ciência

Conjunto de conhecimentos explicados, realizados e sistematizados. São essa explicação, essa relacionação e essa sistematização que caracterizam o conhecimento científico e o diferenciam do conhecimento vulgar, ou empírico, que se limita a verificar os factos sem lhes buscar uma explicação racional, nem as suas relações inteligíveis com outros factos, sistematizando.

Assim tida, pode ser considerado que nos Açores, até meados do século XVIII, não foi desenvolvido o conhecimento científico, ressalvando-se casos singulares como os de Gaspar Frutuoso, Diogo das Chagas e Agostinho Montalverne, todos ligados à Igreja, tratando a natureza das ilhas e o que nelas ocorria. Porém, desde meados daquele século, os Açores foram procurados por naturalistas estrangeiros que se dedicavam, principalmente, ao estudo da fauna, da flora e da geologia. Mais, esse interesse pelo arquipélago aumentou desde que, em 1859, Charles Darwin publicou a obra On the Origin of Species by Means of Natural Selection, tendo mesmo originado um número considerável de obras publicadas. Esse interesse relacionava-se com o facto destas ilhas, nascidas do mar, poderem suportar formas faunísticas e florísticas de transição entre as regiões Paleártica e Neártica (cf. Arruda, 1998).

Foi no seguimento desse interesse da comunidade científica internacional pelas ilhas açorianas que alguns poucos açorianos, ou residentes nos Açores, se manifestaram pelo estudo das ciências da natureza.

No Faial, primeiro, John Bass Dabney (1766-1826), nomeado primeiro cônsul dos Estados Unidos da América, na Horta, por Thomas Jefferson, e posteriormente, seu filho Carlos, introduziram nos jardins da residência Bagatelle, que aquele construiu entre 1811/1814, na rua de S. Paulo, e noutras propriedades, numerosas espécies botânicas, com o objectivo de as adaptar e propagar.

Na Terceira, José Augusto da Silva Sampaio (1827-1900) médico, salientou-se como naturalista. Morreu antes de concluir o seu trabalho sobre esta ilha, que havia de ser concluído por seu filho (Sampaio, 1904).

Mas foi em Ponta Delgada, na segunda metade do século XIX, que aconteceu ter convivido um grupo de naturalistas, em torno do gabinete de ciências naturais do liceu da cidade, depois museu, e de alguns jardins particulares. Graças à iniciativa de Carlos Maria Gomes Machado (1828-1901), médico, naturalista e professor, e do seu gabinete de ciências naturais no liceu de Ponta Delgada, em 1876, foi organizado um pequeno museu, incluindo, preferencialmente, espécies açorianas interessando simultaneamente aos alunos, ao público em geral e aos naturalistas que, então, cada vez mais procuravam os Açores. Com o tempo, foram aderindo a esta instituição outros homens de saber como Francisco de Arruda Furtado (1854-1887), malacologista e um pioneiro da *antropologia em Portugal, Bruno Tavares *Carreiro (1857-1911), médico, dedicado à botânica, Eugénio Vaz Pacheco do *Canto e Castro (1863-1911), professor e escritor, com a geologia e a mineralogia e Francisco Afonso *Chaves (1857-1926), meteorologista e naturalista, com a zoologia.

O museu tornou-se um centro de pesquisa, principalmente taxonómica, como era uso na época, com alguma projecção internacional. Foram muitas as relações de permuta estabelecidas com personalidades e instituições no estrangeiro (v.g. Théodore *Barrois, Eugène Simon, instituto oceanográfico de Mónaco e jardins reais de Kew). A colaboração que deram a especialistas vários, justificou que pelo menos, Machado, Furtado e Chaves fossem homenageados com espécies que levaram os seus nomes (v.g. o gastrópode Helix Machadoi, a aranha Pardosa Furtadoi e o peixe Macristium Chavesi, entre outras).

Naquela época também foram criados, em Ponta Delgada e nas Furnas, jardins particulares, graças às condições de humidade e de temperatura regular, sem variações bruscas nem grande variação Verão/Inverno (10º em média), permitindo a ocorrência de vegetação luxuriante nos Açores (Barrois, 1896; Godman, 1870) e aos grandes proprietários fundiários (à escala insular) que, vivendo das rendas e proventos que a terra lhes dava, se tornaram menos absentistas no sentido em que passaram a administrar directamente, grande parte das suas terras, emparcelando, trocando e permutando inúmeras parcelas, ensaiando novas culturas e florestando enormes áreas, espírito a que estava ligado o gosto pelas plantas e o conhecimento botânico, tornado um requisito fundamental da “boa educação” (Albergaria, 1993).

