colégios

A palavra colégio registou ao longo dos tempos variados sentidos. Etimologicamente provém do verbo latino colligere, que significa reunir, juntar. A essa etimologia vai a palavra colégio buscar os seus significados, evoluindo, naturalmente, ao longo dos tempos.

Entre os Romanos collegium significava agrupamento de pessoas que exerciam o mesmo ofício, ou dignidade. Daí o falar-se do colégio dos augures, dos pontífices e de inúmeros outros. Na Idade Média a palavra colégio tomou novo significado. Havendo muitos estudantes pobres, normalmente, os “senhores” organizavam residências onde aqueles dispunham dos cuidados essenciais de estadia e alimentação, frequentando as aulas nas Universidades. São célebres os colégios de Paris, de Coimbra, de tantos outros lados. A decadência das universidades fornecia o ensejo de nos colégios ser dada formação intelectual, mormente de preparatórios, para entrada nessas universidades. Nunca será de mais recordar que por exemplo a hoje célebre Sorbona teve origem num desses colégios.No século XVI aparecem os colégios jesuítas, à imitação de muitos outros, de congregações religiosas, católicas ou protestantes.

Pode dizer-se que a palavra adquire o sentido que perdura até aos nossos dias, estabelecimento de ensino particular. Suficientemente ampla, esta noção abrange todos os casos, primário ou secundário, segundo as terminologias da época.

Nos Açores, antes de falar da existência dos colégios aqui actuantes, teremos de, ainda que brevemente, equacionar o que foi o ensino nesta região. Sem qualquer espécie de dúvida que as preocupações fundamentais dos primeiros povoadores não poderiam ter sido a instrução.

Impelidos a viver numa terra que lhes era estranha, a principal das atenções centrou-se na sobrevivência, no amanho das terras, na pesca e na caça dos animais, lançados, ou que aqui já existiam. A necessidade do espiritual, satisfeita pelos Franciscanos, teve também como consequência o ensino por esta ordem religiosa.

Dos muitos conventos, construídos no arquipélago, não restam nem listas de alunos nem professores. Apenas nos primeiros historiadores nos são dadas pequenas indicações das tentativas literárias destes povos.

Fr. Agostinho de Monte Alverne, na Notícia Quinta do 1.º volume da sua obra, fala-nos, várias vezes, de leitores jubilados, levando-nos com tais palavras a acreditar, que, pelo menos para as suas necessidades, tinham alguns conventos, ou todos, um ou dois dos seus frades, dedicados à missão do ensino.

É essa a opinião, quer de Urbano de Mendonça Dias, quer de Carreiro da Costa, e de outros autores que, mesmo não versando a instrução, não deixam de recolher em manuscritos, jornais e outros testemunhos, indícios de que a educação começou também a ser preocupação dos açorianos.

Com o desenvolvimento da terra, aparecem algumas soluções, transitórias, como seja o envio dos futuros doutores para estabelecimentos continentais.

A “Lista dos Açorianos que se matricularam nos diversos collegios dos jesuítas nos anos de 1534-35” (Arquivo dos Açores, 1980: 17) aponta alunos das ilhas açóricas em colégios jesuítas, entre 1534-39. Ou há confusão no termo «jesuítas», e estamos perante alguns ensinantes que ostentavam um nome que depois vai ser famoso, ou há engano na data. Nestes anos não havia Jesuítas; estavam em embrião, apenas. Os inacianos chegariam a Portugal no início da década de quarenta e a sua fama não tardou a chegar às ilhas. Em 1560, “uma pessoa principal”, pedia o seu auxílio para remediar a falta de cultura nestas terras. Em 1570 nascia o primeiro colégio jesuíta na ilha Terceira que foi, mais tarde, em 1595 crismado com o nome de colégio da Ascensão.

Não sendo essencialmente vocacionada para o ensino, que ministrava gratuitamente, a Companhia de Jesus exigia um fundador que assegurasse as despesas da manutenção. No caso de Angra foram elas assumidas pela tesouraria real . As frequentes visitas de Jesuítas a S. Miguel e também o grande incremento que esta ilha vinha demonstrando fizeram nascer a ideia de também aqui ser fundado um colégio. Foi o colégio de Todos os Santos *, que, em determinadas ocasiões, estendeu a sua acção à então vila da Ribeira Grande.Mais tarde, já nos meados do século XVII, a Horta via também nascer um colégio jesuíta.

