charrua
Chegou aos Açores no século XIX, como um símbolo do progresso industrial e agrícola da época, uma alfaia que permite lavouras mais profundas e, consequentemente, maiores e melhores produções. A charrua foi deste modo importada e adquirida no comércio citadino, mas foi também trazida pelos emigrantes regressados dos Estados Unidos da América. Daí que, na ilha de S. Jorge, ficasse conhecida por arado da América.
As referências a esta alfaia agrícola não abundam na literatura etnográfica, provavelmente por ter uma origem industrial e exterior ao arquipélago. Contudo, Mendonça (1961-62) descreve-a no seu trabalho sobre a ilha de S. Jorge, por volta de 1960, dizendo o seguinte: o arado da Amerca ou arado americano é o nome por que designam, devido a ter sido importado da América, uma espécie de charrua quase toda de ferro. Conta já mais de 100 anos na Ilha. Empregam-no, sobretudo, para alqueivar as terras devido ao seu material e proporções mais sólidas.
Com efeito, os lavradores mais antigos acentuam ainda o melhoramento técnico que a charrua trouxe, isto é a capacidade de realizar lavouras mais profundas, virando a leiva que assim fica a decompor-se e a fertilizar o solo.
O tipo de charrua desenhada no estudo citado é muito aproximado dos tipos encontrados nas outras ilhas e noutros documentos relativos ou resto do país, em que são designadas por charrua Brabant e por charrua americana.
O uso da charrua na lavoura açoriana acabou por se divulgar. Mas a compra de uma charrua não deixava de constituir um investimento apreciável para um lavrador de posses médias, pelo que era frequente a sua compra a dois ou o seu empréstimo entre vizinhos. Estas alfaias eram geralmente compradas por inteiro, mas também podiam ser adquiridas as principais componentes de ferro, e mandadas executar as restantes nas oficinas locais de ferreiros e de carpinteiros. A sua época terminou com o vulgarização do tractor, na década de 70 do século XX. Helena Ormonde (Mai.2001)
Bibl. Alfaias Agrícolas - Exposição da Alfaia Agrícola na Tapada da Ajuda em 1898 (1989), Lisboa, Ulmeiro. Baptista, F. O. e Radich, M. C. (1996), Percursos da tecnologia agrária In O voo do arado. Lisboa, Museu Nacional de Etnologia. Mendonça, E. B. L. de (1961-62), A Ilha de S. Jorge, Subsídios para estudo da Etnografia, Linguagem e Folclore Regionais. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 19 e 20.
