chamarrita

Canção bailada característica dos Açores, com exemplos documentados em todas as ilhas açorianas. Machico, Santa Cruz, Gaula e Camacha são zonas da Madeira onde também está documentada, se bem que se considere provável que este género tenha surgido nos Açores (Câmara, 1980). O termo teve origem por aglutinação de “chama” (conjugação verbal) e “Rita” (nome próprio) ou na justaposição dos mesmos, quando grafada como Chama-Rita (Id., Ibid.).

Era a dança de roda que terminava a primeira parte dos *bailhos. À segunda parte, que finalizava com uma sapateia, seguiam-se outras chamarritas “dançadas por pares isolados que se revezavam e que a assistência ia premiando com aplausos” (Lopes, 1980).

Há chamarritas “de cima”, “do meio”, “de baixo” (consoante as zonas do braço da viola em que se tocam), “do caracol” e “zaragateia” (segundo características do texto ou coreográficas), “velha”, “nova”, tendo no título o nome de uma das ilhas açorianas e outras. Por exemplo, em Santa Maria, “O Sr. Gil Batista de Andrade (Tio Gil) informou que se cantavam três chamarritas: a de Braços, a da Passada (…) e a do Faial. O toque das violas (1ª e 2ª) da Chamarrita de Braços acompanhava a sequência de bailes nesta freguesia” (ined. Artur Santos cit. In Cruz, 2001). A Chamarrita do Faial, tal como a da Terceira e do Pico, têm linhas melódicas com valores longos e sincopados, com extensões de oitava e apresentando dificuldades técnicas do ponto de vista vocal, que as restantes não apresentam. Normalmente as chamarritas estão em compassos binários compostos (grafáveis em 3/4, quando em andamentos lentos) e as suas quadras têm um carácter brejeiro e irreverente, como por exemplo: “Volta ó minha Chamarrita/ Ó minha Chamarritinha/ Se não tens a cama feita/ Vem cá, deita-te na minha” (Câmara, 1980: 52) ou “Balhei sete chamarritas/ No dia em que me casei/ Mas a volta de casar-me/ Foi a pior que eu dei” (Id, Ibid: 88).

A primeira gravação conhecida (1952) tem como cantadores Maria Georgina Costa (a “Melra Preta”) e José Martins Pereira (o “Zé da Lata”) acompanhados a duas violas de arame por Laureano Correia dos Reis e Francisco M. Faria, todos terceirenses (Santos 1956a / nº 13). Cristina Brito da Cruz (Mai.2001)

Bibl. Câmara, J. M. B. (1980), Música Tradicional Açoriana: A Questão Histórica. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. Cruz, C. B. (2001), Artur Santos e a Etnomusicologia em Portugal (1936-1969). Tese de mestrado, Universidade Nova de Lisboa, 228 pp. [policopiado]. Lopes, F./conhecido por João Ilhéu (1980), As Festas Do Espírito Santos In Ilha Terceira. Notas de Etnografia. Angra do Heroísmo. Instituto Histórico da Ilha Terceira.

 

Discografia. Santos, A. (1956a), O Folclore Musical nas Ilhas dos Açores (Antologia Sonora): Ilha Terceira 13. Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, F100.015H.