coelho

Nome vulgar de pequeno mamífero Oryctolagus cuniculus, pertencente à ordem Lagomorpha (Família Leporidae).

Presente em todas as ilhas à excepção do Corvo (Mathias et al. 1998), terá sido introduzido no arquipélago dos Açores, como aliás foi referido por Drouët (1861): «Tous les mammifères des Açores sont de l’Europe tempérée, et paraissent, pour la plupart, avoir été introduits par les colons portugais et flamands», onde mais adianta explicita que a aparição do coelho «...dans l’archipel remonte incontestablement à l’époque de la colonisation». Godman (1870) refere, mais concretamente, Lepus cuniculus, Linn. como sendo uma das espécies que terá sido introduzida, intencional ou acidentalmente, pelo homem. Neste artigo o autor regista que o coelho era muito abundante na natureza, em estado selvagem, frequentando os bosques na ilha de S. Miguel, nomeadamente nas vizinhanças das Furnas. No entanto, era raramente observado nas zonas baixas e cultivadas. Relata que os dois exemplares por ele observados apresentavam padrões de coloração semelhantes aos indivíduos ingleses mas de dimensões menores, como as que ocorriam em Inglaterra quando as disponibilidades alimentares eram exíguas.

Com efeito, através de conferência proferida a 14 de Janeiro de 1909 no Athenneu Commercial, Francisco Affonso Chaves (1911) relata-nos as suas experiências ocorridas no ano de 1893, entre o cruzamento de coelhos da ilha de S.Miguel e de Porto Santo:

«No começo do seculo 15, segundo dizem os historiadores Azurara e João de Barros, levou Bartholomeu Perestrello para a ilha do Porto Santo uma coelha e filhos (nascidos estes no navio, onde veio a coelha da Europa) “os quaes, indica Gaspar Fructuoso, na sua Historia das ilhas, multiplicaram depois na ilha do Porto Santo de tal maneira e em tanta quantidade, que foi a maior praga que houve na terra, porque não deixavam crear erva verde na ilha que a não comessem....”.

Este coelho de Porto Santo devido a modificações do primitivo animal, produzidas pelo meio onde tem vivido, constitue hoje especie distincta, com o nome de Lepus Huxleyi.

Desejando estudar este curioso animal, e crusa-lo com o nosso coelho bravo (Lepus cuniculus) obtive em 1893 da ilha do Porto Santo, cinco casaes de Lepus Huxleyi, que fugiram do local (em Ponta Delgada) onde os tinha posto, isto depois de ali estarem poucos dias.

Ter-se-hão estes coelhos do Porto Santo propagado em S. Miguel e ter-se-hão crusado com o coelho bravo d’aqui?»

É bem natural que o cruzamento destes coelhos tenha sido bem sucedido, pois tal como os coelhos da Madeira, os do Arquipélago dos Açores são fenotípica e genotipicamente semelhantes aos do Continente ( Carvalho et al. 1993, 1994).

Ferrand et al. (1988) sugerem através de estudos da frequência do alelo TfA no locus da transferina, que a colonização do coelho selvagem nas Ilhas Açoreanas, no início do século XV foi caracterizada por um efeito fundador e/ou de uma deriva genética subsequente. No entanto, segundo Carvalho (1993), os coelhos provenientes de S. Miguel serão, do ponto de vista somático, ligeiramente mais pesados do que os da Terceira e de Portugal Continental.

Embora se desconheça a data exacta da introdução desta espécie no arquipélago dos Açores, supõe-se que esta tenha sido feita pelos colonizadores, sendo eventualmente, anterior à descoberta oficial do arquipélago (Chaves 1911; Fructuoso 1978, 1983). A este respeito Ulfstrand, 1961 refere: «One of the mammals suggested to have existed on the Azores before man, is Oryctolagus cunniculus L. This species was introduced a very long time ago according to Chaves (1911:16) in the first half of the 15th century, i.e., practically at the same time as the Portuguese ships visited the islands. The resident population is referable to ssp. Huxleyi Haeck., originally distributed over the Mediterranean region (Ellerman & Morrisson-Scott 1951:444)».

