cinema

No ano seguinte ao da inauguração do animatógrafo em Lisboa, João Anacleto Rodrigues realizou uma viagem pelas três capitais dos distritos açorianos para apresentar várias sessões. A partir de 31 de Agosto de 1897, ocorreram as primeiras projecções no Teatro Angrense que se repetiram, nos meses de Setembro e Outubro, no Teatro União Fayalense e Teatro Micaelense, respectivamente. A imprensa local, que já tinha noticiado a invenção do norte-americano Edison e divulgado as primeiras sessões dos irmãos Lumière (1895), procurou mobilizar o público para as sessões. Razões múltiplas não atraíram os espectadores às primeiras projecções: o preço elevado dos bilhetes, a época de Verão, com muita gente a veranear fora das cidades, e o receio do público em enfrentar essa “máquina diabólica", receoso dos perigos de incêndio nas salas. As primeiras sessões duravam aproximadamente uma hora, com a projecção de 12 quadros, acompanhados por uma orquestra. No ano de 1897, António Manuel Estrela e irmão, micaelenses, adquiriram uma máquina de projecção que foi utilizada nalgumas sessões em Ponta Delgada. Em 1902, Porfírio Bessone, estreou na mesma cidade o seu Animatógrafo-Biógrafo, deslocando-se, no ano seguinte, a Angra.

Estes primeiros anos de vida do animatógrafo nos Açores caracterizaram-se por uma série de deficiências técnicas e irregularidade na apresentação dos espectáculos, na medida em que dependiam das deslocações do continente aos Açores, mas 1908 marcou o início de uma fase de melhoria da qualidade e da regularidade das sessões. Foi dado um salto qualitativo com a aquisição de várias máquinas e a organização de empresas distribuidoras. A empresa Santos & Cª estreou o seu cinematógrafo no Salão Edison, em Ponta Delgada, com a primeira longa metragem "A Vida de Cristo". Com a aquisição de novos aparelhos, os empresários limitavam-se a mandar vir de Lisboa as fitas para serem exibidas, podendo assim apresentar sessões semanais nas salas de espectáculo ou ao ar livre. Este processo contribuiu para baixar os custos de exibição, tornando o cinema acessível a vastas camadas da população. Nos anos 20 e 30, o cinema já começava a democratizar-se nos espaços urbanos das três ilhas principais, com sessões em recintos fechados ou ao ar livre. Para as restantes, refira-se a estreia do animatógrafo, em S. Mateus, do Pico, em 1924, propriedade de um francês, e a estreia em 1927, no Cais do Pico, onde foi instalada, em 1930, uma moderna máquina de projecção; nas Lajes, o cinema teve início em 1931. Em S. Jorge, em 1915, já se realizavam sessões de animatógrafo e, no início de 1928, a empresa Santos e Amorim anunciava sessões de cinema todos os Domingos e feriados especiais, no Grémio Calhetense. Na Graciosa, a primeira sessão do animatógrafo ocorreu em 1909. Nas Flores, as primeiras sessões ocorreram em 1957, e com regularidade, a partir de 1959 no Cine-Jardim; em Santa Maria, desde de 1946, no Cine-Aeroporto.

A partir da década de 20, ultrapassadas as deficiências técnicas iniciais, os filmes apresentavam não só melhor qualidade mas também uma grande diversidade. Nesta altura, o cinema começou a integrar-se na vida diária urbana originando discussões apaixonadas que saltaram para a imprensa. Os periódicos passaram a incluir artigos de formação e de divulgação do cinema, tendo sido criados alguns periódicos que se debruçavam exclusivamente sobre a 7ª Arte.

Em 1931, o cinema sonoro chegou aos Açores. A exibição de "O louco cantor", em 28 de Março, em Ponta Delgada, obteve um êxito extraordinário, repetido noutras ilhas. A partir de então, o cinema mudo foi desaparecendo e os empresários começaram a adquirir máquinas novas e modernas para projecção de cinema sonoro que foi cativando novos adeptos.

A grande explosão do cinema verificou-se a partir da II Guerra Mundial, começando a atingir os meios rurais de todo o arquipélago. Se numas localidades se continuavam a fazer projecções ao ar livre, noutras foram surgindo Salões de Recreio e Cultura com sessões semanais. Deste modo cresceu significativamente a assistência ao cinema até aos anos 80, altura em que a RTP/Açores e os clubes de vídeo se expandiram pelas ilhas. A partir de então, as sessões de cinema entraram em decadência. Só em Ponta Delgada foi possível manter em funcionamento várias salas com sessões diárias, enquanto nas outras ilhas só, de vez em quando, se realizam ciclos de cinema, por iniciativa de organismos culturais com apoio oficial.

documentários cinematográficos sobre os açores Tudo indica que as primeiras filmagens feitas nos Açores reportam ao tempo da viagem que o rei D. Carlos fez ao arquipélago. Posteriormente, aparece um documentário de 1912, mas foi a partir dos anos 20 que se realizaram regularmente documentários sobre os Açores. As primeiras iniciativas pertenceram a empresas sediadas no continente, por conta própria ou com o apoio de organismos e entidades ligadas à região, que pretendiam promover o arquipélago. Em 1924, foi feita a primeira grande produção abarcando várias ilhas, mas só foi projectada no arquipélago em 1930.

Foi nesta altura que surgiram amadores locais a iniciarem-se nesta arte. Apareceram, assim, os primeiros filmes açorianos, como a imprensa os baptizou, por serem feitos e produzidos em “laboratórios” locais. Nesta perspectiva, o primeiro filme açoriano, da empresa Foto-Cinema Açores, foi realizado pelo terceirense António Luis Lourenço da Costa, mais conhecido por fotógrafo Lourenço. A fita, denominada Documentário Terceirense, com cerca de mil metros e 42.000 fotografias, foi apresentada em Angra a 9 de Fevereiro de 1927. Em Ponta Delgada, foi fundada, em 1930, a Toste Film, por iniciativa de Jacinto Oscar Dias Rego, fotógrafo e amador de cinematografia. Neste ano, estreou-se o “primeiro filme exclusivamente micaelense”, com 700 metros, composto por um documentário e um cine-jornal, cujos quadros eram precedidos de legendas compostas por Agnelo Casimiro. Posteriormente, surgiram muitos outros filmes sobre os Açores, de produção regional, nacional e internacional. Carlos Enes (Fev.2001)

Bibl. Cruz, J. M. (1985), Arquipélago dos Açores – um roteiro fílmico. Lisboa, Cinemateca Portuguesa. Enes, C. (1992), Subsídios para a História do Cinema nos Açores. Ponta Delgada, Videoteca RTP/Açores. Prontuário do Cinema Português (1989), Lisboa, Cinemateca Portuguesa.