O encerramento dos estabelecimentos jesuítas teve lugar em 1760, por ordem do Marquês de Pombal, que, na sua reforma escolar, previa algumas criações nas ilhas açorianas, quer de instrução primária, quer aulas de retórica e filosofia.

A lista publicada por Ferreira Gomes (1989: 41) menciona um lugar de Filosofia Racional em S. Miguel, Retórica, Ler, Escrever e Contar em Angra. Naturalmente, os Franciscanos e outras ordens, como os Gracianos, que continuavam por estas ilhas, terão retomado esta antiga ocupação.

As lutas liberais encontraram os Açores, pouco diferentes do continente: mal em todos os aspectos, a instrução quase inexistente.

A legislação desta época caracteriza-se, no que ao ensino particular diz respeito, pela liberdade concedida a quem quiser abrir escola, de ensino primário ou secundário, cumprindo apenas as formalidades impostas por lei. Regra geral eram estas pouco exigentes. Apenas a participação à autoridade, administrador de concelho, comissário de estudos ou inspector, se impunha a quem quisesse «abrir» escola. Embora exista essa liberdade e as escolas surjam um pouco por todo o arquipélago, a verdade é que muitos dos importantes destas terras preferem mandar os filhos estudar em colégios do continente. O exemplo mais conhecido é o de Antero de Quental, que com catorze anos, vai frequentar o Pórtico, orientado por António Feliciano de Castilho. Uns anos mais tarde, será o mesmo Antero a aconselhar colégios estrangeiros a conterrâneos seus.

Entretanto, nos Açores iam aparecendo alguns estabelecimentos que faziam concorrência aos de outros lados. Estes, ao darem-se conta, não hesitam em procurar, através de anúncios, captar aderentes. Às vezes, são indivíduos que dotados de determinadas qualidades resolvem pôr à disposição do público as suas potencialidades. Notemos um anúncio em o Monitor de 13 de Dezembro de 1843. Aí se anuncia que Joaquim Manuel Fernandes Braga, pai de Teófilo Braga, futuro Presidente da República, oferece-se para «ensino popular da matemática», cobrando «módicas quantias aos abastados», e recebendo «gratuitamente os indigentes». Não são conhecidos os resultados dessa oferta, nem há números que informem de outros anúncios similares que pululam por esse e outros periódicos da região. Mais feliz e eficiente terá sido o estabelecimento de uma instituição que deu pelo nome de Liceu Açoreano. Fundado por Pedro de Alcântara Leite, apresentou alguns alunos a exame, com sucesso. No entanto a sua vida não foi muito longa.

Em O Correio Michaelense de 6 de Fevereiro de 1847 encontramos uma estatística referente ao Distrito de Ponta Delgada no ano de 1839. Fala da distribuição de escolas por todos os concelhos do distrito e aí encontramos: Escolas Públicas-20, incluindo as primeiras letras, e algumas disciplinas do secundário, e cirurgia, todas dirigidas ao sexo masculino; Escolas Particulares-54, todas das primeiras letras, mas 35 do sexo feminino e 19 do masculino, grande parte delas em freguesias rurais, e em muitas destas, em exclusividade, sobretudo as do sexo feminino.

Em 1856, António Augusto Frazão, reitor do liceu de Ponta Delgada, e comissário de estudos, em relatório, arquivado na Torre do Tombo, assinala 60 «escholas particulares de instrucção primaria, sustentadas pelos pais dos respectivos alunos», enquanto que «nesta cidade, (Ponta Delgada), há duas escholas particulares d’instrucção secundaria e dois collegios». As escolas são de Latinidade e Francês, enquanto que os colégios são de meninas, dirigidos respectivamente por Miss Mestom e Miss Harriot. Além de piano, em ambos os colégios se ensinava Inglês, Desenho, Geografia, bem como Francês. Ambos os estabelecimentos recebiam alunas internas e externas.

Em outras ilhas, especialmente na Terceira e Faial é assinalado o mesmo movimento. Em Angra, em 1875, o Dr. Joaquim de Oliveira dirige também um colégio, semelhante aos existentes em Ponta Delgada

Será também de realçar, que de meados a fins deste século, e com prolongamento no XIX, aparecem as sociedades votadas à instrução entre as quais se salienta a Sociedade dos Amigos das Letras e das Artes de S. Miguel, cuja acção beneficente ainda não foi devidamente estudada.

