charamba
Canção açoriana, antigamente, por norma, bailada. O termo era aliás utilizado como sinónimo de balho ou *bailho, por estes se iniciarem sempre com charambas. Embora com variantes distintas noutras ilhas, a mais conhecida é característica da ilha Terceira. Terá nascido da convivência de terceirenses e espanhóis (Dias, 1981), sendo cantadas variantes semelhantes na ilha Graciosa.
É normalmente executada por um cantador (ou cantador e cantadeira), acompanhado por dois tocadores de violas de arame ou, em versão instrumental, por duas violas de arame podendo uma ser substituída por violão (Cruz, 2001). Evidencia-se entre as outras canções por uma maior variedade harmónica (utilização de funções de tónica, dominante e sub-dominante, com percurso modulante entre a tonalidade de base e a relativa, por vezes com incursões à da dominante). Isso reflecte-se, ao nível da melodia, pela insistência nas notas que são cromatizadas no decorrer de modulações (por ex. dó e dó #, respectivamente quinto grau e sensível das tonalidades de fá maior e ré menor). A linha melódica, normalmente em compasso 4/4, é também caracterizada por valores rítmicos longos e sincopados, acompanhada por motivos rítmicos recorrentes na 1ª viola da terra (normalmente duas colcheias por tempo ou colcheia pontuada seguida de semicolcheia) e pelo baixo, feito pela 2ª viola ou pelo violão, marcando um acorde por compasso, em semínimas.
A charamba de S. Miguel e a charamba de Água dAlto, da mesma ilha, que já não são bailadas desde o início do século XX, não apresentam as características descritas, sendo por vezes consideradas mais pobres (Dias, 1981). As melodias, sem figuras sincopadas (ou com síncopas em valores curtos), não são modulantes e são acompanhada por acordes de tónica e dominante, que alternam a cada dois compassos. Os textos das charambas referem por vezes a sua condição de primeira dança do balho: Das modas da minha terra/ A charamba é a primeira/ Onde quer que ela se cante/ Lembra a Ilha Terceira (Id., Ibid.: 208) ou Padre, Filho e Espírito Santo/ Esta é a vez primeira/ Que neste auditório canto/ Em nome de Deus começo/ Padre, Filho e Espírito Santo (Id., Ibid.: 210). Outros incluem declarações de amor como: A tua boca ó menina/ Sorri só para quem quer/ Mas tenho fé que serás minha/ E serás se Deus quiser e Ó Charamba charambinha/ Linda moda p'ra balhar/ Saberás que vais ser minha/ E pouco tempo vai levar (Id., Ibid.: 208).
As primeiras gravações conhecidas são de 1952 (Cruz, 2001): uma cantada por Elvira Martins de Sousa (a Cassena) e Francisco Nunes Dinis (o Chico da Vila), acompanhados por Francisco Nunes e Lúcio Salvador (Santos, 1956a, nº 17); a outra, em versão instrumental, foi executada em violas de arame por Laureano Correia dos Reis e Virgínio Ávila (Id., Ibid., nº 10). Cristina Brito da Cruz (Mai.2001)
Bibl. Cruz, C. B. (2001), Artur Santos e a Etnomusicologia em Portugal (1936-1969). Tese de mestrado, Universidade Nova de Lisboa: 228 pp. [policopiado]. Dias, F. J. (1981), Cantigas do Povo dos Açores. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura.
Discografia. Santos, A. (1956a), O Folclore Musical nas Ilhas dos Açores: Antologia Sonora: Ilha Terceira 10 e 17. Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, F100.011H e F100.019G
