cevada

HISTÓRIA NATURAL Há cerca de 20 cevadas entre as quais plantas anuais e vivazes, espécies cultivadas para a alimentação humana e de animais, plantas ornamentais e ervas, todas incluídas no género Hordeum (Gramineae). Monocotiledóneas. Hordeum é uma corruptela do latim horridus, talvez devido à sensação desagradável que se sente ao tocar nas espigas das cevadas.

cevada Nome vulgar de Hordeum vulgare, também conhecida por cevada-das-quatro-ordens ou cevada-das-seis-carreiras, é uma das espécies usadas na alimentação. Originária da Ásia e Norte de África, foi domesticada há 10 000 anos. Atinge a altura de 60-110 cm. Apresenta folhas largas; lígulas curtas e membranosas; três espiguetas em cada nó, todas sésseis, dispostas em espigas, duas glumas subiguais em cada espigueta, múticas ou com arista muito curta, duas glumelas, a glumela inferior com arista comprida, até 12 cm ou mútica; fruto uma cariopse canaliculada com um apêndice pubescente no cimo. Eram de cevada as espigas que enfeitavam a deusa Ceres dos Romanos, protectora da agricultura. Foi o cereal usado pelos Césares para alimentarem os seus exércitos, uma espécie de papas ou de bolos de cevada, complementados com queijo, uma alimentação correcta que lhes permitiu conquistar um tão espantoso império.

cevada-de-cerveja Nome vulgar de Hordeum distichon, também conhecido por cevada-das-duas-ordens ou cevada-das-duas-carreiras. Só a espigueta central é fértil e longamente aristada, as duas laterais masculinas e múticas, espiga frouxa. Usada na fabricação do malte, produto com grande valor alimentar, cuja principal aplicação é a cerveja.

cevada santa Nome vulgar de Hordeum distichon, var. coeleste. Aristada a espigueta média, as duas laterais masculinas e múticas, espiga frouxa, cariopse livre. Usada, depois de torrada e moída, como sucedâneo do café.

Nos Açores, a cevada foi cultivada como o centeio e a aveia para obter sementes de gramíneas para misturar nos “outonos”. A Graciosa foi a ilha em que esta cultura teve maior interesse económico, tendo sido utilizada na alimentação humana e de animais, enviada para as outras ilhas, e, também para o Continente para torrefacção.

cevada-dos-ratos Nome vulgar de Hordeum murinum, ssp. murinum, erva que se encontra em todas as ilhas dos Açores, com excepção do Corvo, vulgar nas bermas dos caminhos e em terrenos incultos. Fasciculada, geniculada-ascendente, apresenta as duas espiguetas laterais de cada nó pediceladas e masculinas, a espigueta central sub-séssil e fértil, glumas e glumela inferior aristadas, aristas curtas, glumas externas das espiguetas laterais setiformes, as outras quatro mais largas e celheadas. Muito semelhante à anterior, mas maior, com as glumas mais largas, e, espiga maior, existe também nos Açores, Hordeum murinum, ssp. leporinum, conhecida no Continente por cevada das lebres, mas não lhe é conhecido nome vulgar nestas ilhas.

cevadinha produto usado em culinária para engrossamento de caldos ou de sopas. Recomendado para crianças, idosos e convalescentes. São grãos de cevada descorticados e depois polidos.

cevadas ornamentais cultivadas nos jardins e para flor seca. São principalmente duas espécies, Hordeum jubatum, originária da América do Norte e Nordeste da Ásia e Hordeum hystrix da região mediterrânica e Ásia Central. Raquel Costa e Silva (2001)

AGRICULTURA H. vulgare é um cereal praganoso de aspecto semelhante ao do trigo, principalmente nas primeiras fases de crescimento, até ao espigamento. Do trigo difere apenas em questões de detalhe, nomeadamente no comprimento das diferentes fases de crescimento e em exigências de ordem climatérica no que respeita aos factores temperatura e luz. A sua sementeira pode ser feita em duas épocas distintas do ano, na Primavera ou no Inverno. Na primeira, o ciclo vegetativo completa-se ao fim de 80 a 100 dias, ao passo que na segunda este termina passados 250 a 300 dias. O rendimento da cevada depende de diferentes factores, dos quais os mais importantes são a resistência ao frio, para a cevada de Inverno; a resistência à “acama”; e a resistência a algumas doenças criptogâmicas. (Castilho, 1947).