Para além desta, conhecem-se ainda a Sociedade Philantropica, a Sociedade de Instrucção e Recreio e a Sociedade Escolástico-Michaelense.

Nas outras ilhas, Terceira Faial, e mesmo nas mais pequenas, igualmente surgiram sociedades várias com diversos nomes, mas com semelhantes intenções: fornecer os instrumentos de leitura e escrita que pudessem habilitar os povos a uma vida mais digna.

No acervo, ainda não trabalhado na sua totalidade, da inspecção às escolas do ensino primário nas ilhas dos Açores, em 1875, acervo ainda não trabalhado na sua totalidade, no que diz respeito ao concelho de Ponta Delgada, podemos anotar a relação de 29 escolas públicas e 117 particulares. E isto só nas inspeccionadas. Por certo com a liberdade, anteriormente expressa, outras existiriam.

Os inícios do século XX, fortalecida de maneira considerável a rede pública de escolas primárias, devidamente organizados os liceus de Ponta Delgada, Angra e Horta, começam a sentir-se as populações das pequenas localidades, as vilas de então, da falta de estabelecimentos que proporcionem um pouco mais de instrução à juventude.

Apesar de todo esse esforço público, o privado encontra ainda algum campo. Em Ponta Delgada surge, no início do século XX, o Colégio Açoriano que vezes várias vai merecer honras dos jornais, primeiro pelos seus resultados, mais tarde, porém pelo facto de se ter endividado de maneira que se vê obrigado a fechar.

Começam então a surgir pequenos colégios, com nomes diversificados, quase sempre dedicados à instrução liceal. Fruto da dedicação de alguns formados por vezes em matérias que pouco tinham a ver com a instrução, como fosse o Direito, têm como ajuda os padres que nessas épocas eram numerosos. Estes encontravam no exercício dessa profissão, não só um complemento às magras côngruas com que os fiéis os poderiam dotar, mas também um meio excelente de desenvolvimento da função fundamental do seu múnus, a educação cristã dos educandos. Não podemos esquecer , no caso dos Açores, o contributo dos professores do ensino primário, hoje do primeiro ciclo, que sendo dos poucos habilitados com conhecimentos pedagógicos, não hesitam em colaborar com advogados e sacerdotes.

O crescimento destas instituições levou o governo do estado novo a criar legislação especializada e até a deixar existir um sindicato dos professores do ensino particular. Muitos, ou pelo menos alguns destes, eram pessoas non gratas ao regime que neste ensino encontravam o ancoradouro que o oficial lhes negava. A ligação de alguns destes institutos à Igreja ou pelo menos a membros da mesma, é também uma das características.

Dentro destes parâmetros nascem o Instituto Fisher*, fruto da oferta de um grupo de senhoras, o Instituto Vilafranquense*, em Vila Franca do Campo, o Colégio de S. Francisco Xavier*, e o de Santa Clara e Santo António, respectivamente em Angra e Horta. Vários outros, espalhados por muitos dos concelhos dos Açores, como as vilas do Pico, Madalena, S. Roque, Lages, Velas de S. Jorge e Santa Cruz das Flores, Vila do Porto, além da Ribeira Grande, e Povoação em S. Miguel.

Com o advento do 25 de Abril e a consequente democratização, a onda imparável da escolarização levou ao surgimento de escolas oficiais em quase todas as sedes de concelho, por norma, da instrução obrigatória e secundária. Também algumas localidades mais populosas começam a ter acesso a tal benefício, o que, explica o decréscimo do número de colégios.

Um novo campo de actuação se abriu no entanto: a chamada pré-escolarização, por vezes acumulada com o primeiro ciclo do ensino básico.

É o caso do colégio S. Francisco Xavier em Ponta Delgada, onde ainda se encontram A Passarada, A Colmeia. Várias «creches» de organismos assistenciais, se espalham por quase todas as ilhas do arquipélago, por vezes mesmo em povoações pouco populosas.

Colégio da Ascensão Apesar de todas as pretensões de alguns grandes senhores das ilhas, só em 1570 os Açores viram instalar-se os Jesuítas. Passe embora o facto de serem considerados educadores, a verdade é que eram essencialmente missionários, e os colégios funcionavam como complemento à actividade de pregação.

