chicória

Também designada por *almeirão, nomes vulgares de Cichorium intybus (Compositae), que se apresenta com uma raiz de forma cilíndrica e muito fibrosa. Propaga-se por semente. É resistente e de fácil cultivo, mas, atacada por ferrugens, oídio, míldio, lagartas, caracóis e lesmas. Segundo alguns autores será originária da Índia, segundo outros da China, porém expandiu-se para outras regiões sendo já conhecida dos antigos Egípcios, Gregos e Romanos. Tornou-se indígena na Europa (onde se encontra no estado selvagem em terrenos incultos, bermas de estradas, etc), na África Setentrional e na Ásia Ocidental.

Consoante as suas aptidões a chicória tem diversas aplicações. Tem sido utilizada na alimentação humana, há séculos, sob a forma de saladas. O paladar é semelhante ao da alface, ligeiramente mais amargo. Existem variedades, seleccionadas para salada com a parte central branca, sem estiolamento. Cultiva-se como a alface. As folhas também podem ser cozinhadas e consumidas como vegetais. Pode-se praticar a forçagem da raiz, para obter os «cichons», usando a mesma técnica que usa para as endívias (Cichorium endivia). Existem variedades seleccionadas para esta forçagem. As raízes e as folhas têm as mesmas propriedades, são tónicas, depurativas e aperitivas. Tem ainda sido usada na alimentação animal como forragem e sobretudo na obtenção de um produto considerado como sucedâneo do café, proveniente das suas raízes, que para o efeito são lavadas, cortadas, secas, torradas e pulverizadas (La Betterave Industrielle,1945).

A chicória para café, ou chicória industrial, é uma planta anual que se cultiva na Europa desde o século XVIII, sendo considerada nesse tempo como uma cultura de interesse social pela grande quantidade de mão-de-obra agrícola necessária para executar ao longo do seu ciclo vegetativo os diferentes amanhos culturais próprios.

Na actualidade, os agricultores europeus produzem-na por processos mecânicos, de forma extensiva, em países como a França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia, de entre outros sobretudo na Europa Central (La culture de la chicorée industrielle,1994), de preferência em solos ligeiramente alcalinos, utilizando para o efeito variedades melhoradas cujas raízes são grandes, com a forma cónica, carnudas e tenras.

Como outras plantas, a chicória também chegou aos Açores em finais do século XIX, como uma das possíveis alternativas para ultrapassar o vazio deixado na agricultura açoriana pelo desaparecimento de outras culturas como a *batata-doce para a indústria do *álcool, ou até mesmo a laranja. Data de 1895 a sua introdução no arquipélago, na ilha Terceira, por iniciativa do comerciante, industrial e proprietário agrícola Frederico A. de Vasconcelos, ilha onde se cultivou em grande quantidade (Correio dos Açores,1929). A partir de 1943 começou a esboçar-se um certo desinteresse pela cultura em virtude de dificuldades que se verificaram na colocação do produto industrializado no mercado do continente. A chicória desapareceu em 1952 com o encerramento da única fábrica então existente, propriedade do industrial Basílio Simões.

Na ilha de S. Miguel, a cultura e indústria da chicória teve o seu início em 1912, pelo Jardim Agrícola, localizado em Ponta Delgada (Correio dos Açores, 1929). Foi continuada por Eugénio Botelho da Câmara, Gustavo de Medeiros, José Tavares Carreiro, que se associou à Firma F. Alves Moimente, Lda. e Carlos Ferreira. (Correio dos Açores,1929). Inicialmente o seu cultivo terá sido feito numa das melhores e maiores áreas agrícolas de S. Miguel, que circunda a cidade de Ponta Delgada, mas encontrando nesta ilha outras possibilidades de expansão, rapidamente se estendeu para outras zonas, quer na costa norte, quer na costa sul, onde surgiram novas fábricas, transformando-se assim numa actividade florescente. Foi a partir de 1980 que a área cultural começou a decrescer, mantendo-se porém o seu cultivo até finais da década de 90. Após cerca de 90 anos ao serviço da agricultura micaelense, o ano de 1998 marcou o desaparecimento do cultivo da chicória nesta ilha, quando a Fábrica de Chicória de S. Roque (Engº. Clemente Soares de Medeiros), agora propriedade da Firma Clemente António e José António Medeiros cessou a sua actividade industrial.