Embora não se encontrem muitas notícias acerca do seu cultivo nos Açores, tudo leva a crer que a cevada tenha começado a ser cultivada em terras açorianas não muitos anos após o povoamento. Assim, em dois documentos datados do ano de 1622 (Archivo dos Açores, 1883: 434-435) encontram-se referências à produção de cereais, nomeadamente a cevada, e outros produtos agrícolas na ilha de S. Miguel. Da leitura destes documentos intitulados, respectivamente, “Voto da Governança da Ribeira Grande, sobre os direitos dos cereais; 1622” e “Auto e assento sobre se emformar a S.R.M. se he bem tirar o triguo desta villa para fora da ilha sem que lhe paguem direitos; 3 d´Abril de 1622”, não será difícil concluir da importância que a agricultura tinha para as populações açorianas, nomeadamente através do cultivo da cevada, já na época a que dizem respeito os documentos referidos.

Porém, o cultivo da cevada não esteve circunscrito à ilha de S. Miguel, antes pelo contrário, estendeu-se um pouco por todo o arquipélago. Um documento de 1660 (Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 1960 ) refere «a exportação anual de 300 moios de cevada da ilha de Santa Maria para o Reino, para utilização nas estrevarias de Sua Magestade», outros mencionam a existência de cevada nas ilhas Terceira, Graciosa, Faial e Flores, no século XIX, e finalmente, que em meados do século XX a sua produção era ainda na ilha Graciosa, de onde era exportada para outras ilhas do arquipélago (Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais, 1948).

De forma particular depois do terceiro quartel do século XX, a agricultura açoriana sofreu uma transformação profunda, em virtude do incremento que se verificou no sector pecuário. A necessidade de aumentar a área das pastagens para o gado, cada vez em maior número, fez reduzir os terrenos dantes ocupados pelas culturas anuais tradicionais, que assim foram desaparecendo. Neste contexto inclui-se também a cevada.

Em consociação com o tremoço, e mais tarde com a ervilhaca do Caia, a cevada foi muito usada nos “outonos” que se destinavam à alimentação do gado no período invernal, quando a produção de erva nas pastagens decrescia, garantindo assim a alimentação animal neste período de carência forrageira. Esta prática também veio a desaparecer na medida em que surgiram outras alternativas mais conducentes com a evolução que se verificou neste sector. Jacinto Fernandes Gil (Mar.2001)

Bibl. Archivo dos Açores (1883), Ponta Delgada, V: 434-435. Bown, D. (1995), Encyclopedia of Herbs & Their Uses. Londres, Dorling Kindersley: 294. Cabral, A. (1948), Última estatística agrícola nos Açores. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 8, 62. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores (1950), A agricultura faialense na 2ª metade do Século XVIII. Ponta Delgada, 11, 111. Ibid. (1951), Um documento inédito sobre comércio de cereais na ilha Terceira. Ponta Delgada, 13, 132. Ibid. (1952), A produção da ilha Graciosa no meado do Século XIX, 16, 115. Ibid. (1952), A agricultura da ilha das Flores, em 1831, 16, 116. Ibid. (1960), Cevada para as estrevarias de Sua Magestade, 31/32, 156. Castilho, A. (1947), Gazeta das Aldeias In Manual Enciclopédico do Agricultor Português. Porto, fasc. 38, 593 e segs. Coutinho, A. X. P. (1913), A Flora de Portugal. Lisboa: 100. Larousse Agricole (1952), 4ª Ed., Paris: 178 e segs. Palhinha, R.T. (1966), Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores. Lisboa, Sociedade de Estudos Açoreanos Afonso Chaves. Rocha, F. (1966), Nomes Vulgares de Plantas Agrícolas. Lisboa, Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas: 123 e 312. Wiebe, G. A. (1967) U.S.D.A. In Encyclopedia International. Nova Iorque, Grolier Inc., II: 390.