A chegada dos inacianos à Terceira, após peripécias várias de saída e regresso à capital, e mesmo de uma calmaria que os demorou no mar, deu-se a 1 de Junho de 1570. De imediato acolhidos pelas forças vivas da ilha, desde o bispo até às autoridades civis, encontraram repouso nas casas de um devoto, de nome João da Silva do Canto, onde em breve começaram as aulas. O número de estudantes é assinalável para uma ilha e uma terra tão jovem. Nesse primeiro ano lectivo contam-se cinquenta estudantes na primeira classe de Latim e cerca de oitenta, na segunda. Este facto mostra-nos que «outras» escolas deviam existir para que os alunos fossem encaminhados para a segunda classe.

A vida do colégio não foi tranquila. A inclusão das possessões portuguesas na coroa espanhola, trouxe desconfianças em relação aos jesuítas que foram expulsos de Angra, por serem considerados simpatizantes da coroa espanhola. Regressados com o Marquês de Santa Cruz em 1583, só viriam a deixar a ilha com a expulsão de Pombal em 1760.

Não satisfeitos com as casas doadas, procuraram os Jesuítas um lugar mais arejado e sadio para edificação de raiz. A dez de Maio de 1595, começou a construção do que ainda hoje é chamado Palácio dos Capitães Generais. Por se estar na oitava da Ascensão, com tal nome foi o colégio baptizado. A sua influência, o desenvolvimento do trabalho aí efectuado levou António Cordeiro a afirmar, na sua História Insulana, que com «mais huma cadeyra de Theologia e outra de só Gramatica, (...) ficaria huma muyto util Universidade», obra citada, pág 286, Região Autónoma dos Açores, Secretaria Regional da Educação e Cultura, Angra, 1981

Colégio de Todos-Os-Santos Dos três colégios jesuítas é certamente o que mais interesse revela, pelos circunstancialismos que rodearam a sua fundação. Chegados à Terceira, cedo os Jesuítas empreenderam missões nas outras ilhas. S. Miguel parece ter tido um lugar muito especial, na predilecção dos padres jesuítas. Um comerciante portuense, aqui estabelecido, de nome João Lopes, cristão novo e irmão de dois jesuítas, fez ofertas várias que todavia não seriam o bastante para cobrir as despesas. No entanto a indústria de administração dos Jesuítas superou as dificuldades, e em 1606 começaram as aulas de Teologia Moral ou Casos de Consciência. Em 1619 ou 1620, após uma disputa com os Gracianos, tiveram início também as aulas de Latinidade, a que mais tarde se acrescentaram as de Retórica e Humanidades, tendo inclusivamente uma extensão de Casos de Consciência na Ribeira Grande

O número de alunos não nos é revelado, mas indícios vários levam-nos à suposição de rondarem a centena, pois tantos são os bancos de madeira que nos são enumerados nos aposentos onde se poderiam desenrolar as lições.

Da influência na sociedade micaelense nos falam os cerca de mil inscritos nas várias Congregações Marianas, que persistiram muito para além da expulsão.

Colégio de S. Francisco Xavier Tal como acontecia com S. Miguel, também o Faial recebia missões jesuítas. No século XVII, mais concretamente em 1644, um casal sem filhos, Francisco Utra de Quadros e Isabel da Silveira, faziam a Companhia herdeira das suas terras, com a condição de se estabelecer no Faial um colégio semelhante aos de Angra e Ponta Delgada. Lavrada a escritura em 1648, dá-se ao mesmo a invocação de S. Francisco Xavier. No entanto só em 1652, se lança a primeira pedra da construção onde se albergaria o estabelecimento de ensino, que começou a sua actividade em Dezembro desse mesmo ano. Curiosamente os Franciscanos que mantinham uma escola de Latim , com trinta e oito alunos, permitiram que estes passassem a frequentar o novo colégio. Mais tarde, Domingos Pereira Sarmento cede uma quinta e seu pomar, para que à imitação de Angra e Ponta Delgada também os padres dispusessem de lugar onde retemperassem as forças.

Como nos outros dois anteriores colégios também aqui a influência jesuíta se estendeu pelos tempos fora.

