Centeno, António (D.)
(Senteno). Governador dos Açores (1593-1600). Mestre de Campo. Cavaleiro da Ordem de S. João de Malta. Para os cronistas, o governo de D. António Centeno caracterizou-se pelo autoritarismo, pela arrogância, pela arbitrariedade. Comandante do Terço espanhol, foi detestado pelos seus soldados, sangrentamente reprimidos quando contra ele se amotinaram; representante máximo de D. Filipe I e de D. Filipe II no arquipélago, no comando das gentes de guerra, incompatibilizou-se com o bispo de Angra e imiscuiu-se abusiva e desmedidamente no regimento da terra, prendendo e vexando os seus opositores, levando as Câmaras a pedirem à Corte a sua retirada da Terceira. Malgrado a sua personalidade controversa, na verdade António Centeno assumiu o governo dos Açores e do presídio militar em circunstâncias particularmente difíceis, nomeadamente na Terceira, onde ambos estavam sediados. Deixara o marquês de Santa Cruz cerca de dois mil soldados na pacificação da ilha. Dominada a rebeldia, por cá se manteve essa força, pelo perigo que a pressão dos corsários em águas açorianas representava para a segurança da navegação transoceânica que aos Açores confluía. Esgotados os proventos do saque de 1583, com soldos em atraso, sem instalações próprias e aboletados em casas da cidade e das vilas, esses homens, na ociosidade e com enquadramento precário e a ele adversos, muitos com família entretanto constituída, eram fonte de constantes desacatos públicos, e exerciam toda a espécie de extorsões e vexames contra os habitantes sobre os quais recaía o pesado encargo de dar sustento a todo o presídio. Ainda mal refeita da penúria em que o dito saque lançara a economia local, sobreveio a fome logo no primeiro ano do governo de Centeno, pela falta de produção cerealífera então ocorrida; como de penúria foram os três anos imediatos, agora fartos em frutos da terra, estes, porém, encaminhados para o Reino, face aos tempos improdutivos que aí se verificaram. Pressionado pelas necessidades do presídio, com as obras do Castelo de S. Filipe, iniciadas pelo seu antecessor D. António de la Puebla, também elas pesando sobre as finanças locais, fintou desmesuradamente os fracos recursos da produção e do comércio, à revelia dos poderes civis; sem conseguir satisfazer as ambições incontroláveis da soldadesca; provocando o descontentamento e a oposição expressa das gentes da terra e dos seus legítimos dirigentes.
A campanha de corso levada a efeito pelo conde de Essex, em 1597, reforçou a importância da presença militar espanhola nos Açores que, sem conseguir evitar o saque da Horta, permitiu que na estratégica baía de Angra onde arribara, a frota das Índias fosse eficazmente defendida, sob o comando do governador Centeno, gorando os intentos do inglês que a perseguia.
Começou o governo de D. António Centeno no ano da fome; terminou com uma mortífera epidemia, o ano do mal. O terrível contágio, que atingiu a Terceira entre 1599 e 1600, vitimou cerca de sete mil pessoas e provocou significativa quebra na economia local pela impossibilidade da prática de comércio com as restantes ilhas.
Finalmente, em 1600, D. Filipe II, atendendo às súplicas dos terceirenses, ordenou o regresso a Espanha de D. António Centeno. Foi substituído por D. Diogo de Miranda Queirós, primeiro governador do Castelo de S. Filipe do Monte Brasil. Manuel Faria (2002)
Bibl. Drummond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura, I. Meneses, A. F. (1987), Os Açores e o Domínio Filipino (1580-1590). Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, I. Maldonado, M. L. (1990), Fenix Angrence. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. S.l., Secretaria Regional de Educação e Cultura/ Universidade dos Açores.
