaga”: Trachypachidae and Carabidae including Paussinae, Cicindelinae, Rhysodinae). Tutzing, W. Lorenz. Luff, M. L. e Woiwod, I. P. (1995), Insects as indicators of land-use change: A European perspective, focusing on moths and ground beetles In Harrington, R. e Stork, N. E. (eds.), Insects in a Changing Environment. Londres, Academic Press: 400-424. Zaballos, J. P. e Jeanne, C. (1994), Nuevo Catalogo de los Carabidos (Coleoptera) de la Peninsula Iberica. Saragoça, Sociedad Entomológica Aragonesa.