Coelho

Da ilha Terceira. Descendem de dois irmãos, sendo um deles o navegador João Coelho, que integrou o primeiro núcleo de povoamento da ilha Terceira, e o outro Sebastião Coelho, povoador da ilha do Porto Santo. Os dados fornecidos pelas Cartas de Brasão d’Armas permitem-nos reconstituir uma ascendência que entronca, mais clara e seguramente do que sucede com boa parte dos povoadores açorianos, num tronco familiar de raízes medievais. Os dois irmãos eram filhos de João Coelho, morador em Valença do Minho, netos de Afonso Coelho e bisnetos de Sebastião Coelho (século XIV), «os quais foram todos fidalgos muito honrados do tronco desta geração». É possível que o Afonso Coelho, acima, pudesse corresponder a um homónimo e contemporâneo que viveu em Guimarães, onde teve casa muito honrada, como escreve Gayo, ou fosse parente de Pedro Coelho, descendente de Fernão Coelho, senhor de Felgueiras, no entanto esse entronque excede os propósitos desta notícia.

João Coelho, navegador, integrou-se no núcleo de povoadores que se instalou na ilha Terceira ao redor de 1456 sob a chefia de Jácome de Bruges que lhe doou extensas terras no termo do Porto Judeu, desde o Vale até ao varadouro dos barcos, avançando por cima das Ladeiras. Segundo ficou memória tratou-se da primeira data de terrenos que nesta ilha se demarcou, e também a única deste período que acabou por ser transmitida aos descendentes do primeiro terratenente. A chegada de João Vaz Corte-Real, investido em 1474 na capitania de Angra, que abarcava a zona do Porto Judeu, originou conflitos que obrigaram João Coelho a abandonar a Terceira e a regressar ao continente. Instalado em Lisboa terá exercido funções nas Tercenas Novas, provavelmente nas dependências que se encontravam instaladas nas Portas da Cruz.

Diversos autores admitem que tenha navegado até às Antilhas antes de Cristóvão Colombo, o qual, de acordo com algumas teses, poderia ter integrado a sua tripulação, no decurso duma viagem que se supõe possa ter decorrido entre 1475 e 1484. Existe, pelo menos, uma referência a essa viagem numa carta escrita por Estêvão Fróis a 30.7.1514, quando este se encontrava prisioneiro dos castelhanos em S. Domingos, no Haiti, e dirigida a D. Manuel I.

João Coelho casou no continente, em data posterior a 1484, com Catarina Rodrigues da Costa, natural de Guimarães, e «dos nobres dessa vila», a fazer fé nos genealogistas. De acordo com fr. Diogo das Chagas, seu próximo descendente, esta Catarina Rodrigues da Costa morreu na ilha Terceira em 19 de Abril de 1521, depois de ter enviuvado do primeiro marido (muito mais velho do que ela), e casado segunda vez com João Álvares da Silva, juiz dos órfãos em Angra até 1524.

Dos dois filhos conhecidos de João Coelho, navegador e povoador do Porto Judeu, na ilha Terceira, o primogénito, Salvador Coelho, foi fidalgo da Casa Real e cavaleiro professo na ordem de S. Tiago, tendo-lhe sido passada em 10.7.1556 uma carta de Brasão d’Armas (Coelhos, pleno, tendo por diferença uma merleta de oiro). Casou com Catarina Martins, natural da vila da Praia, e o casal testou a 26 de Fevereiro desse mesmo ano de 1556. Os descendentes de João Coelho disseminam-se por toda a Terceira e ilhas adjacente a partir do Porto Judeu. Alguns, poucos, continuaram a viver à lei da nobreza enquanto outros mergulhavam na obscuridade rural, restando descendência actual no arquipélago, continente e Brasil.

Sebastião Coelho, irmão de João Coelho, povoador da Terceira, radicou-se na ilha do Porto Santo, onde casou com Ana Teixeira, filha de João Rodrigues Neto Calaça, descendente dos antigos Netos, senhores de Cubo e alcaides mores de Matilla, em Ciudad Rodrigo, e dos Calaças de Elvas, de quem teve descendência no Porto Santo. Em 22 de Maio de 1540, foi-lhe passada uma Carta de Brasão de Armas de Coelhos (plenos) na qual se encontrava registada a ascendência que acima é referida.

Um filho seu, chamado Afonso Luís Coelho, passou à Terceira depois da morte de seu tio João Coelho, e instalou-se no Porto Judeu, em casa de seu primo Salvador Coelho, onde casou com Filipa Vaz d’Ávila, filha de António Vaz Nogueira e de sua mulher Filipa Gonçalves de Ávila, esta última filha de Antão Gonçalves d’Ávila, tronco dos Bettencourt e Ávila dos Açores. Este casal foi tronco do segundo ramo de Coelhos radicados na ilha Terceira, com geração actual. Manuel Lamas (2002)