Externato de Vila Franca Do Campo Vila Franca do Campo, pequena vila que outrora chegou a ser principal em S. Miguel, teve, ao longo dos anos, tradição cultural notável. Primeiro foi o convento de S. Francisco que exerceu acção preponderante. Suprimidas as ordens religiosas em 1834, alguns dos frades criaram uma escola seminário que teve merecida fama. A criação do liceu em Ponta Delgada e do Seminário em Angra sepultaram esperanças de maior desenvolvimento. Em 17/ 11/ 1904 a rainha regente, D. Maria Pia, assinava o alvará que criava o Instituto de Vila Franca.

Começando as leccionações com apenas 10 alunos, a fama e o trabalho dos fundadores, Dr. Urbano de Mendonça Dias, P.e Ernesto Ferreira, Dr. António César Rodrigues e o prof. Jaime Maria Borges, cedo ganhou fama. Como todo o ser que se preza também este evoluiu, primeiro no espaço e depois nas atribuições. Nos seus inícios ocupou espaços no Palratório do convento de Santo André, vindo mais tarde a possuir edifício próprio, erguido pela família Mendonça Dias, legado, hoje, da Matriz de S. Miguel.

No campo pedagógico começou pelo então primeiro ciclo do ensino secundário, vindo a evoluir de acordo com a legislação, e habilitando até ao então quinto ano do ensino liceal. Do seu profícuo trabalho falam os inúmeros alunos, alguns deles com acção de destaque na sociedade micaelense e açoriana. Com a democratização foi substituído pela escola básica, hoje Básica 2, 3.

Instituto Fisher A 13 de Janeiro de 1892 o jornal, A Persuasão, noticiava a chegada a Ponta Delgada de um grupo de quatro padres franceses, que se vinham dedicar ao ensino da juventude. Passados alguns tempos noticiava o mesmo jornal que o Instituto Fisher começava a funcionar. A origem do nome era pelo semanário ligado à doação que quatro senhoras, com esse apelido, teriam feito aos padres do Espírito Santo. Não deixa de ser curioso que em todas as notícias que surgem na imprensa local sejam os mesmos padres apelidados de jesuítas «os padres que aqui temos são jesuítas da ordem do Espírito Santo que se dedicam ao ensino». Não entrando em polémica, note-se que Espírito Santo era uma congregação, não uma ordem, distinta dos Jesuítas, e que se dedicava fundamentalmente à missionação, exercendo também o magistério como complemento. Naturalmente que a confusão pode ter algum fundamento apenas e só porque os métodos pedagógicos seguidos pelas duas instituições, bem como os seus fins, são muito semelhantes. A fama pedagógica dos Padres do Espírito Santo neste colégio fez convergir para o mesmo muita da juventude das melhores famílias micaelenses. Em 1910, com a expulsão das ordens religiosas a doação foi restituída aos familiares das senhoras que haviam feito a doação.

Externato do Infante Na década de 1960, em Ponta Delgada aparecia um estabelecimento que tinha características muito próprias.

Adoptou o nome de Externato do Infante e propunha-se, segundo o folheto que o apresenta, «colocar o velho burgo de Ponta delgada a par das grandes cidades », iniciando um ensino para «criar (no aluno) uma mentalidade própria que o acompanhe para além das horas lectivas». O seu mister era o ensino secundário particular, mas estendia-se muito para além daquilo que era por norma tal ensino. Com efeito para além das aulas normais a tal actividade, que seriam dadas nas horas da manhã e princípio da tarde, havia ainda disciplinas como declamação, fotografia, cinema de amadores, equitação, natação, atletismo. Não obstante todas essas actividades entre as 17 e 19 horas funcionariam as salas de estudo. Nas horas seguintes, desenrolar-se-ia o ensino nocturno.

Para o caracterizar os seus promotores utilizam um termo americanizado: seria uma escola: «Polytechnic». Como todos os seus similares teve os seus momentos de glória, acabando por ser suplantado pela difusão da obrigatoriedade da frequência do ensino oficial, nos fins da década de 1970.

Os Externatos do Pico Porque as condições de criação e o desenvolvimento é muito semelhante, juntamos na mesma notícia os três externatos nascidos nas três vilas do Pico: Madalena, S. Roque e Lages. Em todas elas, na década de 1960 algumas pessoas de boa vontade, e tendo em conta que muitas famílias não dispunham de meios económicos que lhes permitissem educar os filhos como era seu desejo, juntaram as forças para proporcionar esse bem, na sua própria terra. Repartindo as aulas por diversos edifícios disponibilizados para o efeito, lá foram concretizando os objectivos.

