Chá Barrosa

Localizada a sua produção, na Mafoma, freguesia da Ribeira Seca, concelho da Ribeira Grande, a empresa Chá da Barrosa, Limitada produziu chá preto, com a seguinte composição: água 8,98%; matérias minerais (cinzas) 5,94%; cinzas insolúveis 2,52%; extracto aquoso, 29,40%; cafeína, 2,96%; azoto total 2,80%; celulose 8,20%; tanino 6,34 (Boletim de análise de chá, Laboratório de Química Analítica, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 1932). Nesse mesmo ano, a empresa registou as marcas “Chá família” e “Chá Barrosa”. Esta última marca recebeu a medalha de ouro na Exposição de Sevilha em 1929/1930 e o Grand Prix na Exposição de Lisboa, em 1932.

A sociedade por quotas de responsabilidade limitada, “Empresa do Chá Barrosa, Limitada”, com sede em Ponta Delgada, sendo o seu principal estabelecimento, escritório e depósito, na Rua Carvalho Araújo, nº37, tinha sido registada em 5 de Dezembro de 1924, embora tivesse iniciado as suas operações a 16 de Junho. Ela tinha como objectivo “a cultura de chá, compra de folha, seu fabrico e venda e bem assim qualquer outra exploração agrícola ou industrial”. Em publicidade datada do ano seguinte, o “Chá da Barrosa, Ldª” era apresentado como “sucessor do Chá Raposo d’ Amaral”, cuja fábrica da Ribeira Grande fora fundada em 1895.

O capital social montava a 240 mil escudos insulanos (192 mil escudos fortes) integralmente realizado e representado por 109 000$00 em máquinas, 48 000$00 em material circulante e 72 000$00 em dinheiro, correspondente às quotas dos sócios: Maria de Andrade Albuquerque Fernandes Gil (29 900$00); Jacinto Fernandes Gil (100$00); Teresa Ermelinda de Andrade Albuquerque Pereira da Costa (29 900$00); Dr. Clemente Pereira da Costa (100$00); Isabel Maria de Andrade Albuquerque (30 000$00); Dr. José Jacinto de Andrade Albuquerque de Bettencourt (30 000$00); Maria das Mercês Fisher Berquó Poças Falcão, como usufrutuária (40 000$00); Maria Clotilde Raposo de Amaral Viveiros (19 900$00); Rolando Viveiros (100$00); Luísa Maria de Melo Raposo Álvares Cabral (19 900$00); Francisco Álvares Cabral (100$00); Maria da Luz Raposo Amaral Berquó de Aguiar (19 900$00); João Maria Berquó de Aguiar Júnior (100$00); Nicolau Maria Raposo de Amaral (20 000$00). Conforme os estatutos aprovados, os negócios eram geridos por três sócios em mandatos de três anos, cabendo a gerência do primeiro triénio ao Dr. Clemente Joaquim da Costa, a Francisco Álvares Cabral e a Jacinto Fernandes Gil. A 4 de Março de 1942, os estatutos foram alterados. Doravante “a gerência pertence em conjunto a todos os sócios, bastando porém as assinaturas de dois gerentes para que a sociedade fique obrigada”, a “administração activa e passiva da sociedade” passava a ser exercida pelo sócio gerente Nicolau Maria Raposo de Amaral. A partir de finais dos anos cinquenta, assistiu-se a um processo de concentração de quotas, quer por alienação, quer por herança.