Na ilha Graciosa a cultura de chicória fez-se pela primeira vez em 1918 por iniciativa de uma firma continental que já explorava este ramo de negócio na ilha Terceira, tendo-se mantido apenas até 1925.

Na ilha do Faial, uma firma a que estava ligado o faialense Teófilo Ferreira Garcia deu início à produção e industrialização da chicória no ano de 1956, porém passados pouco mais de 20 anos, em princípios da década de 80, terminou a sua actividade.

A maior parte da chicória produzida nos Açores era exportada seca (desidratada) para as torrefações do continente português, que aí procediam à sua torrefacção e moenda, havendo todavia duas excepções na ilha de S. Miguel. A fábrica da firma Domingos Dias Machado Suc. Lda, que comercializava este produto pronto para outras ilhas do arquipélago, e a Fábrica de Chicória de S. Roque (Engº Clemente Soares de Medeiros) que, durante alguns anos, também fazia esta última fase do fabrico do chamado “café de chicória” para venda no continente.

Desta forma, a cultura da chicória manteve-se nos Açores entre 1895 e 1998, sendo de realçar a importância que a actividade teve no contexto agrícola, industrial, comercial e social nas ilhas onde foi cultivada.

Por exemplo, na ilha Terceira, no ano de 1918 foram produzidas e exportadas 3000 t de chicória seca. Por outro lado, na ilha de S. Miguel, no início dos anos 50, eram em número de 16 as fábricas existentes que absorviam no período de laboração cerca de 33000 salários, e de 1500 os agricultores que produziam a chicória para abastecimento daquelas fábricas, ocupando no seu cultivo um número que rondava as 53000 jornas/homem.

As razões que motivaram o desaparecimento gradual do cultivo da chicória no arquipélago, podem resumir-se da seguinte forma: a) o aumento crescente e progressivo do custo de uma mão-de-obra agrícola, cada vez em menor número; b) a ausência de processos de cultivo actuais, adaptados à realidade açoriana, nomeadamente os mecânicos, com o objectivo de reduzir os custos de produção da cultura e substituir a mão de obra agrícola insuficiente; c) a ocupação de terrenos de vocação agrícola por pastagens, atendendo ao crescente desenvolvimento do sector pecuário; e d) a dificuldade de colocação da chicória seca no mercado tradicional do continente, suficientemente abastecido por produtos de outras origens, a preços mais baixos. Jacinto Fernandes Gil e Raquel Costa e Silva (Abr.2001)

Bibl. Correio dos Açores (1929), Ponta Delgada. La Betterave Industrielle (1945), Pte. III, Chicorée à café. Paris, Librairie Hachette. Ministère de l´Agriculture-Bélgique (1993), La culture de la chicorée industrielle. Bruxelas, Ministère de l’Agriculture. Vasconcellos, J. C. (1949), Plantas Medicinais e Aromáticas. Lisboa, Direcção Geral dos Serviços Agrícolas: 189.

 

 

Listagem das industrias de desidratação de chicória que existiram nos Açores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ilha

Industriais

 

Localização das industrias

 

 

 

 

 

 

 

 

Faial

Sociedade Industrial Faialense Lda

 

 

Horta

 

Graciosa

?

?

 

?

 

São Miguel

Jardim Agrícola

Jardim Sena Freitas

Ponta Delgada

 

São Miguel

F. Alves Moimenta Lda

Calheta

 

Ponta Delgada

 

São Miguel

Domingos Dias Machado Suc. Lda

Rua do Lameiro

 

Ponta Delgada

 

São Miguel

Eugénio Botelho da Camara

Carreira

 

Fajã da Cima

 

São Miguel

Dinis Mota Soares

Canada das Bolas

 

Livramento

 

São Miguel

Intercambio Comercial Açoreano Lda

Pópulo de Cima

 

Livramento

 

São Miguel

Engº Clemente Soares de Medeiros

Canada de João Leite

São Roque

 

São Miguel

Manuel Luis de Melo

Rosário

 

Lagoa

 

São Miguel

José Leite Amaral

Estrada Regional

 

Água de Pau

 

São Miguel

António B. da Camara Melo Cabral

Rua dos Oleiros

 

Vila Franca do Campo

 

São Miguel

António Inácio Flor de Lima

Ribeira Seca

 

Vila Franca do Campo

 

São Miguel

Melania Mendonça Dias

Ribeira das Tainhas

Vila Franca do Campo