A comunidade científica internacional conhecia esses jardins e reputava-os entre os mais belos do mundo. Barrois (1896), Godman (1870) e Thomson (1877) referem-se, isoladamente ou em conjunto, aos de José do Canto (1820-1898), grande proprietário e investigador bibliográfico, de Ernesto do Canto (1831-1900), escritor, historiador e naturalista, de José Jácome Correia (1816-1886), filantropo e político, e de António Borges (A. B. da Câmara Medeiros) (1812-1879), político e coleccionador de arte, como sendo verdadeiras maravilhas onde se encontravam reunidas as plantas mais belas e as mais raras dos cinco continentes. Segundo Albergaria (1993), o primeiro era considerado como jardim botânico a denotar um espírito científico, o segundo como um jardim inglês e o terceiro como um jardim pitoresco.

Na sequência do Jardim de Aclimatação de Puerto Cruz (1788-1808), nas ilhas Canárias, os Açores foram olhados como tendo possibilidade de abrigar jardins botânicos experimentais. E embora a criação de um jardim de aclimatação, com características científicas, nunca tivesse sido levada a cabo nos Açores, a verdade é que a paixão pelas plantas exóticas, com preferência pelas espécies tropicais e intertropicais, evidencia-se desde muito cedo no jardinamento das quintas de laranja e não mais seria abandonada pelos novos encomendadores dos jardins da Regeneração (Albergaria, 2000).

Nestes jardins, verdadeiros arbureta, as árvores eram tratadas com grande cuidado de modo a realizarem as suas formas características. Consequentemente, algumas espécies, particularmente aquelas de crescimento simétrico e peculiar, tal como as diferentes espécies de altíngia, araucária, criptoméria, etc. eram, provavelmente, mais perfeitas ali do que nas regiões de onde eram nativas (Thomson, 1877). Mais, o protagonismo açoriano envolveu também a propagação das espécies, um indiciador de conhecimentos botânicos apropriados.

Durante as últimas décadas de oitocentos, os naturalistas açorianos participaram nos circuitos internacionais de permuta de plantas, enviando espécies endémicas, para enriquecimento de colecções botânicas, e exemplares de flora exótica, entretanto aclimatados a latitudes temperadas, e recebendo inúmeros exemplares de outras exóticas.

No vale das Furnas, o nome de E. Canto aparece, em 1866, a encabeçar um grupo de cinco proprietários, interessados no projecto de instalação de um jardim, nas margens da ribeira das Murtas, tendo em vista aformosear o centro do vale. Desta associação nasceu o Parque das Murtas, primeiro exemplo de um jardim vocacionado para lazer do público, com projecto do jardineiro inglês George Brown, chegado a S. Miguel em 1845, para se ocupar, inicialmente, dos jardins de J. Canto (Thomson, 1877). O projecto previa a plantação de espécies exóticas que deveriam conferir um ambiente aparentemente natural e romântico.

No século XX, Ernesto Ferreira (1880-1943), sacerdote, estudou, em S. Miguel, geologia, botânica e zoologia. Foi membro da Academia das Ciências de Portugal e representante, nos Açores, do Grupo Português de História das Ciências. Nesta qualidade foi um dos mais activos colaboradores da revista Petrus Nonius, daquele grupo.

Teotónio da Silveira Moniz (1894-1953), botânico, formado na Suiça, depois de nomeado director da secção de Botânica do Museu Carlos Machado, dedicou-se ao estudo dos briófitos das ilhas do arquipélago e à organização de um herbário para aquela instituição.

José *Agostinho (1888-1978) foi um especialista internacional na meteorologia e geofísica contactando com alguns dos maiores cientistas nacionais e internacionais da época. Todavia, enquanto no observatório meteorológico, em Ponta Delgada, que partilhava o mesmo edifício com o museu, familiarizou-se com a colecção de aves. O seu trabalho de meteorologista e geofísico levou-o a visitar, frequentemente, todas as ilhas e aproveitou essa circunstância para observar as aves que eram do seu grande interesse. Nesta área fez várias descobertas relevantes, especialmente na ilha Terceira, onde residia, tornando-se um ornitologista muito conhecido e respeitado. Tinha interesse especial pela protecção das aves, exercendo a sua influência pessoal nesse sentido. Com Agostinho também foi feita ciência, nos Açores, nas áreas da aerologia, botânica, climatologia, magnetismo, sismologia, vulcanologia e tectónica.

Frederico Machado (1918-2000) vulcanólogo, destacou-se pelo trabalho desenvolvido durante o vulcão dos Capelinhos. Interessado pela sismologia, acompanhou várias crises sismícas nos Açores. Estudou tectónica e lançou as bases interpretativas das micro placas na região dos Açores.

