chá
História Natural Nomes vulgares de Camellia sinensis (Theaceae). Dicotiledónea. Largamente cultivada na Ásia e noutras regiões. A sua origem é obscura, supõe-se que tenha sido a China Ocidental. A altura desta planta pode variar entre 1 e 6 m, apresenta folhas coriáceas, verde escuras, elípticas com o apex obtuso, base cuneada, margem serrulada, com os dentes incurvados, glabras na página superior, com epiderme lisa ou verrucosa, na página inferior, verdes claras e vilosas, pecíolos de 3-7cm; flores 1-2 nas axilas, 2-3 no nó abaixo do gomo terminal, corola de 2cm, branca, côncava; estames múltiplos, até 13mm, unidos na base; ovário densamente coberto de pelos, estilete de 3mm, tripartido no apex; fruto, uma cápsula trilocular com 1-2 sementes por lóculo. Bebe-se chá na China há mais de 3 000 anos. Considera-se esta bebida medicinal porque contém anti-oxidantes do grupo dos polifenóis que ajudam a proteger contra o câncer e doenças cardíacas. Tem acção diurética, estimulante do sistema nervoso e bactericida. O seu consumo é desejável em casos de hepatite e gastroenterite. Externamente pode amenizar irritações ligeiras da pele, mordeduras de insectos ou cansaço dos olhos. O consumo excessivo pode conduzir a indigestão, insónia, irritabilidade e palpitações. O chá tem um elevado conteúdo de taninos, 10-24%, o que pode contribuir para o câncer do esófago. O leite elimina os taninos, razão porque se deve consumir o chá com leite. Raquel Costa e Silva (2001)
HISTÓRIA DA INTRODUÇÃO NOS AÇORES As primeiras sementes de chá lançadas à terra em S. Miguel, terão vindo do Brasil em 1820, por intermédio de Jacinto Leite, comandante da guarda real, na corte de D. João IV, no Rio de Janeiro. O local escolhido para a sementeira foi o das Calhetas, concelho da Ribeira Grande, onde era possuidor de vários terrenos.
Tido como planta de ornamentação, o incremento da sua produção só veio a verificar-se, na segunda metade do século XIX, quando o comércio da laranja entrou em declínio. Face à redução das receitas, os grandes proprietários agrícolas da ilha procuraram sucesso em produções alternativas, quase todas elas de carácter exótico, com vista a uma fácil colocação nos mercados nacional e inglês, neste período, habituais destinatários de culturas agrícolas da ilha.
Em 1874, a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, em sessão de 15 de Abril, consignou a quantia de 200 mil réis insulanos para ensaios de cultura e preparação do chá. Volvidos quatro anos, a mesma organização, sob patrocínio financeiro do Barão da Fonte Bela, promoveu a vinda de dois chineses, de Macau, para ministrarem na ilha conhecimentos sobre técnicas de cultivo e manipulação do chá, tendo por finalidade a industrialização da produção. Em Novembro desse mesmo ano de 1878, no Clube Micaelense, em Ponta Delgada, e no Clube Lisbonense, em Lisboa, as primeiras produções foram objecto de apreciação, recebendo os elogios de quem provou a bebida.
Já em 1879, uma comissão nomeada Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense e composta por Caetano dAndrade Albuquerque, Luís do Canto da Câmara Falcão, José Maria Coutinho Carreiro de Castro, Manuel Botelho Gusmão, José Maria Raposo do Amaral Júnior e Ernesto do Canto, que exerceu as funções de redactor, redigiu favoravelmente um relatório sobre os resultados entretanto obtidos com as plantações da ilha: 51 quilogramas de chá preto e oito do verde.
A avaliação química da nova produção, ainda promovida por aquela Sociedade, foi nesse ano realizada em Londres e Paris, em laboratórios especializados, que também concluíram pela sua elevada qualidade. A arrojada iniciativa dos locais perspectivava, assim bons sucessos para o desenvolvimento de uma actividade económica que em muito poderia ajudar a debelar a grave crise do comércio da laranja.