Nos finais dos anos sessenta, a empresa Chá da Barrosa Lda., que possuia plantações rústicas - 470 alqueires de terreno, nas propriedades denominadas Mafoma, Tufeira-Telhal, Vulcão, Verde tinto, Telhal, Erinha, Pico do Cordeiro - , foi avaliada em cerca de 2 500 contos. Eduardo Wallenstein, importante proprietário agrícola micaelense, então director do Grémio da Lavoura, que era “um cotista pequeno (2,7%) da empresa”, comprou todas aquelas propriedades para seu nome pessoal”, em 22 de Dezembro de 1969, “praticamente em estado não produtivo”, com terrenos, residência, refeitório e demais dependências no valor activo de mais de mil contos, pela importância de duzentos mil escudos. Nesta altura, a empresa vendeu ao novo proprietário, toda a existência na propriedade da Fábrica da Barrosa, nomeadamente, máquinas, mobiliário, latas, chá, louças, ferramentas e demais apetrechos para laboração, por 65 mil escudos.

Esta unidade industrial estava instalada numa área de 17 mil m2, com área coberta de 2 200m2, com máquinas e circuito fabril equilibrado, apoiados por áreas sociais suficientes para a produção de 40/50 toneladas/ano, mas com facilidade de duplicar pela implantação de algumas máquinas (Memorado apresentado ao Secretário Regional do Comércio e Indústria, 19 de Julho de 1983). Em 14 de Maio de 1970, a empresa recebeu um financiamento de 1600 contos do Banco Totta e Açores, activando-se, assim, a fábrica do Chá da Barrosa que se encontrava paralisada há vários anos. As jornas eram, então, de 39$00 dia para os homens e 12$00 dia para as mulheres. Ainda no mesmo ano, o novo proprietário recebia autorização para o corte raso de eucaliptos e criptomérias na área de 3 alqueires para transformação em terreno pomícola, mas como só a partir do quinto ano se começa a apanhar chá de uma plantação nova, ele solicitou autorização para exercer a modalidade industrial de torrefacção e desidratação de produtos vegetais para fins alimentares (Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, Boletim do distrito, 6 de Março de 1970, nº 11, pag.45). “Como a indústria tinha de contar com folha própria para industrializar, e sendo esta ainda em pequena quantidade, orientou o proprietário o funcionamento da fábrica no sentido de uma plena ocupação do pessoal e do equipamento, procedendo à torrefacção e embalagem do amendoim e da fava que adquiria no mercado” (Memorado do IAPMEI, 9 de Setembro de 1976). O investimento na recuperação agrícola, porém, motivou resultados negativos durante o exercício dos primeiros anos.

Apesar do optimismo do novo proprietário, os problemas não deixaram de atingir o novo empreendimento, nomeadamente os advindos pela promulgação de nova legislação laboral. A indústria do chá que se encontrava isenta de contribuição industrial (decreto n.º 45 103, art.º 14, nº25 de 1/7/1963) era, agora, obrigada a seguir a nova legislação laboral que impunha um salário mínimo de 3 300$00 (Decreto Lei 217/74 de 27 de Maio), depois de já estar penalizada com a anterior lei de 23 de Setembro de 1971, que regulamentava o pessoal da oficina com descontos para a previdência e para o fundo de desemprego (Boletim do INTP, nº40).

Em 1974, para comemorar o primeiro centenário da introdução do chá na ilha de S. Miguel, a empresa lançou embalagens comemorativas da efeméride. Agora, já só existiam cinco cultivadores directos com pequenas oficinas de fabrico, com uma produção total de 370 toneladas de folha verde, ocupando muita população jovem na época da apanhas, entre Maio e Setembro, e destinando-se metade da sua produção ao consumo insular” (Memorando enviado à Comissão de Apoio às Pequenas e Médias empresas, a 19 de Junho de 1974).