Como atrás foi mencionado, Godman (1879) refere que do ponto de vista ecológico esta espécie se encontra, no estado selvagem, na ilha de S. Miguel, em bosques. Carvalho (1993) Mathias et al. (1998) confirmam a sua abundância em todas as ilhas e a preferência pelos bosques, em particular, quando associados com gramíneas e arbustos. No entanto, e devido às pequenas dimensões do seu domínio vital pode-se encontrar um pouco por todo o lado (Chapuis,1984). É muito abundante, vivendo em grupos familiares, constituídos de 2 a 7 indivíduos adultos, vinculados a estruturas hierárquicas muito marcadas (Carvalho et al., 1993). Constrói e habita sistemas de galerias com estrutura complexa. O coelho é um herbívoro que consome preferencialmente gramíneas, produtos hortícolas, cereais, sementes e frutos (Mathias, 1999).

Outros aspectos que foram recentemente abordados estão relacionados com a parasitologia. A pulga Spilopsyllus cuniculi encontra-se associada aos coelhos do Arquipélago dos Açores (Smitt, 1966). Roland Libois et al. 1997 confirmam a ocorrência desta espécie de pulga em quase todas as ilhas à excepção da ilha Flores.

Casanova et al. (1996) debruçaram-se sobre a helmintofauna associada a estes lagomorfos. Uma espécie de céstodo: Neoctenotaenia ctenoides (Railliet, 1890) e quatro de nemátodos: Trichostrongylus retortaeformis (Zeder, 1800), Graphidium strigosum (Dujardin, 1845) and Nematodirus sp e Passalurus ambiguus (Rudolphi, 1819) foram encontradas neste hospedeiro, presente nalguns dos ecossistemas insulares.

coelho-bravo O coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) é uma das espécies da ordem Lagomorfa, incluída na família Leporidae. A subespécie referida para os Açores – O.cuniculus algirus Locke – é a mesma que ocorre no Norte de África e em Portugal Continental (e.g. Ferrand, 1993), de onde serão originários os primeiros invasores, tal como sugerido (confirmado) pela análise de diferentes marcadores genéticos (e.g. Ferrand et al., 1988). A colonização das ilhas dos Açores pelo coelho-bravo deverá ter acompanhado a colonização humana, no século XV, e deverá ter coincidido com a introdução de outras espécies de mamíferos, como o ratinho-caseiro (Mus musculus domesticus) e a ratazana-preta (Rattus rattus) (Goodman, 1870; Drouet, 1861; Mathias et al., 1998).

Presentemente o coelho-bravo é um dos mamíferos mais abundantes no Arquipélago, ocorrendo em todas as ilhas, com excepção do Corvo. O coelho-bravo é também a mais importante espécie cinegética do arquipélago (Carvalho et al., 1993), tanto em termos numéricos como económicos.

Nos adultos, a média do peso é de cerca de 1000g, observando-se um decréscimo nos meses de Inverno (Dezembro-Janeiro) devido às deficientes condições climáticas e diminuição dos recursos alimentares. Não existem aparentemente diferenças significativas nas dimensões entre espécimes dos Açores e do Continente (Queirós et al., 1991; Carvalho, 1993; Carvalho et al., 1993, 1994). Graça Ramalhinho (Dez.2000)

