ciências hortícolas

Não podemos deixar de recordar que a horticultura não é apenas ciência, é também tecnologia, arte e divertimento. Definir o que são as ciências hortícolas não é fácil. Longe vai o tempo em que se considerava a horticultura diferente da agronomia que era a ciência e a tecnologia das produções agrícolas e da silvicultura que era a ciência e a tecnologia das florestas, da produção de árvores e arbustos. Hoje, os limites não são nítidos e a produção de plantas ornamentais expandiu-se de tal forma que a vimos invadir essas duas áreas e ir buscar cereais, abóboras, feijoeiros, ervas de pastagem, ao sector da agronomia e arbustos e árvores à silvicultura. A horticultura estava dividida formalmente em três ramos: a floricultura, estudava a produção de flores, a pomologia dedicava-se à produção de frutos, a olericultura tinha como objectivo a produção de vegetais para a alimentação. Mais recentemente, foi criado um quarto ramo, a horticultura ornamental que Le Bailey definiu como a cultura de plantas para ornamentação e divertimento, dedicada aos jardins privados, ligados às habitações e aos aspectos ornamentais de parques, jardins públicos, jardins botânicos, paisagem, estabelecimento de viveiros e comércio de plantas. Cada um destes ramos, envolve grandes interesses e necessita de investigação própria. Há ainda que considerar as ciências que servem de base à horticultura. Em primeiro lugar vem a botânica, com os seus diferentes ramos, como a taxonomia, ciência que nos permite distinguir as plantas e classificá-las até à espécie e cultivar, esse será o primeiro passo da horticultura, mas, a anatomia, a citologia e a fisiologia vegetais, conduzem à compreensão da verdadeira potencialidade das plantas. A genética tem contribuído, ao longo dos anos, largamente para o desenvolvimento da horticultura, e, a utilização de plantas híbridas está generalizada, mas, nas últimas décadas, a engenharia genética, ultrapassou todos os sonhos dos horticultores, embora talvez seja muito recente, para podermos saber, as verdadeiras consequências da sua aplicações, como proclamam alguns. A química, aplicada aos adubos, pesticidas, herbicidas e raticidas permitiu aumentar as produções, e, combater doenças e pragas, embora se desconheça ainda até que ponto se exagerou nesse campo. A biologia, é também uma das ciências básicas, nesta luta pelo melhoramento quantitativo e qualitativo da produção porque estuda a acção dos pesticidas nos seres vivos, e, procura substituí-los pela luta biológica, caminho que muitos já consideram como o único a adoptar. O estudo das hormonas vegetais, a descoberta das suas funções nas plantas, e, a consequente fabricação sintética destes produtos, conduziu a resultados espectaculares no enraizamento de estacas, na germinação de sementes, na monda de frutos, no desenvolvimento de frutos sem polinização, na criação de reguladores de crescimento mas, sobretudo permitiu uma nova compreensão da vida das plantas. Práticas velhíssimas, como os bonsai ou os cordões e espaldeiras de fruteiras, viram as suas dificuldades diminuídas, com a criação de novas ferramentas. Em tempos ainda recentes praticava-se principalmente a horticultura ao ar livre, e, o horticultor seguia o desenvolvimento da planta desde a semente, o tubérculo ou o bolbo, até ao produto acabado. Hoje, a horticultura sob coberto vem-se alargando, cada vez mais, com sistemas de rega variados, controle de humidade, luz, anidrido carbónico, orientado por computadores, o que envolve novas ciências, como a física, a hidráulica e a informática, e, o horticultor recorre frequentemente à aquisição de jovens plantas, bolbos ou tubérculos produzidos por micropropagação, por germinação de sementes, ou plantas já enxertadas, em empresas, com recurso a novas tecnologias, e, em muitos casos, reduz a sua actividade a apenas uma parte da produção. No meio de toda esta complexidade que rodeia a horticultura, quais são as ciências hortícolas? É evidente que muitas destas ciências que servem a horticultura, não a servem em exclusivo, mas, na verdade fazem parte da sua própria essência e sem o seu concurso já não pode subsistir.

Em 1976 foi criado o Instituto Universitário dos Açores, que foi instalado na ilha Terceira – Terra Chã, no edifício onde tinha funcionado o Hospital Militar, durante o período da guerra no Ultramar. De 1976 a 1980 existiu o Curso de Produção Agrícola, em cujo plano de estudo estava incluída a horticultura, bem como as disciplinas de base indispensáveis para a sua compreensão e estudo.

Em 1980 desapareceu o Instituto, que passou a ser um campus da Universidade dos Açores, situado nas mesmas instalações e, de 1980 a 1987, passou a existir a licenciatura em Ciências Agrárias, opção Produção Agrícola. Em 1987, por revisão curricular, foi criada a licenciatura em Engenharia Agrícola. A partir de 1999 foram criadas duas opções para a licenciatura em Fitotecnia e Biotecnologia.

A despeito de todas estas modificações, o ensino das ciências hortícolas tem permanecido no plano de estudos e o número de créditos atribuídos a estas disciplinas tem aumentado.

Embora não podendo ser esquecida a acção dos brilhantes horticultores que, durante o século XIX, introduziram tantas novas espécies exóticas nas ilhas e aos quais se deve a existência de tão lindos jardins e a introdução de muitas espécies úteis que chegaram aos nossos dias, o ensino das ciências hortícolas nos Açores teve o seu início em 1976. Raquel Costa e Silva (Set.2001)

Bibl. The New Royal Horticultural Society Dictionary of Gardening (1992), Londres, Macmillan Press, 2: 583-584.