Hoje, todos esses concelhos dispõem de escolas até ao 12º ano, que foram evoluindo dos antigos externatos, na medida das exigências das populações e forças respectivas nas esferas políticas.

Externato da Ribeira Grande Em 1915, um jovem, de seu nome Ezequiel Moreira da Silva, tendo concluído o seu curso complementar dos liceus, em Ponta Delgada, em conjunto com um professor do ensino primário, Laurino de Melo Garcia e um padre, Joaquim de Chaves, funda na Ribeira Grande o colégio Gaspar Frutuoso.Era sua intenção habilitar alunos até ao terceiro ano liceal de então. Durante seis anos cumpriu as suas funções com agrado generalizado.

Ao fim desse tempo fechou as portas, e houve que esperar até 1947, para, agora sob o patrocínio da Câmara, nascer o Colégio Ribeiragrandense, onde teve acção de mérito o Dr. Agostinho de Sá. Mais tarde foi, por imposição legislativa, baptizado com o nome de Externato Ribeiragrandense. Após várias vicissitudes iria perdurar até aos inícios de 1974, quando a extensão da Escola Técnica de Ponta Delgada abriria na Ribeira Grande. Nesta fase de Externato Ribeiragrandense é de salientar a acção do Dr. Manuel Barbosa, advogado, que durante muito tempo foi a sua alma.

Externato Maria Isabel do Carmo Medeiros A 28 de Setembro de 1962, um despacho ministerial autorizava o Externato Maria Isabel do Carmo Medeiros, na vila da Povoação a receber cinquenta alunos do ensino liceal, (1º ciclo). Por doação do Pe. João de Medeiros, natural dessa vila, mas residente em Fall River, nos Estados Unidos da América, era criada uma fundação que levava o nome acima transcrito, homenageando a mãe do doador. Feitas as diligências junto do bispo e das autoridades civis, foi o estabelecimento criado com o objectivo de facilitar aos pequenos estudiosos do concelho o acesso aos bens do espírito. Como todos os congéneres teve papel preponderante vindo a ser substituído nas suas obrigações pela criação do ensino oficial, já na década de oitenta, tendo nos fins de noventa alcançado o secundário.

Externato Cunha da Silveira Nos inícios da década de 1960 um grupo de residentes em S. Jorge, mais concretamente na vila da Velas, constituído pelo Eng.º José Maria de Melo, Dr. Duarte de Sá, P.e José Pedro e o Professor Rogério Contente, institui o Externato Cunha da Silveira. A origem do nome deve-se ao facto de a família que ostentava esse apelido, ter cedido uma antiga «casa de queijo», para funcionamento do Externato. Os objectivos eram, como em casos paralelos, evitar que a juventude de S. Jorge fosse obrigada a «emigrar», para prosseguir os estudos. Das dificuldades havidas em casos paralelos já vezes várias deixamos as razões principais. Mas, de dificuldade em dificuldade a verdade é que até à oficialização do ensino preparatório nas duas vilas, Velas e Calheta, e mais tarde do ensino secundário, foi esse externato o alfobre onde se geraram obreiros do engrandecimento dos Açores. Teixeira Dias (Mai.2001)

Bibl. Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (Lisboa), Ministério do Reino, Antigas Secretarias de Estado, Maço 3873. Açoriano Oriental. Arquivo dos Açores (1980), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, II: 17. Costa, F. C. (1975), A Instrução em 4 séculos da História Açoriana. Mensagem, 53-54: 12-15, 9-12. Dias, J. M. T. (1997), Todos os Santos, Uma casa de Assistência jesuíta em São Miguel. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Dias, M. L. P. T. (1998, 2000) A Instrução Primária em Ponta Delgada. Insulana, 54: 175-220, 56: 7-46. Dias, U. M. (1928), História da Instrução nos Açores. Vila Franca do Campo. O Externato do Infante [folheto]. Gomes, F. (1989), O Marquês de Pombal e as Reformas do Ensino. Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica. O Monitor. Montalverne, A. (1960-62), Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, I. A Persuasão.