Bibl. Carvalho, G. (1993), Estudo do parâmetro peso no coelho selvagem (Oryctolagus cuniculus) na ilha de S.Miguel, Açores In M.C.Rodrigues (ed.), Homenagem a J.R. dos Santos Junior. Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, II: 69-88. Carvalho, G., Ferrand, N., Fonseca, A., Branco, M., Azevedo, A., Mendes, R., Batista P. e Mântua, P. (1993), Estudos de uma população de coelhos selvagens (Oryctolagus cuniculus, L.) na ilha de S. Jorge, Açores In Expedição Científica São Jorge e Topo/92. Ponta Delgada, Relatórios e Comunicações do Departamento de Biologia: 8-20. Carvalho, G., Fonseca, A., Cruz, A., Célio, P., Mântua, P., Simões, C., Silva, S. e Arruda, G. (1994), Estudo preliminar de alguns parâmetros de uma população de coelho selvagem (Oryctolagus cuniculus, L.) na ilha do Faial, Açores In Expedição Científica São Jorge e Topo/93. Ponta Delgada, Relatórios e Comunicações do Departamento de Biologia:1-10. Casanova, J. C., Miquel, J., Fons, R., Molina, X., Feliu, C., Mathias, M. L., Torres, J., Libois, R., Santos-Reis, M., Collares-Pereira, M. e Marchand, B. (1996), On the helminthfauna of wild mammals (Rodentia, Insectivora and Lagomorpha) in Azores Archipelago (Portugal). Vie Milieu, 46 (3/4): 253-259. Chapuis, J. L. (1984). Atlas des Mammifères sauvages de France. Paris, Société pour l’Étude et la Protection des Mammifères: 204. Chaves, F. A. (1911), Introducção de algumas especies zoologicas. Ilha de S. Miguel depois da sua descoberta/ Conferencia realisada no Atheneu Commercial no dia 14 de Janeiro de 1909. Ponta Delgada, Typ. Diario dos Açores. Corbet, G. B. e Hill, J. E. (1991), A World list of mammalian species. 3ª ed., Oxford University Press. Drouët, H. (1861), Éléments de la Faune Açoréenne. Paris, J. B. Bailliére & Fils, Libraires de l’Académie de Médecine. Ellerman, J. R. e Morrison-Scott, T. C. S. (1951), Checklist of Palaearctic and Indian Mammals, l758 to 1946. British Museum (Natural History), Londres. Ferrand, N., Carvalho, G. e Amorim, A. (1988). Transferrin (Tf) polymorphism in wild rabbit. Oryctolagus cuniculus. Animal Genetics, 19: 295-300. Frutuoso, G. (1978), Livro Sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Id. (1983). Livro Terceiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Godman, F. C. (1870), Natural History of the Azores, or Western Islands. Londres, John van Voorst. Libois, R., Fons, R., Mathias, M. L., Santos-Reis, M., Petrucci-Fonseca, F., Ramalhinho, M. G., Oom, M. M. (1997), Notes on the flea fauna (Insecta, Siphonaptera) of the terrestrial Azorean Mammals. Arquivos do Museu Bocage, N.S., III (1): 1-11. Mathias, M. L, Ramalhinho, M. G., Santos-Reis, M., Petrucci-Fonseca, F., Libois, R., Fons, R., Ferraz de Carvalho, G., Oom, M. M. e Collares-Pereira, M. (1998), Mammals from the Azores islands (Portugal): an updated overview. Mammalia, 62, 3: 397-407. Mathias, M. L. (1999). Ordem Lagomorpha In Mathias, M. L. (ed.), Mamíferos Terrestres de Portugal Continental, Açores e Madeira. Instituto de Conservação da Natureza: 99-103. Smit, F. G. M. (1957), Handbooks for the identification of British insects. Siphonaptera. Londres, Royal Entomological Society, 1 (16). Ulfstrand, S. (1961), On the vertebrate fauna of the Azores. Boletim do Museu Municipal do Funchal, XIV (49): 75-86.

 

Quadro comparativo

 

 

Comp. total crânio

Larg. zigomática

Comp. série dentária sup.

Comp. palato

Comp. mandíbula

Continente

68.5-76.0

33.7-36.0

12.3-14.6

27.1-31.3

52.2-56.2

Ilha Terceira

77.9-78.5

35.1-36.0

12.9-13.5

31.8-32.4

56.8-58.9

Ilha S. Miguel

68.4-75.6

34.0-36.7

12.7-13.9

27.1-30.8

52.3-57.5