cavalos

Os descendentes directos dos garranos, dos sorraias e dos primitivos lusitanos que os portugueses provavelmente transportaram nas caravelas para o arquipélago logo após a descoberta deste em 1431, multiplicaram-se nos Açores durante alguns anos em plena liberdade e apenas com a convivência dos outros animais que foram seus companheiros de viagem. Anos depois, quando os primeiros colonos desembarcaram nas ilhas, submeteram-nos ao treino exigido pelas tarefas prementes de transportes de bens e pessoas. Sem a ajuda dos bovinos, dos burros e dos muares, dificilmente conseguiriam desempenhar-se cabalmente das suas funções, pois os trabalhos pesados que foram surgindo com crescente frequência, eram incompatíveis com a sua capacidade física, pois a equinicultura nacional não dispunha de raças hipermétricas próprias do tiro pesado. De resto, os monarcas portugueses da época preocuparam-se essencialmente com o melhoramento do cavalo de sela (D. João I e D. Duarte, e mesmo D. João II, que chegou a proibir que se montassem machos, mulas, sendeiros e rocins, para promover a produção e a qualidade dos animais de raça). D. Manuel e os Filipes votaram as coudelarias ao abandono. A partir do século XVII, a situação melhorou a níveis europeu e nacional. Os equinos dos Açores nunca tiveram grande expressão numérica e foram normalmente utilizados como animais de tiro ligeiro e de sela. A criação das Intendências de Pecuária nas sedes dos ex­-distritos de Ponta Delgada, de Angra do Heroísmo e da Horta, a partir de1861, permitiu a cedência ao Arquipélago de reprodutores nacionais de boa qualidade. Mas mesmo assim, numa amostragem de 341 cavalos, só 5,9 % revelaram uma altura média ao garrote de 1,55 m, em 1990. Apesar da sua lenta evolução, não deixaram os equinos de desempenhar um papel importante na vida açoriana. Há uns 70 anos atrás, era pitoresco o aspecto das ruas com o movimento de viaturas hipomóveis, desde os carros e carroças típicos dos Açores até às charretes, às vitórias, aos landaus e aos populares char-à-bancs. Com a motorização generalizada dos transportes, os efectivos de equinos sofreram uma apreciável redução. Recentemente verifica-se um interesse crescente das camadas mais jovens da população pelos desportos equestre. S. Miguel e Terceira já dispõem de bons picadeiros cobertos e são numerosos os seus utentes. A permanência de reprodutores lusitanos da Estação Zootécnica Nacional nos Serviços de Desenvolvimento Agrário Regional e a importação de alguns reprodutores nacionais e estrangeiros por entidades privadas, poderão dar um novo rumo à equinicultura dos Açores, tanto mais que existe abundância de forragem no arquipélago e o mar constitui uma barreira sanitária de incalculável valor. As velhas tradições tauromáquicas da ilha Terceira, com exibições em redondel de grandes toureiros com cavalos Veiga, Sommer de Andrade, Ortigão Costa e tantos outros, mantêm uma afición que não dispensa a arte equestre de alta escola. As raças estrangeiras importadas (puro-sangue inglês, em S. Miguel e lipizzana na Terceira) foram, por enquanto, em número insignificante e não irão interferir na expansão da lusitana, que se mantém favorita. Pelo Recenseamento Geral Agrícola de 1999 existiam no arquipélago 4363 cavalos, 1269 burros e 253 muares, distribuídos na forma constante do quadro 1. O quadro 2 mostra a variação do número de equinos para os anos 1926, 1965 e 1985. José Leal Armas (Fev.2001)

Bibl. Andrade, R. B. (1971), Elementos para a História da Coudelaria de Alter. Boletim Pecuário, Lisboa. Cuenca, C. L. (1945), Zootecnia. Madrid, Imprenta y Editorial Viuda de Juan Pueyo. Dechambre, P. (1912), Traité de Zootechnie, Tomo II: Les Equidés. Paris, Charles Amat. Escola Superior de Medicina Veterinária (1936), Índice Bibliográfico dos Escritos dos Autores Veterinários Portugueses. Lisboa. Goodall, D. M. (1974), Horses of the World. Nova Iorque, MacMillan Publishing Co. Monjardino, M. L. (1991), Equídeos. Relatório de Estágio. Angra do Heroísmo, Universidade dos Açores. Nadolny, D. (1984), Equídeos. Relatório de Estágio. Angra do Heroísmo, Universidade dos Açores.

 

Quadro 1 – Número de equinos existentes no arquipélago, em 1999.

Fonte: Serviço Regional de Estatística dos Açores, Recenseamento Geral Agrícola, 1977 (corrigido em 1978 para S. Miguel -80 -85 -89 -99)

 

 

equinos

burros

muares

Santa Maria

93

17

2

S. Miguel

2314

101

23

Terceira

653

522

58

Graciosa

250

233

2

S. Jorge

327

175

59

Pico

277

49

89

Faial

362

125

7

Flores

59

36

6

Corvo

28

11

7

total

4363

1269

253

 

Quadro 2 - cavalos variação do número de equinos entre 1926, 1965 e 1985 Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Arrolamento Geral de Gados - Animais de Capoeira, 1926 -1934 -1940 -1955 -1973; Serviço Regional de Estatística dos Açores, Recenseamento Geral Agrícola, 1977 (corrigido em 1978 para S. Miguel -80 -85 -89 -99)

ano

1926

1965

1985

equinos

3805

5282

7321