Ferreira, Agostinho e Machado estiveram ligados à fundação de instituições vocacionadas para estudar a realidade açoriana do ponto de vista científico, e também humanístico, os seus particularismos e individualismos, como a Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves (actualmente *Associação de Estudos Açoreanos), o Instituto Açoriano de Cultura (1956) e o Núcleo Cultural da Horta (1955). Com a instalação do Instituto Universitário dos Açores, posteriormente Universidade, na década de 70, o âmbito dos estudos científicos realizados por residentes no arquipélago, particularmente na área das ciências da natureza, foi alargado e passou a ter continuidade e objectivos estritos. Como refere Martins (2001), à universidade, centro de investigação e saber, compete-lhe propôr à comunidade traçados de vivência adequados nas múltiplas àreas em que investiga: da educação ou da economia, dos variados aspectos das humanidades ou da história natural, na prevenção de catástrofes naturais ou na preservação do património biológico, no que comemos e no que bebemos, no quanto temos e no quanto somos, no como éramos e como poderemos ser, no que pensamos e no que pensamos ser.

De modo diferente evoluiu a ciência noutras áreas como as da agricultura, da pecuária e da silvicultura. Não obstante o povoamento animal das ilhas ter começado logo após a sua descoberta e o povoamento humano, por volta de 1493, obedeceram às necessidades da criação de bases de apoio à navegação dos descobrimentos marítimos e ao aliciamento resultante da fertilidade do solo que permitiu, desde logo, uma prática agrícola próspera, mas empírica, com o trigo, a cana do açúcar e o pastel, inicialmente, e com o milho, depois, só no século XIX aconteceu o fomento das produções agrícolas e silvícolas, graças às iniciativas de John Dabney e de seus descendentes, e da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, com a cultura da laranja, inicialmente, do *ananás, da *beterraba sacarina e do tabaco depois, e do florestamento com criptoméria, em particular. À experimentação de novas culturas agrícolas e florestais, no século XX, em moldes científicos, estiveram ligadas as estações agrárias das Juntas Gerais e as circunscrições florestais dos três distritos autónomos dos Açores, depois, com a autonomia regional, serviços de desenvolvimento agrário e serviços florestais e aquícolas, respectivamente. Mais, só a partir dos anos 1960 é que foi possível desenvolver uma bovinicultura mais adequada às potencialidades locais, com a aceitação progressiva pela lavoura de novas tecnologias agrícolas e zootécnicas. Muitas destas foram da responsabilidade das intendências de pecuária. Os resultados da investigação, possível, feita nestas áreas científicas estão dispersos por jornais como O *Agricultor Micaelense, o *Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores e os boletins das instituições referidas acima (*Açoreana, Insulana, *Boletim do Núcleo Cultural da Horta e *Arquipélago). Os resultados da investigação feita na Universidade, noutras áreas científicas, são divulgados, frequentemente, por séries especializadas da Arquipélago. Ver bovinos e bovinotecnia.

As publicações *Archivo Médico dos Açores e *Atlântida Médica incluem os resultados de observações feitas na área das ciências médicas. Na Apresentação da primeira destas publicações, Bruno Tavares Carreiro dirige-a aos médicos para que nela guardem «as suas observações pessoais de maior interesse clínico, [...], questões e ensinamentos [...] no vastíssimo campo da higiene pública [...] que será o departamento onde melhor se provará [...] a utilidade e oportunidade da nossa empresa». Na Breve nota de abertura da segunda publicação, Homem de Gouveia refere tratar-se da divulgação de trabalhos apresentados em Mesas Redondas Médicas dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira, realizadas desde 1972, numa iniciativa de médicos micaelenses que sentiam a necessidade de fugirem ao isolamento a que estavam votados os profissionais da Medicina que viviam nas “Ilhas” e desejavam manter um mínimo de actividade científica e, consequentemente, de valorização profissional. Luís M. Arruda (2002)

Bibl. Albergaria, I. S. (1993), Jardim António Borges, História e composição de um jardim micaelense [policopiado]. Id. (2000), Quintas, Jardins e Parques da Ilha de S. Miguel: 1785-1885. Lisboa, Quetzal. Arruda, L. M. (1998), Naturalists and Azores before the 20th century. Museu Bocage, Publicações Avulsas (2), 3. Barrois, Th. (1896), Recherches sur la faune des eaux douces des Açores Memoires de la Société des Sciences, de l'Agriculture et des Arts de Lille (5), 6: 1-272. Godman, F. C. (1870), Natural History of the Azores or Western Islands. Londres, John van Voorst. Martins, A. M. F. (ed.) (2001), Investigação científica, 1995 – 1998. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Sampaio, A. S., (1904), Memória sobre a ilha Terceira. Peixes. Angra do Heroísmo, Imp. Municipal: 129-136. Thomson , C. W. (1877), The voyage of the "Challenger". The Atlantic, a preliminary account of the general results of the exploring voyage of H. M. S. "Challenger" during the year 1873 and the early part of the year 1876. Londres.