Segundo uma “Descrição e avaliação das instalações industriais” efectuada em 1977, a fábrica de chá encontrava-se implantada num terreno com cerca de 2 ha e as instalações fabris compreendiam diversos edifícios, nomeadamente a fábrica, o refeitório, a residência e as garagens. O primeiro, edifício de construção antiga, com dois pisos, estava dividido em diversos compartimentos onde se encontravam instalados, no rés-do-chão, o motor eléctrico, a caldeira a vapor, os peneiros para seleccionar o chá pelo tamanho e qualidade, enroladores, secção de chá verde, arrecadação, secadores, armazém, armazém do chá, recepção do chá, fermentação, expedição do chá embalado, oficina de apoio, enquanto, no primeiro andar, se processava a fase final de fabricação, com o murchamento, escolha e empacotamento. As principais máquinas eram o motor eléctrico, a caldeira a vapor, os peneiros, os enroladores, as centrífugas, as polideiras e os moinhos avaliados em 600 contos. No edifício contíguo, encontravam-se instalados o refeitório, a cozinha, as instalações sanitárias e o vestuário. Na residência, também com dois pisos, o rés-do-chão estava votado a arrecadação e o primeiro andar a moradia. Este património era avaliado em 4 825 000$00.

Em 15 de Fevereiro de 1981, ainda se publicitavam as qualidades do chá da Barrosa – Moinha preta, Popular, Família, Barrosa, lata Barrosa Extra, Carão Barrosa Extra, Verde, com os seus preços para o comércio e para o público. Produziam-se, então, chá preto, verde e pérola. Os valores das suas vendas constam do quadro.             

Mas dificuldades crescentes, como a falta de mercados e a subida acelerada das taxas de juro (6% em 1969 e mais de 32% em 1982) dificultaram a vida ao proprietário, que criou uma estação-piloto nas suas propriedades e que pensou constituir uma sociedade por quotas, pela cedência gratuita da propriedade – 60% aos filhos e 40% aos trabalhadores.

O decreto regional nº27/82/A de 3 de Setembro com vista ao saneamento económico-financeiro de empresas de interesse regional não foi suficiente para manter em funcionamento esta estrutura industrial. Aliás, no programa do Segundo Governo Regional o interesse pelo chá desaparecera. A antiga fábrica de chá da Mafoma, propriedade de Luísa Mafra (que havia laborado até 1974), recebia um subsídio para se transformar em espaço museológico, em 1983; a firma Amâncio Faria e Maia e Herdeiros encerrava, em 1984; a Barrosa mudava de proprietário e a Gorreana mantinha-se, apesar dos graves problemas financeiros.

A proximidade das instalações da empresa chá Barrosa ao novo projecto Geotérmico, a abundância de mão-de-obra na freguesia e a construção da via rápida Ponta Delgada – Ribeira Grande atraíram os capitais de Jaime Pereira da Silva, emigrante micaelense no Canadá, que, em 1987, adquiriu 12 hectares na Ribeira Seca integrados numa propriedade de 374 alqueires de chá, abandonados há anos. Na altura, trabalhavam três operários. Um ano depois, já havia investido 35 mil contos, os 12 hectares estavam recuperados, as máquinas da fábrica prontas a trabalhar, mais 7 hectares estavam preparados para a nova plantação e a produção atingiu as 13 toneladas de chá, cinco vezes mais do que no ano anterior – quando iniciara a laboração na sua fábrica (Açoriano Oriental, 7 de Dezembro de 1992). Empregava, agora, quatro funcionários permanentes, mas chegara a admitir três a quatro dezenas de trabalhadores durante o período da apanha. (Açores, 15 de Maio de 1987). Em 1988, um incêndio consumiu a fábrica Barrosa e o seu proprietário desiludido com os entraves burocráticos locais, transformou os terrenos de cultura em pastos. Fátima Sequeira Dias (Jun.2000)

Fonte Arquivo da família Eduardo Wallenstein.

 

Chá Barrosa: valores das vendas (1970-1985)                          

 

kg

Anos

 753

1970 (de Outubro a Dezembro)

 4 279

1971

 6 720

1972

 7 772

1973

 9 126

1974

 9 051

1975

12 701

1976

13 469

1977

14 589

1978

12 987

1979

10 903

1980

10 844

1981

10 640

1982

 9 978

1983

 8 797

1984

 6 169

1985 (de Janeiro a Setembro)