Perante resultados tão satisfatórios, os proprietários micaelenses empreenderam esforços para proteger o chá de produção local, algumas das vezes por intermédio dos seus representantes nas Cortes. Foi o caso de um Projecto de Lei de 14 de Março de 1881, apresentado por Caetano dAndrade Albuquerque, documento que, todavia, não nunca chegou a ser votado.
O texto da iniciativa legislativa baseava-se no elaborado e aprovado por unanimidade pela Junta Geral de Ponta Delgada, presidida por José do Canto, um dos principais proprietários de terrenos onde se experimentara a nova produção. Fundamentava-se a proposta no contributo que esta produção dava ao emprego de mão-de-obra e à valorização das propriedades fundiárias da ilha. Por um período de 15 anos não seria elevado o rendimento colectável dos terrenos onde fosse aplicada a cultura e o chá produzido, durante esse espaço de tempo, ficaria isento de todo o direito e contribuição geral do Estado. Preconizava o proponente que este regime de excepção fosse aplicado no continente, nas colónias ultramarinas e ilhas adjacentes, onde se produzisse chá. O prazo de vigência era, todavia, cinco anos menos longo do que o aprovado pela Junta Geral.
Em 1882 e 1883, aquele corpo administrativo do distrito de Ponta Delgada instituiu três prémios anuais, de 80, 40 e 20 mil réis, para os melhores produtores e manipuladores, demonstrando assim o empenhamento das autoridades locais no fomento da produção de chá.
Logo surgiram as primeiras unidades industriais de fabrico do chá, entre as quais a Gorreana (1883), a única que se mantém em laboração e que se dedica a esta actividade em toda a Europa. A 11 de Fevereiro de 1886, no Diário de Anúncios, que então se publicava em Ponta Delgada, pela primeira vez era publicitada a venda de chá, de cultura e fabricação micaelense.
O alargamento da área cultivada implicava, necessariamente, a divulgação das técnicas a considerar na plantação, colheita e manipulação do chá. Em 1892 a Typografia Minerva, de Ponta Delgada, editava o Manual do cultivador e manipulador do chá, publicação que também inseria um capítulo dedicado à contabilidade, com diversos conselhos aos produtores, incluindo em apêndice modelos de folhas contabilísticas.
A maior parte do chá micaelense era consumido no mercado local, sendo o continente e a ilha do Faial os destinos da exportação.
O período áureo da produção de chá de S. Miguel teve lugar antes da Segunda Grande Guerra, quando a ilha chegou a dispor de 16 fábricas, todas de pequena dimensão, utilizando muito mão-de-obra, principalmente feminina, e que chegavam a laborar anualmente mais de 70 mil toneladas do produto.
Os baixos índices de mecanização desta cultura, a par da crescente importância da pecuária e dos elevados fluxos migratórios, foram factores determinantes do seu declínio, segundo um relatório elaborado pelo Ministério da Economia, em 1970, com base em dados fornecidos pela Junta Geral do distrito de Ponta Delgada. Nessa altura já o chá deixara de figurar entre as exportações micaelenses de valor mais significativo.
Em meados da década de 1980 iniciou-se a colheita mecânica na Fábrica Gorreana. Situada na costa norte da ilha, esta unidade fabril, de exploração familiar, actualmente produz por ano entre 25 e 30 toneladas de chá. Muita da sua laboração é exportada para os Estados Unidos, Canadá e Alemanha, rendendo na totalidade aproximadamente 50 mil contos.
Diversos estudos científicos têm sido realizados sobre as múltiplas acções profiláticas dos polifenóis do chá açoriano.
Para além do seu consumo como bebida, o chá verde marca presença na gastronomia de S. Miguel, na confecção de um delicioso pudim de chá, que a hotelaria local faz requinte em servir aos forasteiros. Joaquim Machado (2001)
LINGUÍSTICA s., Utilizado na expressão «Não tomar chá em pequeno». Diz-se da pessoa que é mal-educada (Faria). João Saramago e José Bettencourt (2001)
Bibl. Almeida, G. (1892), Manual do cultivador e manipulador do chá.
