colêmbolos

Ordem de insectos apterigotas (sem asas), de pequenas dimensões, atingindo raramente 3 mm de comprimento, com o corpo coberto de sedas ou, nalguns géneros, de sedas e escamas, sem olhos compostos, de forma alongada (subordem Arthropleona) ou globular (subordem Symphypleona). Podem ser azuis escuros, esbranquiçados ou amarelados com desenhos característicos de cor escura, possuindo algumas espécies escamas prateadas e negras, o que lhes confere um aspecto metalizado.

O corpo dos colêmbolos é revestido por um exoesqueleto formado por uma cutícula externa segregada por uma camada subjacente de células hipodérmicas, constituindo uma adaptação à vida no solo. A cutícula dificulta a evaporação da água contida nos tecidos subjacentes, função que é reforçada por uma camada externa de cera situada na epicutícula. O facto da cutícula apresentar um elevado número de poros confere-lhe uma certa permeabilidade, o que facilita uma difusão gasosa eficiente em insectos cujo sistema traqueal é inexistente ou muito rudimentar.

Os Arthropleona, sem sistema traqueal, dependem da respiração cutânea, vivendo geralmente a maiores profundidades do solo, enquanto que nos Symphypleona há espécies traqueadas, com uma taxa respiratória relativamente elevada, e tendem a ocupar as camadas mais superficiais do solo, apresentando maior tolerância à desidratação do que os Arthropleona.

Os colêmbolos movem-se com muita agilidade, devida não só à presença da furca (órgão saltador), mas ainda pelo facto do seu exoesqueleto se encontrar dividido em segmentos esclerotizados, denominados escleritos, unidos entre si por membranas articulares flexíveis. Estes segmentos agrupam-se em 3 partes principais: cabeça, tórax e abdómen.

Na cabeça estão situadas as peças bucais entognatas, adaptadas principalmente para triturar, sendo as mandíbulas monocondílicas (uma única articulação com a cápsula cefálica), os ocelos, cujo número varia de 0 a 8 de cada lado, as antenas e o orgão pós­-antenal. As antenas são formadas normalmente por quatro segmentos e nos dois últimos, que podem ser anelados, encontram-se os órgãos sensoriais. Imediatamente atrás das antenas situa-se o órgão pós-antenal de forma muito variável, com uma função possivelmente olfactiva, e que está ausente nos Symphypleona.

O tórax, com uma função locomotora, é constituído por três segmentos cada um dos quais com um par de patas, sendo cada pata formada pelos seguintes artículos: precoxa, coxa, trocânter, fémur e tibiotarso. A parte terminal da pata apresenta geralmente duas unhas, a mais comprida denominada unguis e a mais curta empódio ou apêndice empodial.

O abdómen é constituído, nos Arthropleona, por seis segmentos distintos, podendo no entanto ocorrer a fusão dos últimos dois ou três segmentos em certas espécies. Nos Symphypleona os quatro primeiros segmentos abdominais encontram-se fundidos com o tórax, dando-lhes assim um aspecto globular, e os dois últimos segmentos formam a papila anal. A abertura genital e a abertura anal situam-se ventralmente no quinto e sexto segmentos do abdómen, respectivamente. Os apêndices abdominais pregenitais altamente especializados, situados ventralmente no abdómen, denominados tubo ventral, tenáculo e furca, são característicos dos colêmbolos.

No primeiro segmento abdominal localiza-se o tubo ventral ou colóforo, com propriedades adesivas, que o animal utiliza para se fixar a superfícies lisas. O nome Collembola deriva da presença deste apêndice (do grego colla = cola e embolon = êmbolo). No terceiro segmento abdominal encontra-se o tenáculo, constituído por um par de pequenos apêndices denteados que se reúnem num corpo basal e cuja função é segurar a furca contra o corpo na posição de repouso. A furca, que é o aparelho saltador, está presente com maior ou menor desenvolvimento na maior parte das espécies, mas está ausente nalgumas delas. Quando presente, está localizada no quarto segmento abdominal. É constituída por uma porção basal chamada manúbrio, donde sai um par de estruturas alongadas, denominadas "dentes", cada uma das quais possui distalmente um mucrão. No abdómen estão acomodadas a maior parte das vísceras, incluindo os órgãos reprodutores, os órgãos excretores e parte do tubo digestivo. O intestino posterior não apresenta tubos de Malpighi que foram substituídos por um anel pilórico responsável pelas principais funções excretoras (Dallai et al., 1989).

Apresentam um desenvolvimento ametabólico (sem metamorfoses) e as mudas periódicas continuam mesmo no estado adulto.

Os colêmbolos são, a seguir aos ácaros, os artrópodes mais importantes da mesofauna do solo, tanto em termos de abundância como em termos de riqueza específica, constituindo assim um instrumento muito eficiente para a avaliação da biodiversidade dos habitats edáficos. Ocorrem com especial abundância nos solos florestais húmidos, mas também sob a casca das árvores, nos musgos, nas areias litorais, à superfície da água doce e ainda nas ervas e nos ninhos das formigas e das térmites. São saprófagos ou fitófagos, alimentando-se de grãos de pólen, esporos ou micélios de fungos, bactérias e algas.

Representam um grupo funcional importante no sistema edáfico, estando envolvidos nos processos de decomposição da matéria orgânica. Eles são ainda indicadores ecológicos das qualidades dos solos, quer agrícolas quer florestais, como dos distúrbios causados pelo Homem nesses ecossistemas (Gisin, 1955; Gama et al., l989, 1991, 1994a, 1994b, 1995; Sousa e Gama, 1994, Sousa et al. 2000). Assim, tem sido realçada a relação estreita que existe entre estes organismos e as características dos habitats, donde resulta a sua utilização como bioindicadores.

A nível mundial já foram identificadas cerca de 6500 espécies (Hopkin, 1997), mas muitas espécies ainda estão por descobrir.

Dentro dos insectos, a espécie fóssil mais antiga conhecida, datada do Devónico inferior da Escócia, é uma espécie de colêmbolo, identificada por Hirst e Maulik em 1926 como Rhyniella praecursor (Delamare e Massoud, 1967 e Massoud, 1967).

No arquipélago dos Açores conhecem-se cerca de uma centena de espécies, estudadas por diversos autores (Moniez, 1889; Stach, 1951; Paclt e Bödvarsson, 1961; Altner, 1963; Jacquemart, 1974; Gama, 1982, 1984, 1986, 1988a, 1988b e 1992). Estas espécies repartem-se pelas diversas ilhas deste arquipélago como se segue: Flores - 24, Corvo -1, Faial - 34, Pico - 32, S. Jorge - 11, Graciosa - 5, Terceira - 26, S. Miguel - 78 e Santa Maria -19.

Muitas destas espécies ocorrem em escoadas de lava perto da costa, e em tubos vulcânicos correspondentes a habitats cavernícolas, de onde foram identificadas as seguintes espécies troglófilas (espécies que frequentam as grutas, onde podem reproduzir-se e apresentar já algumas adaptações a este meio, mas que também se encontram fora de grutas): Folsomia candida, Entomobrya pazaristei, Heteromurus nitidus, Pseudosinella azorica, Pseudosinella ashmoleorum e Disparrhopalites patrizii (Gama, 1992). As espécies restantes vivem normalmente fora das grutas e são denominadas troglóxenas.

No que respeita ao aspecto biogeográfico, a fauna de colêmbolos dos Açores manifesta uma afinidade paleárctica, com um grande número de espécies holárcticas e principalmente cosmopolitas (Gama, 1988a e 1992). Maria Manuela da Gama (Dez.2000)

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